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Mafalda e a imprescindível crítica do real na aula de História.
Carlos Eduardo Rebuá Oliveira[1]


[Fonte: http://static.comicvine.com/uploads/scale_small/4/48397/907038-mafalda.jpg]

Mafalda na aula de História[2]

            Mafalda é, sobretudo, uma personagem crítica, que não aceita o mundo que “recebeu”, que o questiona constantemente a partir de seus referenciais, num movimento híbrido, que ora compreende atitudes de uma criança “típica” (que tem medo, que depende dos pais, que é ingênua...) com atitudes de uma criança excepcional (não no sentido de ser uma superdotada), que constrói belas metáforas (“saindo” da dimensão do concreto, que caracteriza a criança em seus anos iniciais), lúcida, crítica, que consegue discutir a Guerra do Vietnã, por exemplo, e muitas vezes colocar os adultos em situações embaraçosas.

            A criticidade na aula de História é requisito fundamental, bem como a associação entre processos históricos, a identificação de rupturas e permanências ao longo do tempo. Mafalda faz isso a todo instante, analisando criticamente a realidade da qual faz parte sem buscar uma pretensa neutralidade, outro requisito importante nos debates realizados numa aula de História, ou seja, tomar partido!

            Em nossa dissertação analisamos Mafalda buscando investigar como é possível, a partir da baixinha argentina, “tocar” em elementos basilares do tipo de sociedade da qual fazemos parte, grosso modo, há mais de duzentos, tais como: o individualismo, a democracia (burguesa), o estímulo ao consumo, a valorização do lucro, a propriedade privada, o progresso, o livre-comércio, a naturalização das diferenças, a desumanização e a competição.

            Obviamente, não se trata de um manual de como analisar Mafalda, e afirmo isso no trabalho. O que está em jogo é o exercício crítico de se pensar uma (s) possibilidade (s), em meio a tantas outras, de se analisar política e criticamente as histórias em quadrinhos - fruto de inúmeras análises descontextualizadas, acríticas, despolitizadas - tendo como lastro fundamental diferentes fatos/processos históricos estudados nesta disciplina escolar, tantas vezes considerada “menor” que a Matemática e/ou a Língua Portuguesa, por exemplo.

            Creio que os elementos acima destacados provocam discussões profícuas na aula de História, mas é claro que muitos outros podem ser trabalhados, como a memória, o feminismo, os regimes civil-militares, etc. Nossa preocupação foi, como dissemos, abordar alicerces da sociedade de tipo burguês. Fica a “lacuna” a ser preenchida por outras abordagens, preocupadas com outros aspectos da obra de Quino.

Mafalda, Argentina e Brasil

            Mafalda, que é a personagem de histórias em quadrinhos (hq’s) mais popular da Argentina e uma das mais conhecidas no mundo, teve uma curta trajetória (1964 a 1973). Ao contrário do que muitos acham, Mafalda não foi contemporânea da ditadura do triunvirato Videla, Massera e Agosti, conhecida como Proceso de Reorganización Nacional (1976-1983), um dos seis golpes civil-militares pelo qual aquele país passou no século XX e que deixou um saldo de cerca de trinta mil mortos/desaparecidos (sendo junto à ditadura de Pinochet (1973-1990), no Chile, a mais sangrenta ocorrida no continente).

            A personagem de Quino“nasceu” numa década bastante conturbada, a década de 1960, e viu começar a década seguinte, também turbulenta. “Surgiu” durante o governo de Arturo Umberto Illia (1963-1966), derrubado em 28 de junho de 1966 por outro golpe, menos conhecido aqui no Brasil e cujo saldo de mortos/desaparecidos foi menor que no período do Proceso (ainda que tenha sido a segunda ditadura mais sangrenta da Argentina daquele país no século passado).Era a chamada Revolução Argentina, que colocou no poder os generais Onganía, Levingston e Lanusse.

            Desta forma, é possível estabelecer vínculos entre o período histórico argentino, retratado em Mafalda e a realidade brasileira no mesmo momento (Quinocomeça com Mafalda no mesmo ano em que no Brasil é deflagrado o Golpe que “duraria” vinte e um anos), com ressalvas no sentido de que a Argentina presenciou muito mais momentos de “exceção”, de repressão, que o Brasil. Somente o período do Proceso matou quase trinta vezes mais que a ditadura brasileira, sendo que a ditadura “deles” durou sete anos, um terço do tempo da “nossa”!

Quino: atual e genial

            Sem dúvida, Quino é um dos artistas mais completos que surgiram em nuestra America, na medida em que Mafalda (que só “existe” nas relações que constrói com seus pais, com Manolito, Miguelito, Susanita, Felipe, Libertad e Guile, seu irmão – ver Box), que não representou uma série de hq’s na forma de gibi (como a Turma da Mônica, por exemplo), que é bastante “datada” (trata da Guerra Fria, das ditaduras na América Latina, etc.) e que “durou” apenas sete anos, conseguiu ser traduzida em países como Japão, Noruega, Austrália, sociedades bastante distintas das existentes em nosso continente, e a despeito disso, fez e ainda faz bastante sucesso.

            O enorme alcance da obra de Quino (cuja genialidade de forma alguma se refere apenas a Mafalda – existe um “outro” Quino extremamente rico para além dela) se deve ao fato de que o artista argentino construiu críticas, abordou questões “permanentes”, “tocou” os sentidos das pessoas de uma maneira que não está limitada a um tempo/espaço definidos, como a questão da liberdade ou do que é a soberania de um povo, por exemplo. Talvez esta seja a marca mais fundamental de um gênio, seja ele Beethoven, Dostoiévski ou Quino.

            Após ser perguntado se é possível modificar algo através do humor, Quinoafirmou certa vez: “Não. Acho que não. Mas ajuda. É aquele pequeno grão de areia com o qual contribuímos para que as coisas mudem”.[3] Não tenho dúvidas de que Mafalda e sua turma representam importantes “grãos de areia” na construção de outras leituras/interpretações de nossa realidade, e logo, no limite, na construção de um outro mundo possível e necessário.

A crítica Mafaldiana à sociedade burguesa

Tira 1: A valorização do lucro[4]

            A Tira 1 tem Manolito como protagonista e o lucro como tema, mostrando Felipe, Mafalda e Manolito escolhendo uma brincadeira. Felipe, já cansado de brincar de “caubói”, propõe a seus amigos algo diferente: brincar de pirata. Manolito, extremamente entusiasmado com a ideia, sem ao menos dar voz aos outros dois, apresenta seu “plano” para a brincadeira. O problema é que na interpretação de Manolito, piratas não são os mercenários do mar, que atacam embarcações, pilham mercadorias, apreciam rum e têm pernas de pau. Sua visão materialista e gananciosa entende como piratas aqueles indivíduos/grupos que almejam o lucro acima de tudo, utilizando-se de inúmeros artifícios (no caso, o aumento da taxa de juros) para acumular cada vez mais riqueza.

            A valorização do lucro é tema recorrente nas tiras em que aparece Manolito. O capitalista da turma (e o único que trabalha – no Armazém Don Manolo, de seu pai) não consegue pensar o mundo sem cifrões, preços, dinheiro, acumulação, investimentos, rentabilidade. Até mesmo numa simples brincadeira Manolito consegue um jeito de enxergar dividendos, lucro.

            Se o lucro[5] é uma variável econômica cujo surgimento é difícil de precisar, sem dúvida será com a burguesia que tal variável alcançará um status de importância incontestável, tanto a nível econômico quanto no âmbito social. Marx e Engels dizem que “os que no regime burguês trabalham não lucram e os que lucram não trabalham”[6].Logo, indo ao encontro do que dissemos anteriormente, na sociedade burguesa o lucro representa elemento fundamental, sendo “vendido” ideologicamente como uma oportunidade ao alcance de todos, ainda que na prática, apenas uma minoria goze deste “ganho”.

            O Século XVIII viu o capitalismo se consolidar[7] com a Revolução Industrial (depois de três séculos de transição do sistema feudal para o modo de produção em que o capital é o principal meio de produção) e a burguesia controlar o aparelho de Estado[8] e a produção cultural (tendo o liberalismo como ideologia fundamental), através da Revolução Francesa, quando pôs fim ao feudalismo e ao absolutismo e inaugurou uma sociedade de novo tipo, dando início ao que os historiadores chamam de Era Contemporânea (de 1789 aos dias atuais).

            Esta nova sociedade irá consagrar as relações capitalistas de produção[9] , o individualismo, a igualdade jurídica, a inviolabilidade da propriedade privada e, principalmente, colocará na ordem do dia a valorização do lucro e a acumulação de capital, palavras quase “sagradas” há pelo menos duzentos anos.

            É inegável a atualidade da Tira 1, tendo em vista a crise financeira mundial de 2009 (com início em 2008), a maior desde 1929, precipitada justamente no setor imobiliário, onde as hipotecas constituem um mecanismo extremamente perverso a serviço dos bancos, que não hesitaram em executá-las em massa para não diminuir sua margem de “lucro”. Manolito, o especialista em finanças da turma, pode não saber muito de piratas do mar, mas compreende bem os piratas de terno e gravata, aqueles cujos “canhões” são os juros, as hipotecas, e outras armas bastante destrutivas.

Tira 2: A propriedade privada[10]


            A tira 2 aborda o tema da propriedade privada de uma maneira extremamente divertida e crítica. Nesta tira, através de Mafalda, Libertad e Susanita, Quinomostra com clareza, em apenas três quadros, o panorama sócio-político da Guerra Fria, quando o mundo estava dividido entre os blocos capitalista e socialista e o medo do espectro vermelho assombrava a classe média de vários países, inclusive na América Latina. O receio de que os comunistas, caso tomassem o poder, se apropriassem das residências e a dividissem entre cinco, seis ou mais famílias tirou o sono de muita gente em nuestra America.  

            Na casa de Susanita, as três meninas brincam de construir casas, castelos, com um jogo de peças de montar, que pertence à burguesinha da turma. De repente, Libertad, a pequena radical da turma, pergunta à Mafalda (enquanto Susanita está distraída) se ela já percebeu que é comum nas reportagens de tevê, políticos serem perguntados se defendem ou não a propriedade privada. Após Mafalda responder que já havia notado, Libertad se dirige à Susanita e pergunta se ela é a favor ou contra a propriedade privada. Então, eis que Susanita rapidamente junta todas as peças de seu jogo, e encolhida no canto da sala, com expressão de temor, pergunta: “Depende... propriedade privada de quem?” Mafalda e Libertad, como de praxe, ficam sem palavras, diante do egoísmo gigantesco da amiga aristocrata.

            A propriedade privada, que para Marx era sinônimo de divisão social do trabalho[11], talvez seja o ponto mais polêmico ao se discutir os elementos característicos da sociedade burguesa. Propor sua abolição então é quase uma heresia. Segundo Marx e Engels, defender o fim da propriedade privada não é exclusividade dos comunistas (a Revolução Francesa aboliu a propriedade feudal, instituindo a propriedade burguesa). Para os pensadores alemães,

            O que caracteriza o comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Mas a moderna propriedade privada burguesa é a última e mais perfeita expressão do modo de produção e de apropriação baseado nos antagonismos de classes, na exploração de uns pelos outros. Nesse sentido, os comunistas podem resumir sua teoria numa única expressão: supressão da propriedade privada[12].

            Na segunda parte do Manifesto (Proletários e Comunistas), talvez a mais elucidativa, Marx e Engels respondem a seus críticos, explicando porque defendem o fim da propriedade privada, da família burguesa, da pátria, da nacionalidade. Ao falar da supressão da propriedade privada, afirmam:

Horrorizai-vos porque queremos suprimir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está suprimida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Censurai-nos, portanto, por querermos abolir uma forma de propriedade que pressupõe como condição necessária que a imensa maioria da sociedade não possua propriedade. Numa palavra, censurai-nos por querermos abolir a vossa propriedade. De fato, é isso que queremos[13].

            Na ideologia liberal, a propriedade privada representa elemento central, estando profundamente vinculada à concepção de indivíduo e de liberdade. O indivíduo é um indivíduo uma vez que é proprietário, assim como sem propriedade não pode existir liberdade, não se pode existir como cidadão, como sujeito de direitos políticos. Além disso, indivíduo, propriedade, organização política, liberdade, são todos compreendidos, na concepção liberal, como fenômenos naturais[14].

            A perspicácia de Quino mais uma vez surpreende, ao utilizar sua “interlocutora para assuntos burgueses”, Susanita, e seu “porta-voz do capital”, Manolito, para tocar numa questão extremamente delicada, quase um tabu entre a grande maioria dos indivíduos. Através do traço genial e, principalmente, da riqueza do texto, o cartunista argentino, sem a pretensão de mostrar o que acha da questão, indica que a grande dificuldade em relação à propriedade privada (sobretudo na tira de Susanita), à discussão sobre sua natureza, é justamente superar a perspectiva individualizante, egoística, que refuta vigorosamente qualquer projeto sintonizado com a construção de uma sociedade justa, plural, livre, na qual, como afirmaram Marx e Engels, o livre desenvolvimento de cada pessoa é a condição primeira para o livre desenvolvimento de todos.

Tira 3: O progresso[15]

            A Tira 3 também representa um momento de leitura, desta vez com Mafalda. Em casa, lendo uma revista ou jornal, Mafalda lê em voz alta uma matéria que cita um informe da UNESCO, apontando a existência (à época) de mais de setecentos milhões de adultos analfabetos no mundo. No segundo quadro da tira, Mafalda, assustada com o que acabara de ler, pensa: “Meu Deus, setecentos milhões!”. E em seguida, ainda mais chocada, solta outra de suas “pérolas”: “Como o progresso está atrasado!” (assumindo uma postura “excepcional”, ao fazer uma associação bastante difícil para uma criança de apenas seis anos!)

            O Século XIX, chamado de “o longo século XIX”[16] pelo historiador britânico Eric Hobsbawm[17], é o período histórico em que os valores e o modo de vida burguês se consolidam. Classe revolucionária dos séculos XVII e XVIII (sobretudo), a burguesia conquistaria a hegemonia social apenas no XIX, século marcado pelo desenvolvimento econômico capitalista e pelos diferentes “ismos”: os triunfantes liberalismo e imperialismo, e os efervescentes nacionalismo e socialismo, sem falar no positivismo, que compreendia o progresso como algo inexorável, mas que se daria através de um processo gradual, contínuo, integrado.

            A partir do século XIX, a ideia de progresso estaria umbilicalmente ligada ao projeto burguês de sociedade e ao modo de produção capitalista, sendo a Europa o modelo de civilização a ser seguido pelos países periféricos. Hobsbawm afirma que a burguesia do século XIX era “uma geração que acreditava no progresso universal e constante”[18]. No entanto, se o século XIX trouxe a estrada de ferro, o dínamo e o telégrafo, o século XX revelou ao mundo as consequências mais desastrosas do “progresso”, com a eclosão das duas maiores guerras já vistas pelo homem, onde a ciência teve papel fundamental, criando armas de fogo de alta tecnologia, os gases venenosos (já na Primeira Guerra) e finalmente, a bomba atômica.

            Falar em progresso, a partir de Marx, é compreender que se trata de um processo descontínuo, caracterizado pela desarmonia e por “saltos”, discrepâncias, de uma sociedade para outra, e que ocorrem através da luta de classes[19]. A teoria do desenvolvimento desigual e combinado[20], desenvolvida por Trotsky, uma perspectiva antievolucionista, antieurocêntrica e que refuta a ideia do progresso linear, representa uma das contribuições teóricas mais caras ao marxismo. Trata-se de um instrumento analítico que defende que o capitalismo é um sistema de alcance mundial, que assume formas diferentes nos centros industriais avançados e nos países capitalistas dependentes, sob o domínio econômico imperialista. O desenvolvimento desigual destes países combina formas modernas (semelhantes às dos países industriais do “primeiro mundo”) e arcaicas num só processo sócio-econômico, numa união dialética do mais “avançado” com o mais “atrasado”. O Brasil representa um exemplo clássico, pois ainda hoje convivem em sua sociedade o “novo” e o “velho”, como o agronegócio capitalista que utiliza trabalho semi-escravo. Outro exemplo importante é a Índia, referência na tecnologia de ponta em microinformática, com a grande maioria de sua numerosa população vivendo em condições de vida subumanas.    

            A tira de Quinotoca exatamente nesta questão, com Mafalda afirmando, com pesar, que naquela época (décadas de 1960 e 1970), o progresso ainda estava bastante atrasado, com quase um terço da população mundial (que no período, ultrapassava três bilhões de habitantes) sendo de analfabetos. Hoje, cinquenta anos depois, o índice de analfabetismo no mundo permanece alto (mais de 800 milhões), ainda que a população, em relação ao período citado, tenha dobrado (mais de 6 bilhões de pessoas).

            O capitalismo continua se expandindo de maneira desigual e combinada, com o progresso dos de “baixo” sendo um híbrido de avanço e atraso, sem, no entanto, existirem “dois mundos”, “dois Brasis”, como muitos insistem em afirmar. E retomando o velho Marx, é fundamental compreender que pobreza e riqueza, abundância e escassez, atraso e progresso, novo e velho, mantêm entre si uma relação dialética, e que o real, que é histórico, concreto e complexo, é a síntese de múltiplas determinações.

Finalizando...

            A baixinha Mafalda pensa e age a partir “de baixo”, em seu duplo (múltiplos?) sentido (s). Defender outra educação possível, outra escola, é defender outra sociedade, e a crítica Mafaldiana sobre os problemas da sociedade contemporânea,onde todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros[21], sem dúvida pode ajudar bastante o professor que “enxerga” o mundo a partir de uma perspectiva contra-hegemônica.

            Neste breve texto, objetivamos provocar discussões que permitam aos alunos fazer outras leituras e colocar as suas, na roda da polêmica, como exposto aqui. Não queremos construir um discurso único, um caminho num só sentido, mas exercitar a crítica na aula de História, problematizando o mundo de hoje a partir dos olhares de Mafalda e seus amigos, que continuam atuais, dentre outros motivos, porque não “vivem” num mundo fictício, não interpelam uma realidade fantástica, mas sim um mundo real, concreto, definido no tempo/espaço (décadas de 1960 e 1970, na América Latina), com todos os seus conflitos (Guerra Fria, embates entre regimes civil-militares e grupos de esquerda, movimentos de independência/libertação, etc.) e contradições.

            A enorme criatividade de Quino e a envergadura de sua obra permitiriam inúmeras interpretações, leituras e outras tantas análises críticas, que podem ou não concordar com sua perspectiva. As três tiras aqui analisadas e “rotuladas” podem se somar a inúmeras outras, assim como podem ser reinterpretadas, coletivamente, no espaço diverso e contraditório da aula de História, inconcebível sem a crítica do real, sem a polêmica, sem o diálogo constante com o mundo de “fora” da escola; um mundo “doente” – segundo Mafalda – que merece, na sala de aula, a mesma importância dedicada pela baixinha argentina, cuja imagem ao lado do globo terrestre já se imortalizou.



[1] Doutorando em Educação da UFF (PPGE); mestre em Educação pela UERJ (ProPEd); bacharel e licenciado em História pela UFF; professor de Ensino Superior e da Educação Básica. Bolsista CAPES. Email: eduardorebua@yahoo.com.br

[2] Este texto é fruto da dissertação de mestrado em Educação apresentada em 2011, no ProPEd/UERJ: REBUÁ, Eduardo. Mafalda na aula de História: a crítica aos elementos característicos da sociedade burguesa e a construção coletiva de sentidos contra-hegemônicos. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – ProPEd/UERJ. Rio de Janeiro, 2011.

[3] Em entrevista traduzida para o português pelo site http://www.mafalda.net/ (sem data).

[4] QUINO, 2002, p. 407 e p. 396, respectivamente.

[5] Marx utilizava, normalmente, lucro como mais-valia total (sobretrabalho total).

[6] MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 54.

[7] Obviamente, a consolidação do capitalismo foi um longo processo histórico, “finalizado” apenas no século XIX.

[8] Apesar de tomar o poder em 1789, na França, a burguesia, de uma maneira geral, só se tornaria a classe politicamente dominante no XIX – nos séculos XVII e XVIII era a classe econômica preponderante.

[9] O que provoca a associação quase que imediata de “sociedade burguesa” com “sociedade capitalista”. Tal associação é bastante comum em livros didáticos de História, por parte dos docentes e, sobretudo, dos alunos. Não é menos comum encontrar tal correlação como algo “dado”, em textos/conferências de diversos intelectuais.

[10] QUINO, 2002, p. 388 e p. 368, respectivamente.

[11] “Divisão do trabalho e propriedade privada são expressões idênticas; o que uma diz sobre a atividade é o que a outra diz sobre o produto da atividade” (MARX apud KONDER, Leandro. A questão da ideologia. São Paulo: Cia das Letras, 2002, p. 41).

[12] Op. cit., p. 52.

[13] Ibidem, p. 54.

[14] ACANDA, Jorge Luis. Sociedade civil e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006, pp. 80-81.

[15] QUINO, 2002, p. 138.

[16] Pois suas características mais significativas têm início nas revoluções do século XVIII (Industrial e Francesa), sendo modificadas apenas na primeira metade do século XX, com a Primeira Guerra Mundial.

[17] HOBSBAWM, Eric. A era do capital (1848-1875). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

[18] HOBSBAWM, op. cit., p. 290.

[19] BOTTOMORE, Tom (edit.). Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001, p. 303.

[20] LÖWY, Michael. A teoria do desenvolvimento desigual e combinado. Revista Outubro, nº 1, pp. 73-80. Artigo publicado originalmente na revista Actuel Marx, 18, 1995. Disponível em: http://www.revistaoutubro.com.br/edicoes/01/out01_06.pdf . Acesso em: 18 set. 2010.

[21] Parafraseando George Orwell, em “A Revolução dos Bichos”: ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. São Paulo: Círculo do Livro, 1974.

 
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Edição de Nº 2 (2013)
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