HOME
 
A ATUALIDADE DE GERD BORNHEIN
Homenagem aos dez anos da morte de um filósofo brasileiro
Ronaldo Rosas Reis

O convite que recebi para participar desse Encontro com a filosofia encontrou-me em meio ao impacto da lembrança dos dez anos da morte de Gerd Bornhein, um filósofo brasileiro e professor de várias gerações de estudantes que tiveram a sorte e o privilégio de assistir as suas aulas e usufruir da sua generosidade em compartilhar o seu conhecimento. Nascido em Caxias do Sul, exilado na Europa na fase mais encarniçada da ditadura militar, Gerd Bornhein retornaria ao Brasil em meados dos anos de 1970, na expectativa de que a abertura política "lenta e gradual" fosse, enfim, para valer. Gerd Bornhein, gaúcho, morreu no Rio de Janeiro, na sua querida Copacabana, em setembro de 2002.

O conheci em 1979, quando fui então por ele entrevistado para o ingresso no mestrado em filosofia no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Na época eu muito pouco sabia a respeito de Gerd Bornhein. Talvez apenas três coisas, se a memória não me falha. Sabia que era um dos raros professores de esquerda do IFCS, sabia que tinha uma obra crítica sobre Jean-Paul Sartre e, o que mais me interessava naquele momento, sabia que era um dos orientadores da área de estética. Não necessariamente nesta ordem, essas informações me atraíam e com base nelas havia feito a opção de ter pleiteado a sua orientação caso passasse no processo seletivo. Felizmente passei e no início do ano letivo de 1979 chegava ao vetusto prédio do Largo de São Francisco, no centro do Rio de Janeiro, para assistir as aulas.

Um fato marcante e até certo ponto burlesco marcou aquela primeira vez que pisei os ladrilhos gastos do IFCS como mestrando. No grande hall de entrada logo encontrei o professor Gerd Bornhein conversando animadamente com outro professor recém retornado do exílio, Darcy Ribeiro, e os três entramos no apertadíssimo elevador da construção. O acaso faria com que ali já se encontrasse um personagem obscuro da universidade brasileira. Um delator político que na década de 1960 levaria mais de uma dezena de estudantes e professores da UFRJ à expulsão da antiga Faculdade de Filosofia. O paródico da situação menos se expressava na figura grotesca do velho bajulador da ditadura militar espremido em pouco mais de 2m² entre dois expoentes da universidade brasileira, ou num possível constrangimento que somente a mim parecia incomodar. O cômico de tudo aquilo estava na grandeza com que Gerd e Darcy ignoravam a presença de um dos principais responsáveis pela maior diáspora política de intelectuais ocorrida no Brasil.

Com certo atraso, naquele início de ano, a antiga editora Civilização Brasileira, então dirigida pelo saudoso editor Ênio Silveira, lançaria o número 4 do corajoso periódico Encontros com a Civilização Brasileira. Digo corajoso, pois não era pouco manter uma publicação com textos de intelectuais que estavam no topo do índex do Departamento de Ordem Política e Social, o temido DOPS, i.e, a polícia política da ditadura militar. Pois bem, além das aulas que assistia, comecei a conhecer um pouco mais do que pensava o filósofo Gerd Bornhein lendo uma longa entrevista sua concedida ao poeta, tradutor e escritor João da Penha. Apesar da distância que separa o ano de sua publicação de 2002, ano em que nos vimos privados da presença de Gerd, a usarei como uma espécie de guia para orientar meus comentários sobre a atualidade do filósofo. Considerando, contudo, a extensa produção intelectual de Gerd Bornhein, e a necessidade de dar conta da minha parte nesse Encontro com a Filosofia no tempo previsto, passarei em revista somente aqueles aspectos do seu pensamento que mais me marcaram ao longo do tempo em que o conheci, pedindo desde já a compreensão de todos aqui presentes.

A apresentação está dividida em duas partes. Na primeira delas, um pouco mais extensa que a última, procuro caracterizar a atividade filosófica de Gerd Bornhein na vida social brasileira. Na segunda e última parte esboço as considerações finais procurando reforçar o que aqui denominei como a atualidade do meu homenageado.

Filosofia e sociedade

Gerd Bornhein foi um filósofo da práxis.

Embora a afirmação possa levar alguns marxistas presos a uma exegética de fundo religioso a torcerem o nariz, Gerd apreendia o fim mesmo da atividade filosófica como a culminância de um "[...] ato livre, que assume com responsabilidade o real, decidindo, em última análise, do próprio sentido e validez da filosofia" (1978: 100). Por outro lado, dialeticamente, diria ele nas páginas inaugurais da sua tese de livre-docência, em 1961, que "a atitude inicial do filósofo determina o caráter último de sua filosofia" (1978: 1). Encarava, portanto, a filosofia como um trabalho, i. e., ontologicamente, no sentido pleno do termo tal como lhe confere Marx em O capital. Cito como lembrança:

Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo - braços e pernas, cabeça e mãos -, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana (2004: 209).

Assim compreendido, porém não livre de contradições próprias de uma atividade intelectual por demais estranha aos trabalhadores em geral, Gerd se debruçaria sobre a consciência filosófica em todas as sua etapas históricas de realização e afirmação no mundo. Fundamentalmente, dedicaria o seu esforço à problematização do despertar da consciência filosófica tendo por entendido a finitude e a historicidade do homem. Para ele, essa condição concreto-existencial de todos nós - finitude e historicidade - traz a exigência de o filosofar buscar a superação dialética do espectro da metafísica ou experiência negativa - sem recusar a sua presença em momento algum - a fim de validar a totalidade do real pela consciência filosófica. Essa posição de recusa à negação da metafísica como parte da existência concreta do ser, tão comum, diga-se a propósito, no senso comum em geral e marxismo vulgar em particular, se faz presente no percurso filosófico de Gerd Bornhein simplesmente por ele encarar o ser do homem como necessariamente contraditório.

Por ora gostaria de sublinhar algo do repertório de Gerd Bornhein que diz respeito diretamente a "atividade fim" desta casa, que é formar professores. Dizia ele a propósito da presença da filosofia entre nós, que o positivismo de João Cruz Costa[1], mestre de várias gerações à frente da Universidade de São Paulo, para quem a filosofia no Brasil "é um produto de importação", teria distorcido o sentido do que seja a atividade filosófica. Para Gerd, o fato dessa atividade no país ser pouco desenvolvida, não significa a sua inexistência. Posto que a história geral registre poucos "períodos filosóficos" em todo o mundo[2], e, ainda assim períodos mais ou menos curtos, como na Grécia, na alta Idade Média, na França do século XII, seguido da Inglaterra e a partir de Kant, na Alemanha, não haveria porque dizer que, no Brasil, ela não existe.

Embora formado sob a égide do pensamento tomista, Gerd Bornhein caminharia sempre ao longo se sua carreira na contramão do tomismo e do positivismo dominantes na elite intelectual brasileira burguesa. Para ele, as raízes metafísicas dessas posições filosóficas eruditas, alienaria fortemente o exercício da atividade no Brasil. Desde os seu primeiros apontamentos publicados em Aspectos filosóficos do romantismo, de 1959, Gerd se debruçaria criticamente contra a visão sintagmática com que elas disseminavam na sociedade a ideia da filosofia envolta numa aura sendo, portanto, intangível ao senso comum. Para ele, a forte presença entre nós do positivismo e do tomismo, sobretudo este último, impregnaram hegemonicamente o ensino superior e a formação de professores desde os tempos do Império enfraquecendo-se por volta dos anos de 1930[3], levou gerações de professores a comungar da crença de que seria a principal função social da educação "salvar o indivíduo e ajustá-lo nos limites das regras sociais".

Por experiência própria, na década de 1970, desconfiávamos nós, alunos formados na educação básica segundo esse preceito, o quanto de alienante a metafísica tomista e o positivismo as concepções filosóficas e pedagógicas remanescentes na época traziam. Desconfiávamos disso sem um fundamento mais concreto que nos auxiliasse a elaborar um argumento que fosse além de uma simples bravata juvenil, como as palavras de ordem pela modernização do ensino nas passeatas da União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas. Com poucas palavras Gerd Bornhein nos mostraria o cometimento ancilosado da metafísica tomista, presa ao século XIII, portanto, reducionista, estreita, que jamais se renovou em função do mundo em que se inseriu (1978: 84). Criticava assim tanto as concepções pedagógicas como o pensamento científico fundados nas matrizes tomista e positivista. Assim, ele destacaria naquele fim de década de 1970, a importância para a atividade filosófica no Brasil e na América Latina da Escola Sociológica de São Paulo, liderada por Florestan Fernandes, como se alinhava - talvez ainda sem conhecimento do hoje clássico Escola e democracia - com a concepção de pedagogia histórico-crítica, de Dermeval Saviani (1974).

Mais importante do que a crítica à metafísica, Gerd dizia ser a renovação do pensamento de Marx a grande tarefa naquele momento a ser levada adiante.  Isso o aproximaria por caminhos diversos ao pensamento de Jean- Paul Sartre e ao de Antonio Gramsci. Embora tenha voltado o seu olhar para as leituras da obra do pensador italiano posteriormente às do existencialista francês - sobre quem falarei logo adiante -, Gerd apreciaria em especial a ideia de "intelectual orgânico" e, sobretudo, a concepção de bloco histórico. Nesse sentido, chamaria a atenção de Gerd Bornhein a recusa de Gramsci "a reduzir [a] relação [entre infraestrutura e superestrutura] a uma linearidade pura e simples de causa e efeito" (1978: 90). Ao problematizar as estruturas da vida social como algo muito mais complexo do que uma relação linear, examinando as mediações estabelecidas entre os dois planos estruturais, Antonio Gramsci dera um passo de fundamental importância para a renovação do marxismo, quer do ponto de vista metodológico quer do ponto de vista epistemológico. Considerava que Marx deixara uma abertura no conjunto da sua obra a ser permanente vitalizada ou atualizada, pois se o processo é dialético "não há infraestrutura sem superestrutura e vice-versa" (idem, idem). Para Gerd Bornhein é preciso ver que se "o homem faz a história sobre uma base material muito grande, necessária [porém] sua humanidade não vem simplesmente daí. É do trabalho - e o trabalho não é simplesmente material", completa ele (ibidem).

  Os controvertidos temas da finitude e da história como indutores da crise da metafísica que perpassa a relação entre a filosofia e a política ao longo dos séculos XIX e XX, se abre para falarmos de três outros pensadores sobre quais obras Gerd Bornhein se debruçou com empenho. Se abre ainda para - e peço a compreensão de vocês para isso - um rápido desabafo pessoal sobre a suspeita e mesmo acusação que alguns "intelectuais de jornal" lançaram sobre a sua "filiação" a uma determinada corrente de pensamento.

O desabafo se faz necessário para conjurar esse tipo de intelectual menor, oficialmente chamado de "formador de opinião", cuja doentia inclinação consiste em empobrecer a riqueza de um pensamento criativo mediante a aplicação de um rótulo sobre ele a fim de legitimar a sua própria opinião-mercadoria e a teleologia da empresa jornalística. No caso que se aplica a Gerd Bornhein, por volta de 1981, 1982, em pleno processo de abertura política e de nervos à flor da pele entre a intelectualidade burguesa de esquerda, fazia um ano que ele lançara O idiota e o espírito objetivo (1980), um reunião de densos ensaios sobre ontologia, onticidade, totalidade e ideologia. Além disso, havia uma década que duas de suas mais importantes obras estavam publicadas e eram correntes no meio universitário em geral. Tratando de temas complementares Sartre. Metafísica e existencialismo (1971) e  Metafísica e finitude (1972), abordam centralmente a crise da tradição metafísica examinando a transição de uma tradição para outra que ora estava se consolidando como tal. É possível compreender que o exílio político do mestre, a censura, as limitações da vida social e cultural, enfim, inerentes a tempos ditatoriais, acabaram por impor restrições de acesso ao convívio e à palavra direta do professor e ao conjunto da sua obra para sentir como e em que direção o pensamento autônomo de Gerd Bornhein havia evoluído. Dado o desconto, incompreensível é até certo ponto que a avidez dos chefes de redação dos cadernos culturais de alguns dos principais jornais do país - Jornal do Brasil, O Globo e Folha de São Paulo - teria chegado ao ponto de provocar artificialmente uma "polêmica cultural" onde ela, organicamente, não existia. Assim, dependendo do (mau) humor opinativo do "intelectual de jornal", Gerd Bornhein seria apresentado em meio aos embates da época ora como um "marxista-hegeliano" ou um "existencialista heideggeriano" ou, quase sempre, como um "existencialista-marxista-sartriano"[4].

Feito o desabafo, sigo adiante vislumbrando a riqueza do percurso filosófico percorrido pelo querido mestre.

A finitude e a historicidade são as questões que levariam Gerd ao encontro de Hegel, primeiramente e, depois, ao de Heidegger e também ao de Jean-Paul Sartre. Todavia, deles Gerd extrairia criticamente apenas aquilo que lhe serviria de fundamento para criar e construir o seu próprio edifício intelectual, sua condição existencial, e, concomitantemente, a massa crítica para organizar o seu método original de expor as ideias de outrem em suas aulas.

De Hegel, portanto, ele extrairia a ideia de que a descoberta da História constituiu-se "num golpe mortal para a Metafísica". Interessava-o centralmente, a vigência do espírito livre do homem constituído pela razão, tal como o filósofo alemão apreendia o "conteúdo da história". No ensaio "Vigência de Hegel" (1980:156-209), Gerd Bornhein examinaria à exaustão a categoria da totalidade e os seus impasses contemporâneos. Apreendia essa categoria com um desprendimento filosófico raro para a época, considerando tanto as cobranças advindas de setores da intelectualidade militante do marxismo vulgar como as críticas de outros tantos setores da intelectualidade burguesa de esquerda de corte pós-estuturalista e pós-moderno[5]. Para ele, a riqueza da totalidade concebida por Hegel – que ele entendia e defendia, fundamentadamente, como inspiradora da ontologia marxiana – estava na percepção da interdependência das ações humanas condicionadas, dialeticamente, pelas múltiplas determinações do seu desenvolvimento. Esse "conteúdo da história", contraditório, tenso, permanentemente relacional, a um só tempo catalisado pela estrutura econômica imposta pelo sistema Capital e galvanizado pela ação humana incidente nos espaços singulares, é o mundo oferecendo "o espetáculo da totalidade em marcha, ainda que vincada na contradição de toda ordem" (Bornhein, 1981, apud Salin, 1994: 80). Tendo a totalidade hegeliana como arcabouço para pensar a condição humana, Gerd elegeria a relação dialética entre a finitude e a historicidade como o pressuposto da existência tout court, i.e., mediante a qual a práxis ontocriadora se faz presente.

De Heidegger, Gerd Bornhein valorizaria a sua ontologia, bem entendido no sentido restrito da abertura do pensador de Freiburg para a finitude e a historicidade. Porém, Gerd reconhecia a infidelidade de Heidegger para com a práxis ao atribuir ao Ser uma transcendência para fora da história. Nesse sentido, Heidegger tornava-se suspeito de pactuar com certa tradição metafísica na qual o Ser compareceria como um eu supremo. A exemplificar, Gerd lembra a admiração e o privilégio dado por Heidegger a escritores e poetas, como Hölderlin e Rainer Maria Rilke, cujas obras líricas são fortemente marcadas pela ideia de transcendência cósmica, de ascese à uma intimidade moral com o gênio, em última análise, o Ser heideggeriano. Fugindo um pouco do seu padrão, nosso mestre diria sarcástico que na medida em que "o homem comum, nós, pobres mortais, ficamos alijados desse comércio", se torna inaceitável aceitar um pensamento que reage à possibilidade de que o homem faça história, "[...] tornando-se comprometido com estruturas vigentes e impotente diante delas" (1978: 85).

Para o nosso filósofo, a grande contribuição de Jean-Paul Sartre ao marxismo deve ser creditada à perspectiva antropológica que ele imprimiu na dialética marxista numa de suas três grandes obras, a Crítica da razão dialética[6]. Nesse sentido, Gerd atribuiria à Sartre o mérito de ter "desdogmatizado o marxismo na França, a despeito de Althusser". Contudo, para ele, o pensamento sartriano permanece teoricamente ambíguo face a algumas questões centrais no marxismo, dentre elas o problema da liberdade que, em Sartre, se associa ao individualismo militante, do qual ele não abre mão. Porém, até mesmo nisso Gerd reconhecerá a coerência ética do existencialismo do filósofo francês. Num texto publicado no jornal Estado de São Paulo no ano de 2000, Gerd dirá que todo o vigor da "pedagogia sartriana" se encontra na sua "recusa de se tornar um modelo para o outro". Com efeito, o evidente empenho de Sartre "em aceitar que o bronze lhe subisse pelas pernas", era uma tônica. De acordo com Bornhein, para o existencialista francês seria um desastre se cada homem abdicasse do seu próprio estatuto da moralidade para que outro homem pretendesse exercer a função de modelo para um outro, fosse ele "um amado qualquer, um herói, o próprio Deus". Chamava isso de má-fé. Contra isso Sartre se concentraria na "inutilidade da mentira", elegendo o saber "como o seu desmonte", diria Gerd Bornhein (idem). A despeito da admiração que esse desprendimento moral venha provocar nos espíritos despreparados, Gerd vê nisso apenas o reforço coerente de uma militância egoica  marcadamente burguesa. Nesse sentido ele irá minimizar aquela ambiguidade mencionada não sem reconhecer, com um evidente traço de ironia, o cinismo de Sartre ao afirmar que o "marxismo é a filosofia insuperável do nosso tempo" (1979: 21). Ora, no sentido contrário da plêiade de marxismos ortodoxos e vulgares que se apresentam no comércio corrente de dogmas variados, a qualidade de insuperável se apresenta simplesmente porque, segundo Bornhein, Sartre reconhece cinicamente que  a maioria dos problemas que Marx coloca na sua obra "[...] não têm solução no momento. São tarefas que temos de realizar. Se [o marxismo] fosse tão completo, tão perfeito como a filosofia de Hegel, ele teria que ser superado" (1978: 91-92).

Finalizando - a atualidade de Gerd Bornhein

Ao entrar para o Instituto de Arte e Comunicação Social da UFF, em abril de 1992, eu assumiria as disciplinas de "Estética e indústria cultural" e de "História da arte" disponíveis para os cursos de cinema e de arquitetura, respectivamente. Trazia comigo a ideia de promover anualmente seminários de extensão sobre temas a elas relacionados. Entre aquele ano e 1997 consegui realizar apenas três, e num deles - se não me falha a memória, em 1995 - tive a felicidade de receber o meu querido mestre Bornhein para falar sobre o romantismo alemão. O grupo de alunos a esperá-lo para assistir a sua palestra era muito pequeno, por volta de 20 pessoas, o que era realçado - e isso me causou um certo constrangimento - pelo tamanho do antigo auditório do cinema da nossa universidade. Como sempre, Gerd não se abalou, e durante cerca de duas horas ele discorreria sobre o tema recorrendo de cabeça à citações de Goethe, Hegel, Marx e Walter Benjamin. Costumava dizer, sempre que indagado por alguém surpreso com a sua memória prodigiosa, que levava consigo um caderninho de anotações onde registrava desde frases inteiras de autores que lia no caminho para a universidade a impressões gerais sobre o que via na rua da janela do ônibus ao longo do trajeto. 

Estive pouco com ele desde então até setembro de 2002, quando a minha colega e amiga Eunice Trein, professora desta casa e também sua aluna ainda em Porto Alegre, se encarregou de me passar a triste notícia do falecimento do nosso querido Gerd Bornhein. Parece que manteve-se firme todo tempo, por isso não muitos souberam de sua enfermidade até a notícia trágica de sua morte se espalhar. 

Em setembro de 2003, a Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas (SEAF) publicou uma bela homenagem em memória do professor Gerd Bornhein, reunindo uma dezena de textos de pensadores sobre o filósofo brasileiro[7]. As palavras escritas naquela publicação, a despeito da inevitável comoção, carregavam ainda a memória fresca da presença viva do professor e orientador de muitos dos que ali procuravam homenageá-lo.

Leandro Konder, em seis concisos e precisos parágrafos lembrava a “preciosa lição de orientação” que recebera de Gerd ao ouvi-lo aconselhar que evitasse “projetar abusivamente suas preocupações contemporâneas, seus critérios atuais na cabeça do velho Heráclito” (2003: 33). Mais prolixa, mas não menos precisa e enriquecedora, Marilena Chauí examinava em treze páginas a relação entre ética, violência e niilismo, procurando aí o sentido daquilo que Gerd Bornhein chamava de “missão”. Conforme sublinhei bem mais acima, ela observa que Gerd Bornhein descreve a experiência negativa como algo a ser validado pela dialética, sendo nesse sentido que o filósofo projeta tal negatividade como uma “imagem estimulante de um novo mundo” [8]. I. e., a experiência negativa dialética, a negação da negação, constitui parte fundamental da existência humana, a tal "missão" a que fazia referência.

Ao longo da publicação colegas de universidade e amigos de Gerd Bornhein, alguns como Hilton Japiassu e Olinto Pegoraro, também meus antigos professores no mestrado do IFCS da UFRJ, lembram o filósofo e atualizam a memória do seu pensamento sobre ética, estética, educação e política. Conferem à ele uma dimensão pedagógica rara de se apreender nos filósofos, e que ele com o seu desprendimento e generosidade marcava a todos e a cada um. Todavia, dentre todos os textos, decerto o que melhor sintetiza a atualidade do grande pensador do mundo que foi Gerd Bornhein, se inscreve o que ele próprio disse num debate no dia 25 de abril de 2002, refletindo com o humor que lhe era característico sua posição ontológica a respeito da "inexorabilidade da morte". A fim de encerrar esta apresentação, extraí alguns excertos daquele texto, sendo dele as últimas palavras desse esforço que fiz para homenagear a passagem de uma década sem Gerd Bornhein.

Para os gregos, a morte era principalmente um fenômeno natural. Eles viviam da guerra, e a guerra provocava a morte. Eles viviam literalmente com a morte. Para Plutarco, a guerra pertence à natureza humana. [...] a guerra não era tanto a violência que se fala hoje, [...] a guerra mostrava a morte como um fenômeno natural (2003:14).

[Na tradição hebraico-cristã] a morte [surge como] consequência do pecado, significando que a ideia de morrer leva a um sentimento de culpa. [...] tudo gira em torno do pecado original. Trabalho é castigo. Morte é castigo, [...] uma força negativa. A culpa somente pode ser transcendida com a bem-aventurança eterna (idem:16-17).

[A partir daí] o destino do homem [passou a ser] a culpa. O trabalho era castigo por causa culpa e não trabalhar era fugir do castigo. E mesmo no início da revolução industrial ninguém trabalhava porque o trabalho era postergado. A polícia é que vai educar o homem exigindo trabalho à força (idem:17).

Hoje a tendência na sociedade contemporânea é a erradicação e a superação da culpa. Freud fala da superação da neurose como superação da culpa e em Marx a superação da culpa [adviria] numa sociedade sem classes, sem injustiça e com distribuição equilibrada (idem, idem).

A erradicação da culpa tem tudo a ver com a sociedade de consumo. Descobre-se que a esmola não resolve o problema da pobreza. O consumo resolve (ibidem).

A erradicação da culpa [não elide, certamente, a inexorabilidade da morte]. [Todavia], isso passa pela criatividade. Uma exclusividade do homem, como previa Marx. [...] O homem para suprir as suas necessidades cria novas necessidades. Ele tem que comer, cria a gastronomia; tem que morar, constrói e cria a história da arquitetura [...]. A criatividade pertence à própria condição humana, é fogo roubado dos deuses, um fogo instalado no homem (idem: 21-22).

A criatividade mostra como o homem pode lidar com a vida, como saber dirigir sua vida, lidar com a longevidade e com este conceito limite que é a morte.  A morte não vai acabar, mas o lugar da morte está se modificando a olhos vivos. Minha casa é aqui e posso ser eterno [...]. E tudo isso afeta profundamente a relação do homem com a morte (idem: 22).

Agradeço mais uma vez o convite da Martha, do Giovanni e do NUFIPE. Agradeço a paciência de vocês de me escutarem até o fim.

Niterói, 13 de dezembro de 2012.

Referências

BORNHEIN, Gerd. Aspectos filosóficos do Romantismo. Porto Alegre, RS: Instituto Estadual do Livro, 1959.

_______________.Introdução ao filosofar. O pensamento filosófico em bases existenciais. Porto Alegre, RS: Globo, 1978, 4ª edição.

_______________. Dialética. Teoria Práxis. Porto Alegre, RS: Globo, 1977.

_______________. O idiota e o espírito objetivo. Porto Alegre, RJ. Globo, 1980.

_______________. Sartre. Metafísica e existencialismo. São Paulo: Perspectiva, 1971.

_______________. Metafísica e finitude. Porto Alegre, RS: Movimento, 1972

_______________. A inexorabilidade da morte. In Revista de Filosofia SEAF. Ano III, n° 3. Rio de Janeiro: Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas, seção Rio de Janeiro, 2003, pp. 14-23.

_______________. No Brasil, ideário sartriano resiste e desafia. In Estado de São Paulo. São Paulo: Grupo Estado, 2000.

CHAUÍ, Marilena.  Ética, violência e niilismo. In Revista de Filosofia SEAF. Ano III, n° 3. Rio de Janeiro: Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas, seção Rio de Janeiro, 2003, pp. 67-79.

KONDER, Leandro. Meu orientador, Gerd Bornhein. In Revista de Filosofia SEAF. Ano III, n° 3. Rio de Janeiro: Sociedade de Estudos e Atividades Filosóficas, seção Rio de Janeiro, 2003, pp. 32-33.

MARX, KARL. O capital. Livro 1, volume 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

PENHA, João da. O pensamento marxista e a exigência de sua renovação. In Encontros com a Civilização Brasileira, n° 4. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p. 82-94.

SARTRE, Jean-Paul. Questão de método. São Paulo/Rio de Janeiro: Difel, 1979.

SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. Campinas, SP/São Paulo: Autores Associados/Cortez, 1974.



[1] Autor do clássico A filosofia no Brasil, publicado em 1945.

[2] Isto é, períodos de grande produção filosófica.

[3] Notadamente o modelo de ensino do Colégio Pedro II e das escolas de Direito e de Medicina, inauguradas na primeira metade do século XIX, pioneiras no ensino superior. A criação da universidade no Brasil, no Rio de Janeiro e em São Paulo, na década de 1930, aceleraria a introdução e faria crescer o volume de novas referências metodológicas e paradigmas epistemológicos no ensino das Ciências e da própria Filosofia vindos da Europa, notadamente da França, e dos EUA.

[4] Deslocando do contexto da época, considerando apenas os epítetos aplicados, concluiríamos que se tratava de uma bobagem ingênua. Entretanto, os rótulos nada tinham de ingênuo na medida mesma em que o qualificaria à fórceps num dos lados da polêmica artificial conhecida como "patrulhas ideológicas". 

[5] Vale dizer que, na década de 1980, a despeito da contradição que isso representava num país ainda sob uma ditadura, ambos os setores tinham a pretensão de regular ideologicamente o ambiente cultural do período.

[6] Sendo as outras duas, O ser e o nada e O idiota da família.

[7] Revista de Filosofia do SEAF. Seção Rio de Janeiro. Ano III, n° 3. Rio de Janeiro: SEAF/UAPE, 2003.

[8] No original “acicate esfíngico de um novo mundo” (Cf. p. 77).

 
© 2017 - Revista Virtual En_Fil - ENCONTROS com a FILOSOFIA
Edição de Nº 1 (2013)
Criação Web, Concepção e Desgin por Claudio Miklos