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A filosofia do “não ser”: uma abordagem histórico-filosófica da Filosofia da libertação (1960-1977)
Sérgio Turcatto (*)

O presente artigo visa apontar como novidade filosófica, e afirmar que há de fato, um tipo de pensamento nascido entre os povos latino-americanos. Diversas perspectivas filosóficas, instigadas pelas inúmeras tentativas de colonização da atividade intelectual do homem latino-americano, se agregaram em torno da chamada "filosofia da libertação”. 

A realidade de exploração do trabalho do homem ibero-americano ocorreu desde o processo de colonização da América. Pela sua resistência  histórica e lutas incessantes pelo justo direito à vida, o grito dos expropriados se fez ecoar por toda a América Latina. Nesse contexto, haveria uma nova perspectiva de saber filosófico nascido em terras tão distantes? Esse saber parte das inquietações e problemáticas vividas pelos seus diversos povos. Isto poderia ser considerado filosofia? Devido à crise e acirramento das economias desses povos, das políticas no interior dessas nações, a modernização conservadora, as ditaduras, a renovação das igrejas com o Concílio Vaticano II, entre outros fatores, favoreceram para que esse debate ocupasse também o mundo filosófico de forma mais ampla a profunda.
A partir dos anos de 1960, alguns intelectuais latino-americanos passaram a debater sobre a existência ou não de um saber filosófico produzido na América latina (AL). Eles possuíam em comum um olhar atento para a realidade dos subalternos e estavam irrequietos na sua atividade  intelectual.  O lugar comum era que esta terra estava banhada de sangue e teimava em não ser colonizada. Tais inquietações reais vividas no conjunto das relações sociais ganham visibilidade também no meio acadêmico, serão agrupadas por determinados filósofos em torno da chamada “filosofia da libertação” (FL), ou melhor, “filosofias da libertação”. Essa nova perspectiva de filosofia é a expressão mais clara da tomada de consciência do “não ser”, gerador de uma nova dis-tinção/identidade latino-americana.

Para compreender essa nova concepção filosófica, deve-se examinar nos quadros da história o seu desenvolvimento, a fim de garantir coerência e fidelidade. O problema está nas formas de conservação da unidade ideológica em todo bloco social. Se por um lado, a geração da filosofia da libertação não se constituiu em si, mas é parte de um conjunto de correntes filosóficas, dentre as quais é a mais original e representativa concepção de mundo genuinamente latino-americano, por outro lado, há filósofos individuais que produzem conhecimentos com referenciais teóricos da filosofia analítica,  materialismo histórico, existencialismo, fenomenologia e etc.

Determinados pensadores se reuniram para analisar e buscar respostas também filosóficas na América Latina. Isso implicou num novo referencial teórico, tendo como ponto de partida aquele homem que clama por justiça.  Exigiu pensar um novo modo de fazer-saber, que se opõe ao saber-ser. Esse movimento pode ser verificado a partir de três pontos fundamentais:

  1. Ampla visão das correntes que fecundaram a FL.
  2. Antecedentes históricos da FL e  suas matrizes.
  3. Filosofia da libertação.

Concepções de mundo e a formação da FL

Ao analisar o panorama da produção filosófica na América latina, constata-se que determinadas visões de mundo foram impostas desde o processo de colonização. Foram introduzidas por determinados pensadores como forma de analisar o “ser” e não para compreender o que fizeram com o “ser”. Essas correntes filosóficas desenvolveram análises particularizadas de mundo.  No entanto, “la filosofia de la liberacion no es, ni de lejos, la única novidade conceptual de mi país (Argentina) y de la Patria Grande” (in BEORLEGUI, 2006,  p. 662). As filosofias da libertação operaram de maneira original ao afirmar a existência do “não ser” na AL.
Neste artigo não há como apresentar de forma ampla e profunda todas as correntes e pensadores que motivaram o “saber” na AL. Todavia, é possível apontar linhas ou escolas de pensamento filosófico:

  1. Filosofia de tendência metafísica;
  2. Filosofia fenomenológica e hermenêutica;
  3. Filosofia cristã;
  4. Filosofia analítica;
  5. Filosofia da lógica e da ciência;
  6. Filosofia do Direito e dos valores;
  7. Filosofia marxista – vale ressaltar que no seu interior há pelos menos 5 perspectivas de autores denominados neomarxistas;
  8. Filosofia da libertação;

            Para compreender o movimento dessas correntes e o “engravidar-se” desta realidade específica, será necessário, por um lado, identificar os conceitos que tais filosofias “cederam” e de que forma encontraram momentos de rejuvenescimento e, por outro lado, “a investigação mais difícil e delicada é a das absorções ‘implícitas’, inconfessas, realizadas justamente” (GRAMSCI, Q 16, § 9, p. 33) pelo movimento da realidade cultural desses povos.

Breve apontamento histórico e as origens da FL

Dada à juventude desse movimento filosófico em torno da FL, nem sempre há clareza da ação histórica de tal concepção de mundo. Isto se verifica tanto por parte de pesquisadores, como de determinadas absorções filosóficas que ainda não estão plenamente claras. Segundo BEORLEGUI, há várias possibilidades de apreciação, por isso que “en muchos aspectos seguiremos los análises de Cerutti, aunque en otros nos distanciaremos de él” (BEORLEGUI, 2006, p. 666).

Esse movimento analítico é positivo na medida em que amplia e aprofunda o estudo dessa realidade. Defini-lo é uma tarefa significativa e muito mais complexa do que possa parecer, mas apresenta determinados traços bem claros.

“Se caracteriza por su orientación humanista y por la utilización de la filosofia como instrumento de liberación, elaborando un posible modelo de sociedade más justa, el ‘socialismo libertario’, así como la denuncia de todo lo que se opone a la realización de esse modelo (ibidem, p. 667).

No interior dessa caracterização a filosofia é vista como instrumento para um determinado télos. Abre-se a possibilidade da existência de diferentes modelos filosóficos que objetivam a libertação. Segundo Hugo Biagini(1989) há quatro modelos de FL, contendo uma definição específica e auto compreensão:

La línea de Rodolfo Kusch, denominada de la ‘fracción nacional populista’; la de Carlos Cullen, de ‘influência hegelianan’; la de Enrique Dussel, ‘anti-ontologista’, e la de Horacio Cerutti, defensor de ‘una visión crítica del próprio movimiento’ (in ibidem, p. 667).

Essas linhas de pensamento explicitam novas armas conceituais capazes de instrumentalizar a libertação do “não ser” Latino-americano. Pode-se  perceber essa concepção de mundo num sentido mais específico e outro mais amplo. No primeiro sentido, tal perspectiva filosófica visa à defesa da soberania nacional, no âmbito da cultura e da história das ideias dos diferentes povos e países. Num sentido mais específico, refere-se a um movimento de intelectuais dos anos setenta, na Argentina, que considera o povo como o sujeito do filosofar e o filósofo como um “intelectual orgânico”.

Como se não bastasse os diferentes modelos e sentidos, houve também a discussão sobre o grupo de pensadores mais originais e originadores da  FL. De forma sucinta, vários pesquisadores sinalizam três focos filosóficos: no México, com Leopoldo Zea, no Peru com Augusto Salazar Bondy e na Argentina. Há uma similitude na forma de pensar entre os vários países da AL.

A partir dessa semelhança de perspectiva, o incansável filósofo Henrique Dussel, um dos maiores expoentes da FL, indicou que o pensamento latino-americano despontou a partir das seguintes etapas:

  1. Primeira filosofia   da libertação implícita: a crítica à conquista (1510 - 1553).
  2. A segunda, a justificação filosófica da primeira emancipação (1750 – 1830): Alberdi e o romanticismo.
  3. A terceira se articulou a partir de 1969, e seria segunda emancipação: a FL.

De fato, a primeira etapa explícita da FL (1969 – 1973) é considerada por Dussel como o momento da constituição desta concepção filosófica. O momento seguinte é o da maturação (1973 – 1976). A seguir, ocorreu a perseguição das elites intelectuais contrárias à nova configuração das forças de dominação do capitalismo sobre o continente americano. No atual momento a FL segue crescendo e dando respostas às novas problemáticas.

Entretanto, faz-se necessário historicizar o movimento dos subalternidades inspiradores da FL, no conjunto dos elementos que a compõem, suas origens, modelos e vertentes filosóficas. O ponto de contato da FL está na expressão verbal do ser “negado”, no seu discurso e implicações filosóficas decorrentes dessa realidade concreta.

La primera pregunta que debemos hacernos es por que surge este tipo de filosofia en América Latina, y en esse momento concreto de su histórica, puesto que los movimientos filosóficos e ideológicos no surgem por si, sino que son fruto de un contexto y situiación que los explica y fundamenta (ibidem, p. 672).

Isto demonstra que a FL rompe com a maioria dos discursos filosóficos, pois está vinculada a uma situação concreta, no contraste entre duas consciências, uma oprimida pelo sistema capitalista dependente expressa na ação e a outra, manifestada pela palavra. Quanto à consciência explicita na ação, fora analisada pela “teoria da dependência”. No entanto, a consciência verbal historicamente constituída suplica superar filosofias legitimadoras da colonização cultural por filosofias autênticas e originais dos novos protagonistas culturais.
Por isso, em “épocas normais” a posição da FL não se separa da política, por considerar que sua escolha é crítica e consciente. Momentos como as Jornadas filosóficas de San Miguel (organizadas por Dussel e Scannone, no ano de 1973), que deram visibilidade e materialidade externa ao movimento filosófico nascente. A preocupação desses pensadores argentinos fora discutir o saber genuinamente latino-americano. O tipo de saber em debate verte da política e da cultura em geral.

A perspectiva de política adotada na análise histórica é a de relações de força e a da grande política[1].  Estava claro o tipo de burguesia que havia e ainda há nos países da América Latina e sua relação com o capitalismo mundial. Essa dependência não se restringia apenas no campo econômico. Nele essa dominação e dependência obtinha materialidade.

Nesse contexto de subalternidade cultural nasceu uma filosofia que não se pretende subalterna. Se por um lado, muitas correntes filosóficas europeias se pretenderam colonizadoras, por outro lado, os colonizados entenderam e extraíram da sua história as potencialidades de investigar seu pensar genuíno. O contexto cultural que originou a FL está perpassado por várias correntes filosóficas europeias. As influências mais decisivas vieram do próprio continente Latino-americano. A situação de dependência, pobreza e endividamento das economias formaram o estopim para iniciar o processo que passou a problematizar e a criticar a realidade de dependência. As principais matrizes problematizadoras são:

  1. Matriz econômica: a teoria da dependência, por considerar que o subdesenvolvimento de uma nação não é algo natural, mas é uma consequência lógica de dependência colonial secular.
  2. Matriz da conscientização: a pedagogia do oprimido, segundo a perspectiva de Paulo Freire.
  3.  Matriz religiosa: Teologia da libertação, a qual entende a fé como reflexão e prática de libertação, com base nos momentos significativos como, o Concílio Vaticano II (1962 – 1965), Medellin (1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992). Segue uma análise histórica dos evangelhos de da relação com o povo.
  4. Quarta matriz: a literatura latino-americana, da qual germinam obras novelísticas e poéticas que refletem a situação de dependência, dominação e o télos da libertação.
  5. Matriz filosófica: dentre os antecedentes filosóficos da FL, destaca-se o debate salutar entre Leopoldo Zea e  Augusto Salazar sobre a existência ou não de uma filosofia genuinamente latino-americana. Gómez-Martínez sistematiza tal problemática com base na seguinte tese:

Iberoamérica se coloca, por primera vez, a la vangardia del pensamiento, pero en su acto de problematizar, deconstruir, el discurso axiológico occidental, no llega a indepenzarse suficientemente, y formula su discurso libertador com los mismos pressupuestos bancários que pretendia confrontar. Se trataba, em efecto, de los mismos presupuestos bancários, em cuanto que eran igualmente excluyentes; a la ‘verdad occidental’, que no concebia la posibilidad de diálogo y que, por tanto, se ofrecía com el valor ‘depositario’ de lo absoluto, de lo que hay que aceptar, se oponía ahora, desde Iberoamérica, la ‘verdad terceiromundista’; pero no se hacía, em su diálogo, sino como ‘verdad bancaria’ destinada a substituir  el ‘discurso del centro’ por el ‘discurso de la periferia’(in BEORLEGUI, 2006, p. 686).

Ao tratar da matriz filosófica, houve diversos elementos que a originaram. São dois os focos precursores da FL: a perspectiva do México com Leopoldo Zea e no Peru com Augusto Salazar Bondy. Entretanto, jovens filósofos argentinos passaram a dialogar sobre a situação de dependência dos países, organizando grupos de debates e encontros, com destaque para três momentos significativos:

  1. O II Congresso Nacional de Filosofia (1971), em Córdoba (Argentina).
  2. O II Encontro Acadêmico de Filosofia da Faculdade de Filosofia da Universidade de Salvador, em São Miguel (Argentina), em 1972.
  3. E o lançamento da FL para toda a Latinoamérica, no Encontro de Filosofia de Morelia (México), em 1975. 

A partir desses momentos criou-se um consenso com a finalidade de elucidar as características da FL, considerando as distintas correntes filosóficas que a originaram. As características que parecem coincidir com todas elas são:

  1. A consciência da dependência econômica, social e cultural;
  2. O télos filosófico como instrumento de libertação do “não ser”;
  3. O ponto de partida da FL é a situação concreta LA e seu compromisso com a realidade;
  4. O método filosófico e seu aporte teórico obedecem aos pressupostos de cada corrente filosófica;
  5. A utopia libertadora.

Assim, observa-se que se por um lado, há aspectos comuns que orientam a superação de opressão e dominação imposta pelo sistema hegemônico aos povos Iberoamericanos, por outro lado, “se diferencian de forma notable respecto al sujeito de la liberación, las mediaciones para conseguirla, y la s metas o utopia final a la que apuntar, esto es, los contenidos de la situación final de liberación” (ibidem, p. 694).

 Filosofia da libertação

Frente à observação de Beorlegui (2006) sobre a forma de pensar o processo de libertação dos povos Ibero-americanos, a proposta original de Enrique Dussel (1977) encontra-se desenvolvida na obra Filosofia de libertação na América Latina. No capítulo 5, intitulado Da ciência à filosofia da libertação, o filósofo da libertação demonstra o cerne teórico-metodológico da FL. Na introdução do capítulo, Dussel (1977) evidencia a seguinte ideia:

Nesta parte deveremos expor um discurso que tem por tema os mesmos discursos das partes anteriores, um meta-discurso. Trata-se da questão dos métodos, um saber avançar pelo caminho (metà-ódos) da teoria, da prática, da poiésis, até chegar à determinação do método da filosofia da libertação, e tentar assim propor um modelo do processo de seu discurso crítico (DUSSEL, 1977, p. 159).

O capítulo está subdividido em nove tópicos. Nos oito primeiros tópicos (ciência, dialética, momento analético, prática, poiética, ciência do homem, métodos ideológicos e métodos críticos) o pensador exilado no México expõem suas ideias num nível crescente para chegar à questão central da FL.

O tópico nono intitulado Filosofia da Libertação é o núcleo central de toda a sua obra. Assim está subdividido:

5.9.1. Sentido da questão.
5.9.2. Problema e hipótese da filosofia da libertação.
5.9.3. Marco teórico filosófico.
5.9.4. Um modelo para a reflexão filosófica.
5.9.5. Descrição e validade da filosofia da libertação.

Nestes cinco pontos o filósofo da libertação esboça o passo a passo que compõe o instrumento de libertação do “não ser”. No primeiro ponto do nono tópico, Dussel  (1977) inicia dizendo que “o método da filosofia é teórico analético;  não é intrinsecamente prático nem poiético, embora esteja condicionado por ambos” (ibidem, p. 174).  Aponta a insuficiência do método dialético. Define a justiça como a prima filosofia, visto que a “política é o centro da ética como metafísica (a exterioridade ético-metafísica)” (ibidem, p. 174).

Trata-se de uma metodologia filosófica original, distinta e que vai além da forma básica dos procedimentos e categorias etnocêntricas da modernidade europeia. Ao princípio da identidade (lógico e ontológico) que milenarmente funda a tradição filosófica europeia, o método da FL terá seu ponto de partida com o princípio da alteridade. O pressuposto intocável desse método estabelece que o discurso filosófico tenha um caráter eminentemente ético, para além de sua dimensão lógica. O discurso é válido ou inválido não por sua correção lógica, mas por seu acordo ou desacordo com a justiça. O pressuposto é de que o filosofar antes de ser lógico deve ser justo. A justiça guarda uma relação fundamental do discurso do outro. Realiza-se numa comunidade de falantes; é uma ação dialogal.

A filosofia parte do contexto da AL e de uma postura distinta das filosofias eurocêntricas, segundo Dussel (1977):

Trata-se agora de um método (ou do domínio explícito das condições de possibilidade) que parte do outro enquanto livre, como um além do sistema da totalidade; que parte, então, de sua palavra, da revelação do outro e que com-fiado em sua palavra, atua, trabalha, serve, cria... O método analético é a passagem ao justo crescimento da totalidade desde o outro e para ‘serví-lo’ criativamente... A verdadeira dia-lética tem um ponto de apoio ana-lético (é um movimento anadialético). (DUSSEL, 1986, p.196-197).

A partir desta perspectiva, a FL da libertação problematiza o seus fazer: “É possível fazer filosofia em países subdesenvolvidos? Pouco depois, a pergunta foi formulada de outra forma: É possível filosofar autenticamente numa cultura dependente e dominada?” (DUSSEL, 1977, p. 176). Após esse problematização histórica não seria possível continuar a afirmar as filosofias eurocêntricas. A superação requer enfrentar a seguinte hipótese:

Parece que é possível filosofar na periferia, em nações subdesenvolvidas e dependentes, em culturas dominadas e coloniais, numa formação social periférica, somente se não se imita o discurso da filosofia do centro, se se descobre outro discurso. Tal discurso, para ser outro radicalmente, deve ter outro ponto de partida, deve pensar outros temas, deve chegar a conclusões e com método diferente (ibidem, p. 176-177).

O marco teórico da FL inclui determinadas categorias essenciais, com etapas importantes de um discurso que se abre para a libertação. O primeiro nível inicia pela história, pois é o reconhecimento de um ethos cultural latino-americano (sistema de valores pensados e vividos; os valores presentes nos estilos de vida práticos, nos hábitos e nos costumes), constituído pôr heranças históricas de elementos das culturas indígenas e negras, das culturas árabes-semitas, das culturas indo-europeias e da cultura da cristandade colonial europeia.

O discurso teórico adentra na meta-física, como discurso do ethos, onde se descrevem as categorias de totalidade, exterioridade, proximidade, mediação, alienação e libertação.

Num terceiro nível, o discurso se abre para a prática ou fazer-saber, privilegiando os momentos como a política e a erótica, “como mediação entre ambos a pedagógica, como conclusão total o antifetichismo, que se realiza nos três anteriores como absolutização ou  crítica ao sistema político, erótico ou pedagógico” (ibidem, p. 178).

Em último lugar, a poiética, isto é, a filosofia da produção, na qual o discurso está orientado pela práxis ou discurso intraprático, como relação homem-natureza e a categoria de substantividade, abrindo-se primeiramente na poiética como expressão de significantes, signo e semiótica.

Por outra parte, assim como a pedagógica era mediação entre a política e a erótica, assim a econômica é a mediação primordial entre a prática e a tecnologia. A política dá critérios práticos à economia; a economia dá critérios fundamentais à tecnologia ou ao desenho. Mas, por outro lado, a tecnologia (por exemplo, a revolução industrial) condiciona a economia que, por sua vez condiciona a política. Qualquer ingênua simplificação é igual ideológica (ibidem, p. 178).

O fechamento do marco teórico ocorre pelo meta-discurso metodológico. Não é um método operativo nem produtivo, é teórico ou especulativo, visto que o seu ponto de partida é uma opção ético-política em favor do oprimido da periferia.  Seu princípio é o discurso analógico, inclui o distinto, visto que a lógica da libertação deve ser reescrita permanentemente.

A partir do meta-discurso há uma implicação radical de conhecimento-linguagem-alteridade. Por essa decorrência discursiva e pela relação pedagógica no diálogo instaurado, procura-se dizer a verdade no sentido analógico do ser distinto que os envolve.

A filosofia, o filósofo, devolve ao outro sua própria revelação como renovada e recriada, crítica, interpelante. O pensar filosófico não aquieta a história ex-pressando-a pensativamente para que possa ser arquivada nos museus. O pensar filosófico, como pedagogia analética da libertação latinoamericana, é um grito, um clamor, é a exortação do mestre que faz reincidir sobre o discípulo a objeção que antes havia recebido; agora, como revelação reduplicadamente pro-vocativa, criadora. (DUSSEL, 1986, p.211).

A descrição da FL, segundo um dos seus maiores expoentes do pensamento latino-americano, é complexa. No entanto, é necessário expor algumas razões de sua validade. Pelo meta-discurso o método dialético possibilita acessar ao fundamento do próprio pensamento científico, visto que acessa a exterioridade do sistema na sua totalidade de maneira crítica. “Se a filosofia da libertação é o próprio pensar da práxis de libertação, na militância, como intelectual orgânico do povo, a filosofia se transforma na crítica de toda a crítica; crítica radical, metafísica, para além da própria crítica dialética” (DUSSEL, 1977, p. 183). Por isso, a validade da FL está na possibilidade do fazer-saber como instrumental de intervenção no contexto iberoamericano.

A filosofia da libertação é uma operação pedagógica desde uma práxis que se estabelece na proximidade mestre-discípulo, pensador-povo, intelectual orgânico, diria Gramsci, no povo. Embora pedagógica, é uma práxis condicionada pela política (e também erótica). A práxis teórica ou poiética intelectual esclarecedora do filósofo, encaminha, descobre e se propõe (a exposição e no risco da vida do filósofo), diante do sistema, todos os momentos negados e toda exterioridade sem justiça (ibibem, p. 182).

Assim, a FL é uma relação pedagógica analética, que acontece em nome do pobre, do “não ser”, do outro. “Pensar tudo à luz da palavra interpelante do povo, do pobre, da mulher castrada, da criança e da juventude culturalmente dominada, do ancião descartado por uma sociedade de consumo, com responsabilidade infinita diante do Infinito” (ibidem, p. 182).

Apontamentos finais

Seria prudente investigar as categorias centrais da Filosofia da Libertação. Trata-se de apresenta-las brevemente, mas merecem maior tratamento científico. Elas podem ser encontradas nas obras de Karl Marx e de Emmanuel Levinás. As principais categorias que compõem o projeto metodológico de libertação de Henrique Dussel são a proximidade, totalidade, mediação, exterioridade, alienação, libertação e síntese.

O ponto de partida da filosofia da libertação é o princípio da alteridade. Pela proximidade original do nascer surge a proximidade histórica, a qual está perpassada pela relação análoga de dis-tinção (aquilo que tem outra cor, outro tom). No face-a-face ocorre o acolhimento do outro, nasce o reconhecimento mútuo que forma a comunidade. Pelo caminho do diálogo, da criação de uma língua, de fala comum, torna-se o pressuposto do método.

Da proximidade imediata do diálogo, o subalterno instaura historicamente múltiplas relações com outros seres humanos e a natureza. Torna-se parte de um projeto de mundo mais amplo, capaz de reflexionar e dialetizar com o econômico, o político, o pedagógico e o erótico, numa perspectiva de totalidade.

No conjunto das relações sociais as mediações abrem a possibilidade de estreitar o face-a-face ou criar rupturas. Enquanto o trabalho humano estiver a serviço do capital, pouco criativo será e o subalterno e este sentirá suas forças se esvaírem. Nesse tipo de exterioridade, que nega o homem ibero-americano, o subalterno passa a ter um olhar para além do dado, do feito, da realidade, da totalidade, isto é, um olhar analético. Por isso há diversos níveis de exterioridade que exige investigar a erótica, a pedagógica, a econômica, a política e etc.

Quando um ser serve de mediação para a realização da vontade de outrem, aniquila a semelhança e a dis-tinção. O outro se torna instrumento, objeto prático para alcançar determinado fim. A alienação não se apresenta somente no campo do trabalho, em muitas outras formas, inclusive na forma de discurso. A libertação contrapõe-se à alienação, pois instaura uma nova ordem fundada no respeito à alteridade e exterioridade ético-antropológica.

O ethos, como fonte do projeto libertador, está estruturado na comiseração do acolhimento alternativo, amor de justiça, acolhimento do outro enquanto outro. Assim, acontece a síntese de todo o processo, com base no seu caráter humanizador, justo. Por isso, mantém a seguinte sequência: 1) A totalidade é questionada pela interpelação do outro; 2) a escuta da palavra como consequência ética; 3) a aceitação respeitosa da palavra por impossibilidade de interpretá-la adequadamente; 4) o lançar-se do interpelado à práxis do oprimido.  Daí a necessidade de se incorporar a severidade teórica especulativa e o agir ético-política em favor da libertação humana.

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(*) Doutorando do Programa de Pós-graduação em Educação da UFF


[1] Antonio Gramsci, no Caderno 13, § 17, p. 1570, é necessário verificar com exatidão as relações de força que atuam num determinado período e explicitar as disputas que acontecem entre elas, bem como, a diferenciação entre a grande política e a pequena política..
 
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