HOME
 
Uma filosofia na contramão
Jander de Melo Marques Araújo[1]

 "[...] ao violar as fronteiras que separam o literário do filosófico, Benjamin fez virtude inteligível da sua empírica necessidade." (ADORNO, 1992, p. 13)

            A filosofia de Walter Benjamin vai de encontro à tradição filosófica. Como diz Adorno, "Benjamin nada possuía de filósofo no sentido tradicional e de acordo com os critérios tradicionais" (ADORNO, 1992, p. 10). Há uma renúncia "ao ideal filosófico de sistema, isto é, à pretensão de totalidade e de totalização do pensamento". Ele se afasta da teoria tradicional dos grandes sistemas filosóficos, cujo pensamento é analítico, abstrato, ordenador, sistemático, dedutivo, total e pretensioso em relação à busca de uma verdade absoluta, bem como à divisão sujeito-objeto.

            Não se pode dizer que Benjamin pertence a nenhuma escola filosófica nem que tenha seguido alguma. Ele até tentou esboçar sistematicamente uma nova forma de filosofar no ensaio "Sobre o programa da filosofia vindoura" (1918), mas logo abandonou tal tentativa. O máximo que se encontra nele são influências, como é o caso de Kant no referido texto, e a presença de conceitos de filósofos como Platão, Kant, Marx, Nietzsche, por um lado, e especialmente a concepção filosófica, munida de literatura, dos românticos alemães (Friedrich Schlegel e Novalis). Em Benjamin, encontra-se muito mais o trabalho de conceitos isolados do que a submissão destes a grandes sistemas filosóficos. O autor possui uma extrema desconfiança da filosofia institucional, questionando-a, caso do prefácio à Origem do Drama Barroco alemão, que claramente propõe uma nova teoria do conhecimento, na qual o método não é uma questão de linearidade, mas de desvio, e as ideias são espacializadas como constelações, não possuindo um caráter hierárquico. Também posso citar a sua concepção de filosofia de linguagem e de história. A história e a linguagem embebidas de um teor teológico e messiânico, como se observa numa leitura atenta das teses "Sobre o conceito de história" e do ensaio "Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem do homem" – além deum prefácio do autor sobre a tradução (“A tarefa/renúncia do tradutor”) – claramente apontam um desvio da concepção tradicional de linguagem e tempo histórico, ou seja, aquelas concepções ligadas, respectivamente, a uma lógica instrumental da linguagem e a um tempo linear e vazio do progresso da história.

David Hockney
David Hockney

            A especificidade do seu pensamento faz com que a abordagem de Walter Benjamin não possa ser "direta e global", como comumente se realiza nos estudos das grandes escolas filosóficas. A filosofia de Benjamin é a própria configuração de nosso tempo, mas com mais densidade e profundidade. O seu pensamento filosófico "significa a interrupção da ânsia totalizante do pensamento sistemático, incapaz de dar conta" da pretensão de organicidade em uma realidade cuja vida sempre esteve presa, embora a nossa resistência, do "fragmentário e da temporalidade avassaladora" (DAMIÃO; SOCHA, 2009, p. 30). Aqui está, portanto, a dificuldade que muitos possuem de lê-lo, até mesmo para quem está pesquisando-o, visto que só é possível possuir uma compreensão de sua trajetória – que não considero incoerente e desvinculada de um projeto filosófico – se tivermos a oportunidade de reunir e comparar as suas diversas formas de escrita. Walter Benjamin é um pensador cuja obra necessita de um caminhar do leitor por diversos artigos, ensaios e resenhas, ou seja, um caminhar interno pelos seus múltiplos gêneros de textos, a fim de podermos chegar aos seus conceitos e às suas propostas, visto que ele renuncia a uma “articulação teórica explícita”.

            É preciso dizer que a filosofia de Benjamin é iconoclasta e, ousando um pouco, uma filosofia surrealista. O que seria uma filosofia surrealista? É o surrealismo relido em chave filosófica; no entanto, ciente do despertar da verdade – aqui entendida em termos filosóficos – e da importância do conceito.[2] Quero dizer que Benjamin está, por um lado, próximo da filosofia, pois sua questão também é a “apresentação da verdade”, mesmo que esta esteja mais voltada à literatura. No entanto, seu pensamento filosófico é claramente estetizado, ou seja, seus textos possuem "formas artísticas de teor filosófico". É interessante que Benjamin também buscava em outras obras o que ele mesmo realizava em seus textos, a saber, o "teor filosófico da escrita poética e das formas artísticas" (BENJAMIN;GAGNEBIN;SELIGMANN-SILVA, 2007, p. 86). Em um ensaio chamado "Da escrita filosófica em Walter Benjamin", Jeanne Marie Gagnebin chega a um ponto, que também defendo, revelador da escrita do autor, de seus caminhos antifilosóficos (caso não pudermos redefinir o significado da filosofia) e – deveras importante para a aproximação de um teor literário – de um método, nem sempre explicitado, a partir do qual os seus textos literários e poéticos também atuam. Diz a autora:

Contra a ideia de uma totalidade sistemática de um pensamento que se desenrola a partir de si mesmo e chega, por uma série contínua de deduções, à sua realização e completude, Benjamin insiste nos momentos de descontinuidade, de salto, de interrupção, nas lacunas e nos rasgos do real e do pensar, momentos que, na linguagem poética, a cesura configura. A metáfora da escrita filosófica como um retomar fôlego perpétuo e do método como desvio [presente no livro sobre o Drama Barroco], isto é, como um caminho cujo alvo não está dado de antemão, essa metáfora assinala uma impossibilidade produtiva: a impossibilidade de apresentar a verdade de maneira sistemática, continuada e acabada, pois [se] trata – quando ainda se ousa falar em verdade! –, [se] trata de desenhar justamente o que não se deixa totalmente apreender ou prender pelo pensamento e pela linguagem, aquilo que os fundamenta e, simultaneamente, lhos escapa. Essa apresentação hesitante, tateante, cheia de respeito e/ou de ironia se opõe ao ideal do conhecimento certo, isto é, a uma démarche intelectual que visa a assegurar a posse do seu objeto. (GAGNEBIN;SELIGMANN-SILVA, 2007, p. 90)

            Ainda destacaria o seguinte trecho, de outro autor, que complementa um método filosófico no qual há "a crença de que o confronto teórico com os fenômenos concretos de sua época torna-se imprescindível para o desvelamento do núcleo histórico da verdade". Diz a sequência do fragmento:

Aqui, o filósofo abdica da pretensão de totalizar a descrição do real por sistemas transcendentais e inoperantes. Pois sua aposta reside na identificação da estrutura implícita e singular do detalhe, nas determinações sociais que subjazem a toda manifestação cultural e aos gestos mais banais da experiência cotidiana, o que permitiria encontrar a autenticidade discursiva do mundo. Assim, o efêmero, o que é marginalizado da cultura, os próprios rituais da cultura de massa, recebem [...] o mesmo estatuto teórico concedido às questões metafísicas ou aos tratados sociológicos formais [...]. (SOCHA, 2009, p. 35)

            Daqui se entende que os temas do filósofo Walter Benjamin não se prendem somente aos conceitos principais retomados pela tradição filosófica, ou seja, a razão, a verdade, a lógica, o sujeito, o conhecimento, a metafísica, a ciência, a estética, o belo e o bem, entre outros. Seus escritos estão embebidos desses conceitos; no entanto, seu olhar se volta para objetos desprezados pela filosofia, para questões que não foram fertilizadas por ela e, não sendo parte da tradição, não possuem lugar oficialmente no pensamento filosófico – vide, por exemplo, os múltiplos temas enfeixados no livro Rua de mão única (1928). É possível que isso se dê porque Benjamin está mais preocupado com o fator concreto e a experiência que dão origem à escrita e ao pensamento. Ele quer que o mundo “fale”, e não que seja esquecida a densidade possível desse espaço mundano. Ele não quer transmiti-lo por meio de um pensamento puramente formal, como a matemática e sua lógica, e do alto de uma torre de marfim. Diria que Benjamin se movimenta conceitualmente como filósofo, isto é, nele há rigor de pensamento conceitual, mas o resultado desse movimento não é o esperado quando colocado ao lado da filosofia institucionalizada. Tenho em vista, nesse sentido, o fato de a tese de livre-docência de Benjamin (Origem do Drama Barroco alemão) ter sido negada pela Universidade de Frankfurt em 1925, embora tal trabalho tenha argumentos e referências filosóficas. Naturalmente que o que motivou a sua negação não fora o fato de conter elementos filosóficos, mas, contendo-os, o que esses mesmos elementos questionavam em termos de construção de conceitos, estilo de apresentação e referências conflitantes com a filosofia instituída na época. Estranhamente, tal tese, que foi publicada em 1928, motivou o estudo, alguns anos depois, de pelo menos dois semestres nos seminários de Adorno, que conseguira entrar como docente na mesma Universidade onde foi negado o acesso a Benjamin.

            Sabemos que Walter Benjamin inicialmente foi entendido apenas como crítico literário, e não como filósofo. Isso é bastante revelador, porque, se pensarmos dessa maneira, filósofos bastante poéticos e literários como Henri Bergson (que chegou a ganhar o Nobel de literatura em 1927), Giorgio Agamben, que sofreu muita influência de Benjamin, Jean-Paul Sartre e Albert Camus também não deveriam ser tomados como filósofos estritamente. No caso de Camus, de fato não o é, caso tivermos em mente um conceito de filosofia mais conservador; no entanto, não teriamO mito de Sísifo e O homem revoltado, por exemplo, uma proposta filosófica? E os seus próprios romances O estrangeiro, A peste e A queda não são uma extensão dessa filosofia, a experiência ficcional de suas reflexões filosóficas? Pensemos também em Sartre, que, além de ter atuado filosoficamente em O ser e o nada, também nos legou, por exemplo,A náusea e a peça de teatro Entre quatro paredes. Além do mais, não deixemos de ao menos citar o clássico exemplo dos iluministas franceses, com obras também na fronteira entre literatura e filosofia, tais como O sobrinho de Rameau, de Diderot, Emílio, de Rousseau, Os ensaios, de Montaigne, assim como Cândido, de Voltaire. Não me furto a pensar que essas relações tensionadas, em torção, também estão presentes em Walter Benjamin, porém de forma mais radical, dispersa, fragmentada.

            Em relação a Agamben, um filósofo tão contemporâneo nosso, por que ele beberia em Benjamin se neste não houvesse algo de filosófico, ou melhor, algo que apresentasse um teor filosófico em crise, em estado crítico? Creio que justamente se busca um autorporque o desejamos intelectualmente para nós mesmos. E justamente Agamben absorveu a filosofia em desvio presente em Benjamin – vide o lastro benjaminiano presente num livro como Infância e História: destruição da experiência e origem da história (1978). Mas creio que falamos de um desvio que também está em Bergson e até em Platão (quem duvidaria que a Alegoria da Caverna é uma das primeiras “peças” literário-filosóficas do Ocidente?).

            Dessa forma, algumas questões filosóficas tomaram um rumo novo em Benjamin, pois ele soube enxergar que a filosofia não avançaria muito se se fechasse em si mesma, se não se abrisse à natureza presente na poesia, na literatura, na arte. Nestas últimas, Benjamin encontra questões filosóficas não abertas. Na força da experiência, na natureza empírica das coisas, na sua concretude, ele enxerga uma concepção filosófica. Em si mesmo, encontra um poeta, porque a poesia lhe dá frescor ao próprio pensamento, além da abertura necessária para o entendimento, sempre inacabado, das coisas. Finalmente, ele parece saber claramente que a filosofia não é uma questão só desta. A filosofia está além da filosofia, pois, como sabemos, a origem filosófica guarda a orgânica necessidade humana de pensar. Não há “questões” para a filosofia. Existem filósofos. Walter Benjamin é um deles, porque, acima de tudo, tem consciência da busca do “teor de verdade”de seu objeto de estudo (teor este desenvolvido num ensaio denso sobre Goethe), bem como da importância conceitual para o pensamento. Ademais, Benjamin possui uma característica que julgo fundamental: ele escolheu os seus temas, e não os temas oficiais o escolheram. Tal natureza do pensador independente, que sua vida também acompanhou, lançando-se às ruas em busca de temas reveladores de um novo mundo, bem como o teor filosófico de seus textos e as formas de escrita nas quais mergulhou os seus objetos de estudo e reflexão, são fatores que não podem ser desprezados pela história da filosofia. Por outro lado, pensemos também que, se considerássemos Walter Benjamin como um autor estritamente filosófico, ele seria um instigante convite à filosofia. Pois o seu pensamento se move na contramão dela, no tocante ao método, e além da filosofia, por trazer à tona o que os procedimentos filosóficostradicionais não conseguem alcançar devido aos seus muros conceituais. É o que procuro defender, estando próximo do que Adorno afirma no aforismo 98 de seu Minima moralia. Finalizemos com tal fragmento, generoso com o papel crítico que Walter Benjamin teve ao abrir uma senda no bosque denso da filosofia do final do século XIX e começo do XX:

Os escritos de Benjamin são a tentativa, numa abordagem sempre renovada, de tornar filosoficamente fecundo o que ainda não foi determinado pelas grandes intenções. Seu legado consiste na tarefa de não deixar essa tentativa entregue unicamente aos enigmas intelectuais causadores de estranhamento, mas recuperar através do conceito o que não é intencional, vale dizer: consiste na obrigação de pensar ao mesmo tempo dialética e não-dialeticamente. (ADORNO, 1993, p. 133-134)

 

Referências bibliográficas

ADORNO, Theodor W. Caracterização de Walter Benjamin. In: BENJAMIN, Walter. Sobre arte, técnica, linguagem e política. Tradução de Maria Luz Moita, Maria Amélia Cruz e Manuel Alberto. Prefácio de T. W. Adorno. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 1992.

ADORNO, Theodor W. Minima moralia: reflexões a partir da vida danificada. Tradução de Luiz Eduardo Bica. 2. ed. São Paulo: Ática, 1993.

BENJAMIN, Walter; SCHOLEM, Gershom. Correspondência (1933-1940). Tradução de Neusa Soliz. São Paulo: Perspectiva, 1993. (Coleção Debates).

SELIGMANN-SILVA, Márcio (Org.). Leituras de Walter Benjamin. 2. ed. São Paulo: Fapesp/Annablume, 2007.

SOCHA, Eduardo (Org.). Escola de Frankfurt: uma introdução às obras de Theodor Adorno, Walter Benjamin, Herbert Marcuse. São Paulo: Editora Bregantini, 2009. (Dossiê CULT)



[1] Mestre em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publicou artigos sobre os escritos de Walter Benjamin, além de outros textos acerca da literatura brasileira. Pesquisa a obra do autor desde 2006.

[2] Em relação ao work in progress Passagens (1927-1940), que acabou “inconcluso”, Benjamin diz o seguinteem carta a Scholem, de 9 de agosto de 1935: "O trabalho representa tanto uma aplicação filosófica do surrealismo – inclusive sua superação –, bem como a tentativa de fixar a imagem da história nos aspectos mais insignificantes da existência, isto é, nos seus dejetos" (BENJAMIN; SCHOLEM, 1993, p. 226). Ainda em relação ao mesmo trabalho, Adorno afirmou em 1955: "A intenção de Benjamin [no projeto das Passagens]era renunciar a toda a interpretação manifesta, fazendo com que as significações se impusessem apenas através da contrastada montage do material. A filosofia tinha que acolher o surrealismo até se tornar ela própria surrealista." (ADORNO, 1992, p. 23, grifo meu)

 
© 2017 - Revista Virtual En_Fil - ENCONTROS com a FILOSOFIA
Edição de Nº 3 (2014)
Criação Web, Concepção e Desgin por Claudio Miklos