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Contribuições de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda ao pensamento social brasileiro
Mirian Alves de Souza[1]

           

            Gilberto Freyre (1900-1987) e Sergio Buarque de Holanda (1902-1982) são duas referências fundamentais para o pensamento social brasileiro. Grandes intérpretes do Brasil, suas narrativas são reconhecidas por escritores, antropólogos, sociólogos, historiadores e críticos, suscitando entre eles reflexões, como as que fizeram Antonio Candido, Édson Néri da Fonseca, Elide Rugai Bastos, Roberto DaMatta, Darcy Ribeiro, Guillermo Gucci, Maria Lúcia G. Pallares-Burke, Omar Ribeiro Thomaz, Peter Burke, Stuart B. Schwartz, Ricardo Benzaquen de Araújo, Maria Alice Rezende de Carvalho, Lilia Moritz Schwarcz, Murilo de Carvalho, Wilson Martins, Ronaldo Vainfas e Wamireh Chacon[2].

Gilberto Freyre            Neste texto, realçamos as contribuições de Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda focalizando dois aspectos: Primeiro, a ideia de que ambos contribuíram para o pensamento social brasileiro ao oferecerem interpretações originais para a realidade sociológica e antropológica do Brasil. Gilberto Freyre construiu uma narrativa inovadora e estruturada a partir do hibridismo e Sergio Buarque de Holanda uma narrativa igualmente original sobre a cordialidade brasileira. Eles ofereceram uma interpretação global do Brasil, sendo amplamente reconhecidos como autores que imaginaram a narrativa nacional[3].  Segundo, Gilberto Freyre e Sergio Buarque buscaram os fundamentos culturais da sociedade. Em Casa Grande & Senzala de 1933 e Raízes do Brasil de 1936, eles enfatizaram aspectos culturais e construíram narrativas estruturantes sobre o Brasil valorizando a dimensão cultural.

 

Gilberto Freyre e a narrativa nacional brasileira

            A narrativa nacional brasileira oficial é marcada pela ideia da mestiçagem. A concepção de que o brasileiro é resultado da miscigenação entre a população indígena nativa, o escravo negro africano e o colonizador branco português informa a narrativa oficial. A história do Brasil é contada em alguma medida a partir da contribuição e do encontro entre as “três raças: o índio, o negro e o branco”. Casa Grande & Senzala, publicado por Gilberto Freyre em 1933, é estruturado considerando as “três raças” mencionadas acima como responsáveis pelo hibridismo da sociedade brasileira. A temática da plasticidade, do híbrido e miscigenado informa a narrativa do livro, que ao lado de Sobrados e Mocambos, construiu um discurso público muito influente sobre a formação cultural do Brasil.

            Gilberto Freyre, no entanto, não inaugurou a temática e narrativa da miscigenação no pensamento social brasileiro. Um certo “paradigma da mestiçagem” no pensamento não nasce com o seu Casa Grande & Senzala, inscrevendo-se em um debate mais antigo. Ele, entretanto, fortemente contribuiu para a formação deste “paradigma”, distanciando-se do discurso racialista que hegemonicamente o antecedia.

            A convicção de que a mestiçagem constituía a base particular da formação da sociedade remonta a Carl Friedrich Philipp Von Martius, vencedor do concurso de melhor plano para a história do Brasil promovido, em 1840, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro IHGB[4]. Porém, como observa Ronaldo Vainfas, “Von Martius não logrou grande êxito ou ressonância no século XIX. Se é verdade que os estudos incentivados e realizados pelo IHGB ajudaram a compreender o papel do índio em nossa formação histórica, pouca coisa se fez em relação ao negro[5]. O tema da miscigenação não tem ressonância no século XIX, mas ocupará bastante a atenção da intelectualidade brasileira no final desse século e nas primeiras décadas do XX. A razão tem a ver com questões de natureza menos intelectual e mais política e econômica. A segunda metade do século XIX é marcada pelo abolicionismo, imigração e profunda mudança política – passagem do Império para a República.

            No século XX, autores de referência no pensamento social brasileiro, como Euclides da Cunha, Nina Rodrigues, Oliveira Viana, Alberto Torres e muitos outros[6] abordavam a realidade brasileira considerando a miscigenação. Porém, como Ronald Vainfas argumenta, nossa intelectualidade - “racista por ofício” - pensava o processo de miscigenação sobretudo em termos raciais. Diferente, Gilberto Freyre narra esse processo de forma original. Embora abordando a miscigenação, como muitos outros, ele tomou o processo de um ponto de vista culturalmente informado: “[antes de Gilberto Freyre] Dificilmente dimensionavam a mestiçagem em termos culturais, exceto para dela fazer derivar as imperfeições da cultura brasileira ou subculturas, como diziam os mais radicais na detração de nosso povo mestiço[7].

            A narrativa de Casa Grande & senzala é, portanto, original e culturalmente informada. O livro, elogioso à mestiçagem, inova na abordagem ao considerá-la culturalmente positiva e ao atribuir um lugar novo ao escravo negro africano na formação nacional. Maria Alice Rezende de Carvalho argumenta que:

“o aspecto a ser destacado é a aparente recusa de Freyre em condicionar a compreensão de Casa Grande & senzala aos parâmetros intelectuais e políticos hegemônicos naquele contexto, não há ali respostas diretas aos seus interlocutores, a não ser em relação ao mito da inferioridade racial brasileira.”[8].

 

            Nesse sentido, realçamos que Gilberto Freyre ao estabelecer a miscigenação como central em sua narrativa, diferencia-se dos autores de seu tempo ao considerá-la de um ponto de vista mais cultural e menos racial. Para ele, seria a articulação de diferentes tradições culturais, considerando seus contextos históricos e sociais, e não a hereditariedade racial ou o meio geográfico considerados isoladamente, o que teria possibilitado um “horizonte a reger nosso destino”. Ricardo Benzaquen de Araújo argumenta que Gilberto Freyre não simplesmente abandona a noção de raça, mas que ele opera com uma definição neolamarckeana de raça, segundo a qual os seres humanos seriam adaptáveis e capazes de transmitir as características adquiridas na interação cultural e com o meio[9].

            Consideramos que o conceito de raça que emerge na obra do autor de Casa Grande & senzala é weberiano, no sentido de se pensar a raça não como fundamento biológico, mas sim como uma construção sócio cultural. Abordando a pertinência do conceito de raça, Max Weber em seu tempo argumentou que raça era um fenômeno social. A legitimidade biológica do conceito foi negada por Weber já no começo do século XX[10]. Aproximando-se dessa filiação intelectual, que pensava o conceito de raça articulando-o a fatores históricos, culturais e políticos, Gilberto Freyre, aluno do antropólogo Franz Boas nos Estados Unidos, rejeitou os determinismos biológico e geográfico.

            Nesse sentido, consideramos que a ênfase nos aspectos culturais, característica da descrição de Gilberto Freyre, foi uma grande contribuição ao pensamento social brasileiro por ter influenciado a construção de narrativas mais analíticas e menos deterministas do Brasil. O crítico Wilson Martins observa que “Gilberto Freyre pode-se empregar sem erro aquele qualificativo de maior. Porque ele não se limitou a concluir uma grande obra dentro dos quadros já anteriormente delimitados; o seu primeiro valor é ter renovado a nossa sociologia, é ter lhe dado um outro caráter, mais científico, mais verdadeiro[11].

            A narrativa de Gilberto Freyre rompe com as linhas hegemônicas no pensamento social brasileiro. No cenário intelectual do começo do século XX:

 “[se] falava do Brasil com uma linguagem paramédica. Na concepção de então, o atraso do Brasil decorria da famosa mistura de raças que era tomada como a principal característica da nossa formação. Realmente, era mais fácil falar de ‘inferioridades raciais’ do que de dominações sociais, políticas e econômicas” [12].

            Em Casa Grande & senzala, Gilberto Freyre ao privilegiar a narrativa etnográfica, descreveu a arquitetura das relações raciais no Brasil considerando aspectos culturais, políticos e de poder, tradicionalmente, ignorados ou vistos de maneira muito etnocêntrica e racializada.

            O antropólogo Roberto DaMatta informa que uma diferença central no pensamento de Gilberto Freyre em relação a muitos autores de seu tempo é que, “pensava-se o Brasil como uma sociedade cujos males faziam na sua biologia e não na sua cultura e estrutura de poder (…) Em Casa Grande & senzala, Gilberto Freyre realiza uma demarche paradoxal, nem sempre percebida pelos críticos. É que, naquele livro, ele elaborou de verdade a 'fábula das três raças' ao mesmo tempo que inicia a demolição crítica, tomando a 'mestiçagem' muito mais com um processo situado no código histórico-cultural, do que no quadro de uma linguagem racial”.

            Pode-se dizer que Gilberto Freyre, como se lê em Casa Grande & senzala, construiu uma narrativa para o Brasil que, embora tenha tomado a miscigenação, como muitos outros autores, soube considerá-la de um ponto de vista original no pensamento brasileiro. Dois aspectos inovadores, realçados por antropólogos como Roberto DaMatta e Darcy Ribeiro, são: o elogio ao hibridismo do brasileiro e a ênfase na vida cultural.

 

A imaginação de Sergio Buarque de Holanda


            Assim como Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda construiu uma interpretação original da formação nacional brasileira. Porém, se o primeiro autor tem na miscigenação o elemento estruturador de sua narrativa, o segundo valorizou a cordialidade do brasileiro como eixo discursivo. Sergio Buarque de Hollanda, um dos maiores historiadores brasileiros, e seu filho Chico Buarque de Holanda, músico, na década de 70.

            Os autores de Raízes do Brasil e Casa grande & senzala buscaram na origem colonial do Brasil uma explicação para a realidade contemporânea. Como observa Antonio Candido, Gilberto Freyre e Sergio Buarque (ao lado de Caio Prado Jr.,) representam uma geração que aprendeu “a refletir e se interessar pelo Brasil em termos de passado”[13]. Gilberto Freyre, como vimos, focalizou o hibridismo da colonização portuguesa, enquanto Sergio Buarque de Holanda enfatizou o predomínio das relações pessoais na estrutura social. Tanto o hibridismo quanto a cordialidade foram reconhecidos como parte fundamental de nossa “herança ibérica”.

            Sergio Buarque considerou o hibridismo do colonizador português em sua análise, mas em Raízes do Brasil essa plasticidade perdeu espaço para o desejo quase anárquico, marcado pela falta de planejamento, do colonizador no Brasil. Para ele, informada a partir de uma cultura ibérica, a estrutura social brasileira, rural e patriarcal, deveria ser analisada considerando a baixa capacidade de abstração e de racionalização da vida. Para Sérgio Buarque, a cordialidade do brasileiro se expressa em sua dificuldade no cumprimento de ritos sociais que sejam rigidamente formais e não pessoais e afetivos e de separar, a partir de uma racionalização destes espaços, o que é público e o que é privado. Nessa perspectiva, o “homem cordial” é a personificação dessa herança ibérica.

            Diferente do que se pode supor, considerando a definição mais difundida, cordialidade não é sinônimo de civilidade. Sergio Buarque argumentou que o homem cordial não era gentil, mas sim um sujeito emocional em cujas ações predominam o pouco interesse pelas leis, pela razão, imperando uma confusão profunda entre sua vida pública e privada. Ao referir-se à cordialidade, Sérgio Buarque buscou enfatizar uma característica marcante do brasileiro, segundo sua imaginação:

“A contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o ‘homem cordial’. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal. Seria engano supor que essas virtudes possam significar ‘boas maneiras’, civilidade”.[14]

            O discurso de Sergio Buarque apresentou o colonialismo português criticamente. Para ele, a estrutura social herdada, rural e patriarcal, reproduzia um padrão de convívio no qual se impera o concreto sobre o abstrato, o emocional sobre o racional. O homem cordial representa a inexistência, no Brasil, de uma sociedade que pudesse servir de base ao Estado impessoal. Assim como Paulo Prado em seu “Retratos do Brasil” (1928), Sergio Buarque expressou uma visão mais pessimista da colonização portuguesa no Brasil. Valorizando a dimensão cultural – como através da análise sobre o uso da terminação “inho”, aposta às palavras, servindo para nos familiarizar mais com as pessoas ou os objetos – Sergio Buarque mostrou como práticas familiares, privadas e domésticas são fundamentais para a compreensão do Estado brasileiro contemporâneo. Através de uma análise da “intimidade”[15], Sergio Buarque descreveu padrões de convívio da vida privada que são reproduzidos na vida pública. A questão que se impôs em Raízes do Brasil, que buscou fundamentalmente apresentar as bases estruturantes da sociedade, era que se esses padrões se ficassem restritos à esfera familiar e privada, não seriam em si problemáticos para se pensar a formação nacional.

            Para Sérgio Buarque, a compreensão da organização política brasileira demanda o conhecimento de nossas raízes históricas e culturais, ou seja, é preciso conhecer as formas específicas da colonização ibérica que, em sua visão, primou pela “cultura da personalidade”:

“Essa cultura da personalidade, que parece constituir o traço mais decisivo na evolução da gente hispânica, desde os tempos imemoriais. Pode dizer-se, realmente, que pela importância particular que atribuem ao valor próprio da pessoa humana, à autonomia de cada um dos homens em relação aos seus semelhantes no tempo e no espaço, devem os espanhóis e portugueses muito de sua originalidade nacional”[16].

            Considerando sua visão crítica da herança ibérica, Sergio Buarque argumentou que a cultura da personalidade era um obstáculo a qualquer forma de associação que tenha por base os interesses. A possibilidade de associação se dá muito mais através dos sentimentos, sendo estes que forjam o único tipo de disciplina possível: a “obediência cega[17]. Esta, na medida em que não se estrutura sobre qualquer tipo de contrato ou lealdade tradicional, é a única que pode existir em um contexto no qual o apelo emocional é intenso, e onde o exercício constante da força apresenta-se como necessidade.

            Nessa perspectiva, para Sergio Buarque de Holanda, era necessário se pensar o processo que levaria a uma mudança no padrão de convívio público, herdado do colonizador português. Como argumentou Antonio Candido, a narrativa de Raízes do Brasil, “consiste em sugerir (mais do que mostrar) como a dissolução da ordem tradicional ocasiona contradições não resolvidas, que nascem no nível da estrutura social e se manifestam no das instituições, idéias e políticas”[18]. A ideia de que o livro de Sergio Buarque – considerando o evidente título Raízes – buscou analisar o passado colonial é muito mais comum no que concerne aos comentários sobre o ele do que a sua proposta, considerada por Antonio Candido, como revolucionária. Para Antonio Candido, Sergio Buarque queria transformar o seu presente. Por fim, realçamos que o “projeto revolucionário” de Sergio Buarque evidenciou sua distância em relação aos autores deterministas de seu tempo, que em muitos casos viam como irremediáveis os aspectos negativos do colonialismo português.

 

Considerações finais


            Gilberto Freyre e Sergio Buarque construíram narrativas sobre o Brasil considerando o seu passado colonial como fundamental. Em seus livros, existem análises sobre a cultura ibérica. Eles, no entanto, apresentam visões distintas da herança do colonialismo português. Gilberto Freyre apresenta uma visão mais positiva e Sergio Buarque de Holanda mais negativa.

            O hibridismo português foi considerado por Gilberto Freyre como o grande responsável pelo processo de mestiçagem do brasileiro. Ele reconhecia nesse processo o escravo negro africano como parte fundamental. Diferente da produção intelectual de seu tempo, Gilberto Freyre incluiu esse ator como positivo na narrativa nacional. A miscigenação, em vários aspectos, era algo positivo que, de maneira complexa, criou uma dialética entre as relações de exploração e dominação, características do colonialismo e escravidão, e a intimidade sexual que garantiu a miscigenação. Casa grande & senzala aborda as relações de dominação, mas essa intimidade minimiza as relações de poder, produzindo um “equilíbrio relativo”.

            Diferente dessa abordagem, Sergio Buarque analisou o que, para ele, era central na herança colonial: a “cultura da personalidade”, que marca o Brasil enquanto uma sociedade que foi colonizada e escravocrata.  O colonialismo português legou relações culturais que deveriam, para Sergio Buarque de Holanda, ser dissolvidas para a composição de uma sociedade democrática. Nesse sentido, é considerada negativa a herança ibérica do predomínio das relações pessoais e rejeição à abstração burocrática.

            Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda construíram narrativas, que ao valorizar a descrição cultural e explorar a formação da sociedade desde o seu passado colonial, atenderam demandas do discurso nacionalista. Benedict Anderson[19] mostrou que nos processos de construção de narrativas nacionais, cabe aos intelectuais um lugar importante, porque são eles que imaginam a nação. Em suas narrativas, eles devem manejar histórias, símbolos, discursos, imagens e outras representações. E mesmo recorrendo a elementos culturais que estão disponíveis no mundo social e que podem ser diversos, cabe a eles selecioná-los ou não. Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Holanda, com originalidade e ênfase na vida cultural, contribuíram para o pensamento social brasileiro, sendo uns dos autores mais influentes no que se refere à construção da narrativa nacional brasileira. A miscigenação e a cordialidade que estruturam essa narrativa também teve seus fundamentos a partir de livros como Casa grande & senzala e Raízes do Brasil.



[1]    Doutora em Antropologia pelo Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense PPGA/UFF; professora de Antropologia IEAR/UFF e pesquisadora do Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos InEAC-INCT/UFF.

[2]    Estes autores são referências no presente texto e alguns deles participaram da edição crítica de Casa grande & senzala da Coleção Archivos, que reúne comentários, poesias e outros textos sobre o livro de Gilberto Freyre e sua produção intelectual. Ver Casa grande & senzala, Gilberto Freyre: edição crítica. Guillermo Giucci, Enrique Rodriguez Larreta e Edson Nery da Fonseca, coordenadores. 1ª edição Lisboa, São Paulo; ALLCA XX, 2002.

[3]    O conceito de imaginação é explorado pelo antropólogo Benedict Anderson em seu livro “Comunidades Imaginadas”. Segundo Anderson, as nações são comunidades imaginadas “porque mesmo os membros da mais minúscula das nações jamais conhecerão, encontrarão, ou sequer ouvirão falar da maioria de seus companheiros, embora todos tenham em mente a imagem viva da comunhão entre eles” (2008:32). Outro termo muito explorado neste texto é o de narrativa nacional, em relação ao qual conceitualmente também recorremos a Benedict Anderson e Eric Hosbsbawm. Ambos recusaram o essencialismo de definições rígidas e naturalizantes. Anderson em particular mostrou o papel de uma elite intelectual na construção de narrativas nacionais, recorrendo a elementos culturais. Ver Anderson, B. Comunidades Imaginadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Hobsbawm, E. & Ranger, T. A Invenção das Tradições. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

[4]      Sobre Von Martius e o IHGB, ver Guimarães, Manoel L. Salgado. “Nação e Civilização nos Trópicos: o IHGB e o projeto de uma História nacional”, Estudos Históricos, n.1, 1988, p. 3-27.

[5]    Cf. Vainfas, Ronaldo. “Sexualidade e cultura em Casa grande & senzala”. In: Gilberto Freyre. Casa grande & senzala. Idem nota 2 p.771-785.

[6]    Poucos autores eram críticos, como Manuel Bonfim, para quem a narrativa da miscigenação brasileira era inspirada em um “racismo científico” como o de Gobineau. Cf. Schwartz, Stuart B. Gilberto Freyre e a história colonial: uma visão otimista. In: Gilberto Freyre, Casa grande & senzalaIdem nota 2 p. 909-921.

[7]    Vainfas 2002:772.

[8]    Cf. p. 892. Carvalho, Maria Alice de Rezende. “Casa grande & senzala e o pensamento social brasileiro”. In: Gilberto Freyre. Casa grande & senzala.  2002. p. 887-908.

[9]    Cf. Benzaquem de Araújo, Ricardo. Guerra e paz: Casa grande & senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994

[10]  Ver Weber, Max. Relações Comunitárias Étnicas. In: Economia e Sociedade: Fundamentos da Sociologia Compreensiva, vol. 1. Brasília: Editora UnB, [1922]1991. p. 267-277.

[11]  Wilson, Martins. “Notas à margem de Casa grande & senzala”. In: Gilberto Freyre, 2002:986.

[12]  Cf. p. 06. DaMatta, Roberto. “A originalidade de Gilberto Freyre”. In Boletim Informativo e Bibliográfico de ciências sociais BIB, Rio de Janeiro, n. 24, 1987, pp. 3-10. Em outro texto, o antropólogo Roberto DaMatta argumenta que Casa grande & senzala teve três objetivos centrais: primeiro, o livro buscou romper com o racismo hegemônico de seu tempo. Para tanto, Gilberto Freyre centra sua descrição em aspectos culturais. Segundo, abordar temas considerados tabus, tais como a vida sexual da elite formadora do Brasil e de seus escravos de origem africana, apresentando a mestiçagem com algo positivo. Por fim, o livro assume o papel de mostrar a contribuição civilizadora do negro africano para a sociedade brasileira. Cf. DaMatta, Roberto. “O Brasil como morada: Apresentação para Sobrados e Mucambos”. In: Sobrados e Mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano. 14 ed. Rev. São Paulo: Global, 2003.

[13]  Candido, Antonio. “O significado de ‘Raízes do Brasil’”. In: Holanda, Sergio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 9-24.

[14]  Cf. Holanda, Sergio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.146-7.

[15]  A antropóloga Lilia Moritz Schwarcz observa que “cordialidade ‘combina’ muito mais com a idéia de intimidade” (2008:86). Ela também destaca que ao apresentar a esfera íntima, do familiar, do privado, Sergio Buarque mostrou que as estruturas mais arraigadas de sociabilidade e de uma hierarquia que se impõe na esfera do privado são observadas na esfera pública. Schwarcz, Lilia Moritz. “Sérgio Buarque de Holanda e essa tal de ‘cordialidade’”. Revista Ide Psicanálise e Cultura. v.31 n.46 São Paulo jun. 2008. p. 83-89.

[16]    Cf. Holanda, Sergio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.32.

[17]  Roberto Kant de Lima, em sua etnografia sobre a polícia, observa o papel de sensibilidades e valores morais na motivação do trabalho policial. Cf A Polícia da Cidade do Rio de Janeiro: seus dilemas e paradoxos. 2ª ed. Rio de Janeiro/RJ: Forense, 1995.

[18]  Idem nota 16;. p. 18.

[19]  Ver nota 3.

 
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Edição de Nº 2 (2013)
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