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POSITIVISMO NO SÉCULO XIX
Claudia Alves[0]

 

1.      Breve itinerário histórico do positivismo

            No dia 19 de janeiro de 1798, na cidade francesa de Montpellier, nascia Isidore-Auguste-Marie-François-Xavier Comte (1798-1857). Naquele momento, o processo revolucionário iniciado em 1789 caminhava para um desfecho que levaria Napoleão Bonaparte ao trono francês, sagrado imperador em 1804. O futuro fundador do positivismo chegava a este mundo sob o signo de mudanças profundas empreendidas por eventos que revolucionavam tanto os processos econômicos quanto a organização política, e que repercutiriam mundialmente no século XIX, partindo do continente europeu.

            A corrente de pensamento denominada de positivismo está indissoluvelmente ligada ao nome de Auguste Comte e aos textos que publicou entre 1830 e 1854, nos quais se pode encontrar o uso que cunhou para o termo “positivismo”. Suas duas grandes obras, o Curso de filosofia positiva (1830-1842) e o Sistema de política positiva ou tratado de sociologia instituindo a religião da humanidade (1851-1854) apresentam a sistematização dos princípios filosóficos que defendia e que considerava a expressão máxima de um caminho que levaria o homem ao mais alto grau de evolução. Embora tenham sido produzidas na primeira metade do século XIX, a grande repercussão das concepções positivistas ocorreu na segunda metade daquele século, e ainda na primeira metade do século XX o chamado neopositivismo ganha fôlego com a assimilação dos meios formais da lógica matemática[1]. Na segunda metade do século XX, a crítica contundente ao seu reducionismo fez diminuir sensivelmente seu espaço de influência[2].

            O percurso intelectual de Comte confundiu-se com sua história psíquica e emocional de tal forma, que uma forte tendência mística se apoderou de suas formulações, após a morte de sua amada Clotilde de Vaux, levando-o a formular a proposta de uma religião positivista. O projeto de fundação de uma nova religião foi exposto, também, no livro Catecismo positivista ou exposição sumária da religião universal, publicado em 1852, cinco anos antes de sua morte. Algumas inflexões interpuseram-se, então, em suas construções teóricas que o fizeram se distanciar do cientificismo original e a valorizar a tradição e o fetichismo[3]. No presente texto, não pretendemos abordar esses aspectos de seu pensamento.

            Na Inglaterra, John Stuart Mill (1806-1873) seria o outro intelectual que, na primeira metade do século XIX, atuaria na consolidação dos princípios positivistas Identificando-se com as ideias defendidas por Auguste Comte, sobretudo pelo posicionamento empiricista e antimetafísico, Mill, entretanto, conservou traços mais marcadamente liberais na sua filosofia, e tornou-se radical opositor de Comte depois que este manifestou sua tendência mística. Concentrou-se na defesa da lógica indutiva na sua obra mais importante, o Sistema de lógica dedutiva e indutiva, de 1843. Para ele, a filosofia deveria orientar-se pelos fatos conhecidos cientificamente e pelos métodos das ciências reais[4], princípio que pavimentou a influência que exerceu sobre os seguidores do positivismo no século XIX, mais afinados com este discurso do que com a posição de Comte[5].

            O ideário positivista acompanha um conjunto de tendências de pensamento que atravessam o século XIX, algumas delas assumindo naquele momento o seu formato mais bem acabado. Os escritos de Auguste Comte, Stuart Mill e outros sintetizam princípios que se contrapunham frontalmente à metafísica, afirmando a prevalência da realidade sensível sobre qualquer percepção prévia. Acentua, por essa via, os contornos de vertentes filosóficas modernas que precisam ser consideradas para que o possamos compreender.

            Na segunda metade do século XIX, o pensamento positivista manifestou-se em autores que investiram em pesquisas metodológicas e de teoria da ciência, como Ernst Mach (1838-1916) e Richard Avenarius (1843-1896)[6]. Já no século XX, no período entre as guerras mundiais, uma vertente considerada neopositivista, foi denominada de “empirismo lógico”, por ser marcado pela concepção de que só pode ser considerado conhecimento aquilo que pode ser justificado por meio da empiria e com a ajuda da lógica[7]. Seus representantes – com destaque para Moritz Schlick (1882-1936), Hans Reichenbach (1891-1953), Kreis Rudolf Carnap (1891-1970), Otto Neurath (1882-1945), Herbert Feigl (1902-1988) e Viktor Kraft (1880-1975) – mantiveram uma postura antimetafísica, mas avançaram e, muitas vezes, distanciaram-se do positivismo original, por meio do recurso a proposições apoiadas na lógica matemática[8].

            Não pretendemos, aqui, percorrer essa trajetória histórica, acompanhando os desdobramentos, inflexões e permanências dos aspectos constituintes do ideário positivista ao longo de um século e meio de sobrevivência na pauta das discussões filosóficas contemporâneas. Enfocaremos somente os princípios fundamentais postos na sua formulação original, da primeira metade do século XIX, principalmente elaborada por Auguste Comte, partindo daí para a sua repercussão no Brasil e os ecos que podemos observar nas concepções que envolvem a educação no mesmo século.

2.      Positivismo e ciência

            A construção do pensamento moderno teve como pressuposto a afirmação de alguns postulados fundamentais, que concediam um lugar central às respostas obtidas por meio dos enunciados matemáticos. Esse modo de tradução do mundo apresentou-se como o mais seguro para explicar os fenômenos naturais e fundou a ciência moderna como prática cultural que viria a se tornar a forma hegemônica de pensamento, determinando os critérios de seleção e hierarquização dos saberes.

            No início do século XVII, Descartes procurou sistematizar o método para obterem-se juízos justificáveis e verdadeiros sobre todo objeto que se apresenta ao espírito[9]. Ao estabelecer o princípio da dúvida metódica como base da construção de um conhecimento solidamente amparado em certezas, Descartes propunha o uso da razão humana no questionamento às visões enraizadas na tradição, às opiniões circulantes na vida cotidiana, assim como às suposições que buscavam edificar o conhecimento científico[10].

            O ideal de objetividade que integra o cogito cartesiano fundava a oposição sujeito/objeto, que remetia à dualidade interior/exterior como um dos dilemas do pensamento moderno[11]. A matematização da realidade, ao mesmo tempo que realizava o ideal dos pensadores antigos de busca de um conhecimento seguro, rompia com o quadro mental herdado da tradição cristã, deslocando a dimensão transcendental do mundo, ao anular a diferença entre o céu e a terra[12].

            Esse movimento foi completado com radicalidade por Galileu, cujas formulações estabeleceram um corte epistemológico com o mundo antigo e medieval, ao geometrizar o espaço e demolir a noção de cosmos, caracterizada pela finitude, e substituí-la pela ideia de um universo aberto, indefinido e unificado[13]. A ciência natural matemática, que fundava, desmontava a suposição de que os eventos naturais fossem determinados pelas finalidades quanto à distinção entre o mundo supralunar e sublunar, cada qual regido por leis específicas[14].

            O pensamento filosófico, a partir de então, necessitou redefinir-se, na medida em que o conhecimento da natureza passaria a ser formulado com base em princípios completamente novos. A reflexão cartesiana demarca o itinerário que, a partir de então, seria percorrido pela filosofia, tomando a si a tarefa de refletir sobre o conhecimento (cotidiano ou científico) da realidade, isto é, de questionar suas pressuposições, seu alcance e seu grau de certeza[15].

            A recuperação desse momento fundador da ciência moderna e do racionalismo que projetaria sua luz nos séculos seguintes parece-nos imprescindível à compreensão de uma face marcante das concepções de Comte, sistematizadas no positivismo. Embora depositasse sobre o pensamento científico a esperança de um estágio superior do espírito humano, sua posição significava, ao mesmo tempo, um corte radical com a pretensão de alcançar um conhecimento absolutamente confiável e seguro. Sua busca por um conhecimento com o máximo de objetividade abandonava por completo os pressupostos ligados às essencialidades e fundamentos dos fenômenos. No século XIX, as formulações do positivismo atuaram como ferramentas eficazes no combate ao pensamento metafísico, retirando do racionalismo os aspectos especulativos[16].

            O ponto de vista que busca associar filosofia e ciência tinha raízes em proposições de alguns iluministas, e encontrava eco no tempo vivido por Comte, um momento do século XIX orientado pelo sucesso inquestionável do método das ciências naturais e reativo às concepções do romantismo. A vertente materialista da Ilustração, que tem o barão D’Holbach como seu expoente, identificava os fenômenos sociais e psíquicos aos naturais, concebendo o universo humano como um mundo físico mais complexo. Por essa via, finda por depositar no conhecimento científico a expectativa de orientação dos valores e finalidades da vida social. Somente o conhecimento do real poderia fornecer à consciência os parâmetros de conduta[17].

            No século XIX, esse cientificismo iluminista é enriquecido com a inserção da dimensão histórica que ganha força com as novas teorias que acrescentam o tempo como categoria para se pensar também o mundo natural. Os problemas relativos à gênese, desenvolvimento e evolução dos fenômenos impõem como parte das preocupações filosóficas e marcará igualmente o cientificismo positivista.

            Para o ideal positivista, na ciência encontrar-se-ia a possibilidade mais perfeita de o homem conhecer-se, e nesse conhecimento a própria justificativa da existência do método científico. No dizer de seus críticos, o positivismo tentou salvar a ciência enquanto discurso objetivo, mas ao preço de uma proscrição do homem..[18] Essa observação refere-se, em especial, ao papel que teve o positivismo comtiano na sistematização de um método para as ciências sociais, buscando imprimir ao conhecimento sobre o homem um modo de inteligibilidade calcado naquele construído modernamente para a natureza.

3.      Positivismo e empirismo

            Ao cunhar a expressão “filosofia positiva”, Auguste Comte afirmava uma filiação. A visão positiva das coisas baseava-se no pressuposto de que a realidade percebida imediatamente pelos sentidos está pronta para ser conhecida. Essa atitude diante do conhecimento responde a uma intenção de dar ao empírico um lugar de precedência nas proposições científicas.

            Para Comte, sintagmas contendo expressões a que não correspondam conceitos originados da observação não têm sentido[19]. Por essa via, a realidade deveria ser tomada tal como apresenta-se aos sentidos, pois está pressuposto que os fatos portam a verdade na exterioridade de sua manifestação. Dispensa-se, portanto, qualquer interpretação ou busca de um significado subterrâneo para a compreensão dos fenômenos, sejam naturais ou sociais. O dado positivo é o dado tomado na sua forma aparente, efetivamente manifesta na realidade sensível.

            Essa perspectiva epistemológica encontra suas raízes em vertentes teóricas anteriores ao século XIX. Também ela emergiu nas linhas de construção do pensamento moderno, no seu trajeto paralelo ao desenvolvimento das práticas científicas. Ao final do século XVII, as teorias de Isaac Newton apontavam para os limites do racionalismo de tipo cartesiano, apoiado na crença em uma atividade racional puramente lógica e interna ao pensamento. O conhecimento das leis da natureza deveria estar fundado na experiência, reunindo observações que pudessem fundamentar a construção de hipóteses explicativas, na busca das leis gerais[20].

            A importância da observação é trazida para o pensamento filosófico, entre os séculos XVI e XVIII, por alguns pensadores, com destaque para os ingleses[21]. Recusando a teoria das ideias inatas, escritos de John Locke, em fins do século XVII, sistematizaram a concepção de um sujeito do conhecimento semelhante a um quadro em branco, que construiria suas ideias a partir da observação externa ou da auto-observação, ou de ambas conjuntamente. Dessa forma, buscava apoiar a confiabilidade do conhecimento em um objeto exterior ao pensamento, recorrendo ao conceito de representação, que demonstraria a associação entre o mundo sensível e as formas criadas pelo pensamento[22].

            Para os empiristas, a razão, a verdade e as ideias racionais são adquiridas por nós através da experiência[23]. As sensações iniciam o processo de conhecimento, desencadeando associações que se consolidam sob a forma de ideias armazenadas na memória como matéria-prima para os pensamentos[24].

            No século XVIII, essa visão empiricista assumiu formas radicais nas formulações de George Berkeley e de David Hume[25]. Enquanto o primeiro, ao investir no conceito de representações e acentuar o papel da percepção como atividade do espírito, afastou-se da tese empiricista de que todos os conceitos baseiam-se em observações[26], o segundo enfatizou os controles experimentais como a forma mais eficaz de acesso ao conhecimento, retomando a importância da observação.

            Hume considerava que a razão é o hábito de associar ideias[27]. Dessa forma, reúne argumentos que apontam para a conclusão de que não só as ideias da razão se originam da experiência, mas está afirmando também que os próprios princípios da racionalidade são derivados da experiência[28].

            Ao fundar o conhecimento em observações, o empirismo remete o processo de sua construção à reunião de fatos que forneceriam a base para generalizações e hipóteses. As regularidades presentes nos eventos encaminhariam o estabelecimento de leis causais, evidenciadas como parte dos fenômenos observados. Com o propósito de se apresentar como a expressão de um empirismo consequente, o modo positivista de pensar, na sua forma clássica, só aceita enunciados plenamente apoiados em observações.

4.      Uma filosofia da história

            A leitura da obra de Condorcet, Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano, causou profunda impressão em Comte, que chegou a afirmar que aquele ativo personagem da Revolução Francesa teria sido seu predecessor. Nela encontra–se uma visão da história humana calcada em uma ideia cara à Ilustração, que era a de que as luzes da razão, responsáveis pelo avanço da ciência e da técnica, encaminhariam o homem para uma organização social e política de nível superior.

            Comte dá a esse ideal um formato etapista, traduzido no que denominou “lei dos três estados”. Para ele, a humanidade, em seu processo evolutivo, atravessaria necessariamente três etapas ou estados vinculados à forma predominante de pensamento, como fases sucessivas. Comte escreveu que:

cada uma de nossas concepções fundamentais, cada ramo de nossa vontade passa por três diferentes estados teóricos sucessivos: pelo estado teológico ou fictício, pelo estado metafísico ou abstrato e pelo estado científico ou positivo.

            Por essa trilha, intencionava, seguindo o modelo das ciências naturais, encontrar a lei geral que regeria a evolução das sociedades humanas. Esse percurso evolutivo seria determinado pelo desenvolvimento do espírito humano que estaria na base do processo social e político. Embora admitindo que as relações sociais possuem sua parcela de interferência sobre o desenho geral da sociedade, ao privilegiar o espírito, Comte opõe-se frontalmente à perspectiva marxista.

            Comte utilizava esse esquema explicativo, tanto para pensar a história da sociedade europeia, projetando sobre os seus períodos as etapas evolutivas que concebera, quanto para classificar a hierarquizar as sociedades humanas. Essa grade classificatória, que punha as sociedades europeias na posição mais avançada, ou seja, superior às demais sociedades, fez-se presente nos escritos de outros pensadores do século XIX e início do XX. Demonstrou-se bastante útil às diversas formas discursivas que serviram para justificar o domínio europeu sobre outras regiões do planeta, no momento de expansão imperialista de fins do século XIX.

            Outro desdobramento desse modo de descrever o processo evolutivo, já presente em Comte e adotado por teóricos posteriores, diz respeito ao crescimento e desenvolvimento que se opera no próprio indivíduo. Já está presente, nos textos de Comte, a ideia de que os três estados se reproduzem no plano individual, correspondendo à infância ao estado teológico, a puberdade ao metafísico e a maturidade ao científico ou positivo. Dessa forma, opera uma conversão da prática social religiosa da contemporaneidade, não só na persistência de um estado social atrasado, mas no indicador da imaturidade pessoal.

            Implícita à teoria dos três estados, encontra-se a associação entre evolução e progresso técnico-científico. Em cada etapa, está pressuposta uma aproximação da realidade e uma abordagem dos fenômenos que comporta uma leitura crítica das formas de conhecimento anteriores ao método da ciência moderna[29].

            Na formulação comtiana, então, o futuro da sociedade deveria ser planejado com base no contributo da ciência social positiva, a sociologia. A concepção da sociedade como um organismo alicerça, em seu pensamento, um ideal de ordem em que as posições críticas seriam alijadas, dando lugar a uma “disposição construtiva” fundada em preceitos científicos. Por esse motivo, os homens de ciência teriam um lugar de destaque no projeto comtiano de sociedade. Como sintetiza Röd:

            Uma vez que o progresso da sociedade depende de conquistas teóricas, deve-se dar aos cientistas a possibilidade de conduzir, juntamente com os guias da economia, o desenvolvimento político e social, o que não deve, aliás, acontecer simplesmente no âmbito dos Estados nacionais, mas no âmbito da Europa. Somente daqueles que estão imbuídos do espírito positivista se pode esperar uma reestruturação racional da sociedade, orientada pela ciência e voltada para o progresso[30].

            Esse ideal de progresso ordenado, concebido como resultado da aplicação do conhecimento científico à vida social, como parte de uma visão mais geral da história, viria fundamentar posições e projetos políticos que, no Brasil, estiveram vinculados ao fim do regime monárquico.

5.      Recepção do positivismo no Brasil

            Em seu estudo clássico, Ivan Lins recupera pistas dos primeiros contatos de brasileiros com os escritos de Auguste Comte. Para isso, procura escapar à tendência historiográfica de centralizar no Apostolado Positivista a difusão da doutrina, e valoriza a ação dos que classifica como “positivistas independentes”. Enfatiza, de início, a presença de estudantes brasileiros, como alunos dos cursos proferidos por Auguste Comte na Escola Politécnica de Paris, entre 1832 e 1840, embora não tenha conseguido precisar o âmbito de influência que pudessem ter tido na volta ao Brasil. Identifica uma referência à lei dos três estados e ao método positivo, em tese defendida em concurso para professor da Faculdade de Medicina da Bahia, em 1844, como a primeira referência pública às ideias de Comte no Brasil. Narra, ainda, a amizade entre Nísia Floresta e Comte, quando esta morava em Paris. Sua ênfase, entretanto, recai sobre a circulação dos textos de Comte nos meios militares, sobretudo na Escola Militar, embora também tenha recolhido um comentário de época sobre a penetração do positivismo na Escola de Marinha[31].

            A relação entre o ideário positivista e o meio militar ganhou repercussão sobretudo pela presença de seus pressupostos na propaganda republicana, e pelo protagonismo da intelectualidade militar no golpe que pôs fim ao Império[32]. O papel destacado de Benjamin Constant, como liderança da Escola Militar, e como um dos mais coerentes e assumidos positivistas do século XIX brasileiro, confere a essa associação o peso de um determinante histórico, sempre interrogado pelos estudiosos do período.

            Existem fortes indícios de que, a partir da década de 1850, circulavam no Brasil vários textos que recorriam aos postulados de Auguste Comte na abordagem dos mais diferentes temas, sobretudo em teses apresentadas nas escolas superiores e no Colégio de Pedro II[33]. Parece que já se percebia, inclusive, um certo positivismo difuso, que ganharia força nas décadas seguintes, inicialmente incorporado por seus viés científico.

            A influência mais marcante, contudo, do ideário positivista, dar-se-ia por seu potencial como ferramenta teórica de combate à ordem monárquica, ao apresentar um ideal de sociedade moderna que descartava aquele tipo de regime político[34]. Mais do que isso, considerava-o um entrave a ser superado no rumo inevitável para o progresso que chegaria com a evolução da humanidade.

            Os letrados das últimas décadas do período imperial envolveram-se em debates sobre muitos temas relacionados à questão da nacionalidade e ao projeto civilizatório que se deveria construir para o Brasil. Escravidão, industrialização, educação, república eram abordados à luz de correntes de pensamento que penetravam rapidamente, tais como o evolucionismo, o darwinismo, o naturalismo e o cientificismo, todas em diálogo com o positivismo. A prática social incorporava, cada vez mais fortemente, os círculos, as conferências, as palestras, reunindo homens que, vinculados a ocupações oficiais como funcionários públicos, políticos, advogados, professores, militares, engenheiros ou médicos, de onde efetivamente retiravam as condições de sua sobrevivência, (...) sentiam-se, na época, como os portadores de verdades, vocação, destino e sentimentos superiores aos demais homens[35].

            As peças mais marcantes do positivismo brasileiro do século XIX foram, sem dúvida, produzidas pelo intelectual militar Benjamin Constant Botelho de Magalhães, lembrado, sobretudo, por sua atuação como professor da Escola Militar, a instituição formadora de oficiais para o Exército, onde constituiu-se como liderança intelectual e política. Como muitos outros militares, Benjamin acumulava o magistério à carreira militar. São destacados, ainda, seus trabalhos como diretor do Imperial Instituto dos Meninos Cegos e da Escola Normal da Corte. Com a instauração do regime republicano, e a consequente instalação do governo provisório assumido por militares, ocupa inicialmente o Ministério da Guerra e posteriormente o recém-criado Ministério da Instrução Pública, Correios e Telégrafos, à frente do qual promove reformas de ensino impregnadas pelos princípios positivistas.

            Como matemático, publica o trabalho Teoria das quantidades negativas, em 1866. Seus escritos, porém, são situados no interior das funções que exerceu. São principalmente pareceres e projetos de reformas de regulamentos de instrução, seja do Instituto de Meninos Cegos, seja da Escola Militar: textos extensos, que portam a característica do debate e da polêmica. Em todos eles, Benjamin constrói argumentos que possam convencer ou driblar seus interlocutores, de modo a abrir caminho para os grandes postulados positivistas: a valorização do conhecimento científico, a introdução da sociologia, a defesa de um currículo enciclopédico, a ordenação das disciplinas escolares segundo a classificação das ciências elaborada por Comte, e a defesa de um Estado e de uma escola laicos.

            Mas a ideia que pulsa com força nessas peças é a de formação do cidadão republicano. O pressuposto de que o conhecimento científico é pré-requisito para uma ordem social pacífica e evoluída, de que o progresso se funda na difusão da escola, de que o ideal republicano se associaria à superação do atraso técnico, mas, também, à mudança de mentalidade.

6.      Considerações finais

            O positivismo, como vertente teórica, demonstra-se hoje, diante das interrogações que emergiram na segunda metade do século XX, bastante frágil e de difícil sustentação. Sobretudo na sua forma clássica, como vimos neste texto, resultante de uma crença inabalável no poder do método científico, reduzido à coleta de observações passíveis de generalização por meio das regularidades, o positivismo não encontra espaço em meio a teorias que apontam para a complexidade pelos caminhos mais diversos.

            Por outro lado, o tratamento histórico do positivismo, não só da sua emergência, como da circulação e penetração de suas proposições, exige um gesto de desprendimento para nos despojarmos de uma carga de preconceitos solidamente construída no âmbito das ciências humanas. Esse movimento de aproximação adquire sua importância para que possamos avaliar a presença do positivismo na história política e intelectual do Brasil.

            Compreender os fundamentos filosóficos dessa corrente de pensamento, como parte de um quadro cultural, em que, ao serem selecionados por seus formuladores, estão funcionando como parte das respostas dadas pelos homens de uma época, permite-nos vislumbrar tanto suas limitações como suas potencialidades. É o caso, por exemplo, da apropriação que dele se fez no Brasil de fins do século XIX, como parte dos elementos propulsores da mudança.

            Talvez esse movimento nos ajude, ainda, a perceber o quanto deste ideário, mesmo que renovado ou repaginado, está presente no quadro intelectual e político que nos cerca.

Referências Bibliográficas

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* Doutora em História Social pela Universidade de São Paulo. Professora associada da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense.

[1] Cf. RÖD, Wolfgang. O caminho da filosofia: dos primórdios até o século XX, p. 446.

[2] Cf. LOWY, Michael. Método dialético e teoria política, pp. 9-17.

[3] Cf. RÖD, Wolfgang. O caminho da filosofia: dos primórdios até o século XX, pp. 450-451.

[4] Cf. Idem, p. 453.

[5] Cf. Idem, p. 454.

[6] Cf. RÖD, Wolfgang. O caminho da filosofia: dos primórdios até o século XX, p. 489.

[7] Cf. Idem, p. 759.

[8] Cf. Idem, p. 752.

[9] Cf. Idem, p. 27.

[10] Cf. Idem, p. 28.

[11] Cf. JAPIASSU, Hilton. Nascimento e morte das ciências humanas, p. 11.

[12] Cf. Idem, p. 14.

[13] Cf. Idem, p. 30.

[14] Cf. RÖD, Wolfgang. O caminho da filosofia: dos primórdios até o século XX, p. 26.

[15] Cf. Idem, ibidem.

[16] Cf. RÖD, Wolfgang. O caminho da filosofia: dos primórdios até o século XX, pp. 445-449.

[17] Cf. BARROS, Roque Spencer Maciel de. A ilustração brasileira e a ideia de universidade, pp. 107-109.

[18] Cf. JAPIASSU, Hilton. Nascimento e morte das ciências humanas, p. 11.

[19] Cf. RÖD, Wolfgang. O caminho da filosofia: dos primórdios até o século XX, p. 447.

[20] Cf. Idem, pp. 87-88.

[21] Cf. CHAUI, Marilena. Convite à filosofia, p. 71.

[22] Cf. RÖD, Wolfgang. O caminho da filosofia: dos primórdios até o século XX, pp. 89-90.

[23] Cf. CHAUI, Marilena. Convite à filosofia, p. 71.

[24] Cf. Idem., p. 72.

[25] Cf. RÖD, Wolfgang. O caminho da filosofia: dos primórdios até o século XX, p. 121.

[26] Cf. Idem, p. 126.

[27] Cf. CHAUI, Marilena. Convite à filosofia, p. 72.

[28] Cf. Idem, p. 73.

[29] Cf. GONÇALVES, José Ricardo Barbosa. A utopia da ordem social: o positivismo na crise da ordem imperial brasileira (1862-1898), pp. 124-125.

[30] Cf. RÖD, Wolfgang. O caminho da filosofia: dos primórdios até o século XX, p. 448.

[31]Cf. LINS, Ivan. História do positivismo no Brasil, pp. 11-44.

[32]Cf. ALVES, Claudia M. C. Cultura e política no século XIX: o exército como campo de constituição de sujeitos políticos no Império.

[33] Cf. LINS, Ivan. História do positivismo no Brasil, p. 35.

[34] Cf. GONÇALVES, José Ricardo Barbosa. A utopia da ordem social: o positivismo na crise da ordem imperial brasileira (1862-1898), pp. 130-134.

[35] Cf. SÁ, Dominichi Miranda de. A ciência como profissão: médicos, bacharéis e cientistas no Rio de Janeiro (1895-1935), p. 35.

 
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