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Vida de artista e professora: busca de nobreza e acolhimento
Monica Lessa de Barros Barreto[1]

         

O Começo:

Paul Klee descrevendo a expressão plástica de uma seta escreve:

“La flecha Como ampliar mi território hasta Allá? Atravesando este rio, este lago, mas allá de aquel cerro! A partir de este pensamiento, la capacidad ideológica Del hombre de recorrer a su capricho la Tierra y lo ultraterrestre, su capacidad física esta em contradiccion com sus desesos, de alli la tragédia humana. De este problema constante entre la impotência y la potencia nace la discrepancia de la existencia humana: el hombre es, pues, médio libre, médio prisionero.” Paul Klee Bases para la estructuracion del arte, La nave de los locos México 1981

 

Ainda muito jovem, Klee foi o primeiro artista que admirei, e, me apaixonei. Ele me tornava viável ser artista, ele me desvendou a intensidade de conteúdo das imagens. Identificação imediata. A Flecha é a porta de entrada, para mim ela é como a Ponte, a ponte de minha linda casa em Petrópolis, por onde eu passava para ir e vir, nos meus passeios de férias. Flecha e Ponte, tudo a ver, esta percepção me encheu de coragem, passou a ter outra intensidade minha travessia pelo mundo. Muito lindo atravessar a ponte para entrar em casa, uma casa inesquecível, porta de vidro aberta sobre o gramado, lareira, cuca de banana, minha mãe e meu pai.  Entre mil outras brincadeiras, - admirávamos as estrelas com meu pai e subíamos o morro para pic-nics - amava  apostar com meus irmãos, a cor  de carro que mais passava pela estrada lá embaixo. Ali começou meu encantamento pelo desenho de carros, de caminhões. Imagens presentes em muitos desenhos e pinturas. A permanência fica por conta da  Flecha que me dá a direção,e da Ponte que me leva. A linha me dá caminho. Meus primeiros desenhos seguem este trajeto. minha vida passa por aí. Vale lembrar que, muitos anos mais tarde, a ponte de Hokusai veio me acompanhar com a mesma intensidade da primeira flecha/ponte. Adorei saber que artistas haviam se revelado modernos em sua admiração pelos orientais. Picasso tinha gravuras japonesas espalhados por seu atelier.


Para mim foram vários começos, três carreiras, extremos, sou artista plástica, professora de arte e com 51 anos me tornei técnica judiciária. Uma gama de experiências com três atividades concomitantes, uma agenda cheia, muitas “viagens”.


Sempre adorei fotos de ateliers e casas de artistas pintores, ali conhecemos seus amores, seus materiais, seus segredos. Quando menina fiz uma viagem ao sul com cinco dos meus oito irmãos, tinha 13 anos, ao visitar uma amiga de meus pais, gravadora, decidi, eu quero isso. Vou ter uma casa assim, gosto disso, dessas tintas, desses papéis. Este prazer, esta identificação com o mundo da arte veio de longe. Na minha casa onde vivi os meus primeiros 20 anos, na sala reprodução de pinturas de Van Gogh, meu pai se reunia em casa com seu grupo de canto gregoriano, tocava piano, tinha aula de desenho, minha mãe, gostava demais de ler, adorava Drummond, Adélia Prado, tinha com amigas um Clube do Livro. No meu quarto de adolescente, na parede dois posters bem grandes, um Modigliani e um Picasso.


Quando já artista e professora de arte, ouvi alguém contar que no enterro do Bispo do Rosário, um companheiro de internação, pediu ao final: “agora vamos bater palmas porque foi enterrado um homem poderoso.” Em todos os caminhos de minha vida, tive em mente que este poder  é o único poder que me interessa.


Klee era professor, suas aulas em seus livros, me acompanham até hoje. Fui ser professora também. Tive o privilégio de acompanhar inúmeras pessoas, de todas as idades a descobrir a riqueza do mundo das artes plásticas. São mais de 40 anos trabalhando, ajudando a cada um deles a conhecer o prazer de criar e o deslumbramento de encontrar sua linguagem, criar um abecedário composto de linhas, cores e formas. Em cada aula, procurar desvendar a riqueza plástica interior de cada um, em escolas, instituições de ensino diversas e aulas particulares. Hoje vou a filmes, exposições, feiras de arte, desfiles, encontro seus nomes nos créditos e convites. Muitos deram continuidade a esta experiência.


Num coração só, eu tenho muitas cabeças e uma alma onde se misturam a artista, a professora e a burocrata.

 Força da imagem:

Existe uma lógica na imagem conforme ela é sentida e percebida por cada um, estabelecer nas pessoas conexão com esta capacidade, restaura nelas o amor pela vida, e por si mesmo. Existem pessoas que percebem o mundo muito mais pela linguagem plástica do que pela linguagem falada. Louise Bourgeois, expressa com muita propriedade: “Eu suspeito das palavras. ...As formas são tudo....Com palavras pode-se dizer qualquer coisa. Pode-se mentir por um dia inteiro, porem não se pode mentir quando se recria a experiência.” .


Esta foi a minha tarefa, apresentar as pessoas a si mesmo, através de criação e observação de imagens. Exorcizar temores, dar seqüência a sentimentos aparentemente disparatados, que dificilmente seriam esgotados com palavras. Vencer os medos.


Como resultado foram muitos momentos de intensa riqueza e emoção. Logo me vem a lembrança do convite que fizemos, eu e minha jovem aluna para que a mãe  viesse ver sua ultima pintura, tantas vitórias estavam ali representadas. Foi um momento, ouso dizer que sagrado, revelação de um novo talento.  Ou melhor, como já definiram alguns artistas: com cores e formas, dizer o indizível.

Fiz minhas primeiras colagens, na lua de mel. Um homem e uma mulher unidos por tomadas e fios. Guardo até hoje, tenho muitos trabalhos em papel, guardo também alguns trabalhos de alunos. Cada um que vejo, relembro exatamente o momento em que foi feito, as considerações envolvidas no momento exato de sua criação. Sim, são todos obras de arte, que existem com uma função, de fazer o mundo melhor, primeiro para quem fez o trabalho, e depois para todo aquele que tiver o privilégio de admirar. Importante é saber olhar, olhar com toda a nossa humanidade, sentimentos, emoções, olhar com a “alma lavada”, livre de preconceitos, se deixar levar pelas idéias que as imagens transmitem. Peço licença para usar a expressão que Ronaldo Brito usou em reportagem no jornal O Globo de 03/09/2011 ao falar de Franz Krajberg, “a idade não amansa a militância”, nos meus 65 anos, a minha militância é: arte merece respeito, pois o homem merece respeito.

Entrei no primeiro salão de arte do Jornal do Brasil, no início dos anos 70, com três desenhos, um casal, um posto de gasolina e um carro.  Muita cor, formas alongadas, grandes desenhos. Lá estavam meus desenhos expostos no MAM, estava oficializada minha entrada no mundo da arte.

Eu me formei em comunicação pela UFRJ, fui logo trabalhar no caderno de arte, Caderno B do Jornal do Brasil e depois diagramação, no Sol, uma rápida passagem escrevendo crítica de teatro infantil, no Jornal do Brasil, final dos anos 60, experiência com a palavra. Gostava de escrever, até prêmio de redação eu ganhei, no colégio Santa Úrsula, colégio com fama de intelectualizado, moderno. E era mesmo, moderno para a época, lá eu me tornei comunista, queria a revolução. Foi um colégio que me marcou embora tenha ficado lá pouco tempo. O último ano do segundo grau cursei nos Estados Unidos, fiz intercambio. Passei um ano lá, sozinha, estudando, hospedada com uma família muito simples e acolhedora. Adorei, as prateleiras de supermercado, o equipadíssimo  teatro do colégio,  mas achava a juventude muito boboca. Eu era uma revolucionária existencialista, lia a poesia de Evtuchenko, adorava Sartre e Simone de Beauvoir, namorava um músico e fumava. Eles não sabiam nem onde era o Brasil, viviam no seu mundinho de cidade do interior, não tinham noção do que era nada além do dia a dia de escola, namoro e domingo na igreja. Eu era contra a Aliança Para o Progresso, “Little Boxes On the hillside”, chocada com aquela falta de personalidade do pessoal, mas me encantava com os instrumentos da banda na escola, a aula de arco e flecha, as fazendas de maçãs, as vitrines dos supermercados, voltei americanizada. Quando cheguei Betânia cantava Carcará, e eu apaixonada por Andy Warhol. Ele falava de um assunto que eu gostava, ele falava dos USA de um jeito que eu concordava. Rapidamente fui “ampliada”.  Me engajei na Ação Popular, estudávamos Marx, planejávamos ações. Amigos eram presos, torturados, muitos simplesmente desapareciam depois de atravessar as portas do DOPS. Zuenir era nosso paraninfo, mas estava preso no dia da formatura. “Mataram um Estudante, e se fosse um filho teu?” O jornalismo não me preenchia totalmente,embora me encante ate hoje, as notícias, a disposição das palavras, as letras, os diversos tipos, Boldoni, Ariel, usei muito pedaços de jornal em minhas pinturas. Trabalhar com as palavras não me sossegava. Adorei ter ganho o prêmio de redação no colégio, mas não guardei a redação, guardei o prêmio: uma reprodução da Pietá de Leonardo da Vinci! Eu fui me aproximando da arte como forma de dominar uma coisa estranha, que incomodava, uma coisa que faltava, uma angustia, um leão que rugia dentro de mim, e um encantamento que sentia diante de obras de arte. Sempre adorei exposições de arte, museus, nestes ambientes me sinto em casa.

            Comecei desenhando. Aulas com Annabella Geiger, serei sempre grata a ela, elegantemente respeitosa com meus primeiros desenhos. No ambiente de sua casa, mais uma casa de artista que me marcou, tudo era lindo, ali tive meus sonhos despertados, ousava: custe o que custar, doa a quem doer sou uma artista e pronto, do meu jeito. Em minha primeira aula, levei os rabiscos que fazia enquanto conversava ao telefone. Ela prendia aqueles pequenos papéis no cavalete e falava um monte de coisas lindas e importantes.  Acho que pela primeira vez na vida me senti totalmente compreendida. Um marco em minha vida.

Enquanto fazia meus desenhos, o leão se acalmava. Fiz minha primeira escultura, um tijolo de cimento do tamanho de uma caixa de sapatos, com um cadinho (cadinho: aula de geografia do colégio Notre Dame) – mini pote de louça – enfiado no centro com mercúrio dentro, uma tarja preta, feita de fita isolante contornava a peça. Gosto demais deste trabalho, um pequeno altar. Quando criança, com meus irmãos, quebrávamos termômetros para brincar com o mercúrio. Meu trabalho de arte sempre contou sobre minha vida, minhas experiências. Eu gostava de obras nas ruas, os homens arrastando a pá, fazendo cimento. Me realizei fazendo o cimento para minha pequena peça – guardo uma foto deste trabalho - me lembro perfeitamente do cheiro, do ruído da pá juntando a massa. Foi muito bom, muitos anos mais tarde trabalhei novamente com a tri-dimensão, criei,com pega-varetas, leves esculturas. Mas meu desafio maior era o desenho e a pintura, o objetivo, a cada trabalho  provar a mim mesma ser artista, fazendo arte com a minha cara, inventando. Queria inventar imagens, rabiscar, arranhar, misturar o erro com o acerto, sem perspectiva geométrica e filosófica. Ser eu assim como eu sou, particular, fazer arte, sem ser igual a  ninguém.

Aulas de arte:

Paralelamente fui trabalhar como professora de arte.  Comecei dentro de sala de aula, aprendendo na prática. Com 20 anos era professora, rapidinho, depois de meus primeiros 6 meses como professora de jardim de infância fui convidada a ter minha própria turma de arte. Pintura a dedo, rolinhos de barro, colagem. Lá mesmo fui adiante, me chamaram para  dar aula individual a um aluno autista menino de 9 anos, com dificuldades de acompanhar a turma. Muito lindo garoto, meu primeiro aluno de aula particular, embora dentro de uma escola. Fui me realizando. Ele gostava tanto da aula que em casa não conseguiam segurá-lo, queria vir logo para a escola. Chegava uma hora antes, fica brincando na calçada com os operários de uma obra vizinha até a hora de sua aula. Seu encantamento é tanto quanto tantos eram os abraços na professora. Vou percebendo cada vez mais a necessidade da arte e as paixões que desperta. Escolinha de Arte Girassol, Zélia Costa Lima e Mariângela Zaluar, arte valorizada, educação levada a sério, nos primeiríssimos anos de maternal.

Fui me aprofundar, fiz um curso intensivo de especialização da Escolinha de Arte de Brasil, o único que tinha na ocasião para formar professor de arte. Inesquecível, arte tratada com profissionalismo e coragem. Curso intensivo de um ano de duração,saí dali com registro de professora de curso livre do Ministério de Educação, o que me permitia ser contratada como Professora de Arte.  Fui convidada a dar aula lá mesmo na Escolinha, de dia crianças, à noite adultos. Augusto Rodrigues era o grande mestre. Muitos artistas passavam por lá, Criatividade era a palavra chave. Cecília Conde, professora de musica, fundamental para a formação de todos que passaram pela Escolinha, me indicou e fui me juntar a um grupo de moças, arrojadas, entusiasmadas, que fundavam a Escola Parque da Gávea. Tive o privilégio de ter sido a primeira professora de arte da escola. A idéia: Arte Integrada. Arte integrada à escola, a vida, ao dia a dia dos alunos. Ali tudo respirava arte. Meus alunos conviviam também em casa com um ambiente onde arte era muito valorizada. Muitos filhos de psicanalistas, jornalistas, compositores, artistas de teatro e artes plásticas, intelectuais, gente de peso na cultura do país. Integração e Criatividade era também o que faziam Helio Oiticica, Lygia Clark e muitos outros artistas nas ruas, nos museus. Os domingos do Corpo no MAM atraíam muita gente. Na Escola Parque trabalhávamos com muita seriedade, estudávamos muito, tudo era muito discutido, muito planejado, também éramos muito jovens então nos divertíamos muito. Os estandartes enormes feitos em minhas aulas para enfeitar as festas juninas eram marca registrada. As maquetes de argila e gesso, inventando cidades, o bumba meu boi de argila, os sacis. Muita criação, muita reflexão, muitos relatórios, muitas festas e muita reunião. Riqueza de experiências.

Chegando os anos 80 a pintura atraiu muita gente, e a mim também, participei da Geração 80 no Parque Laje, Pintei o muro, era divertido e intenso. Uma animação danada, ao mesmo tempo, seguia o trabalho como professora.

Aos poucos começaram a me procurar pessoas diversas para que eu as ajudasse a encontrar uma forma de expressão na pintura, algumas vezes também no desenho, mas principalmente na pintura. Tudo aconteceu naturalmente, as pessoas iam me telefonando e tudo começava. Alguns ficaram mais de 10 anos comigo. Até bem pouco tempo, ainda dava aulas particulares. Simultaneamente continuei sempre pintando e desenhando, isso nunca parei. Impossível parar, é uma necessidade.

A paixão, os alunos:

Pouco depois, já nos anos 90, fui convidada para implantar o projeto de arte da Casa do Pequeno Jornaleiro, jovens de 12 a 18 anos. Outra oportunidade incrível, total apoio da direção, materiais de primeira, sala arejada, ambiente totalmente favorável. Os alunos, adoravam, tinha sempre um na janela da sala, pedindo para entrar na sala além de seu horário. Encantados com o que faziam, queriam mais aula.  Para alguns era demais esperar uma semana para continuar com seu trabalho. Jamais esquecerei de uma sereia de uns 30cm sentada na pedra feita em argila, com tantos cuidados que durou quase um ano sendo criada, por um rapaz bem jovem e entusiasmado. Impressionava o cuidado com que ele usava a espátula. Momentos mágicos, arte calmante e curativa. O trabalho começou com uma pesquisa de imagens pelo bairro da Saúde onde ficava a Casa, e onde morava a maioria dos alunos. Cada um com sua prancheta pela rua íamos desenhar as muitas coisas lindas que encontrávamos no entorno deste bairro tão rico em história. Do Moinho, antiga fábrica de farinha da região, nos encantava os dragões esculpidos nos muros e travessas.  Muitas vezes, em sala de aula usávamos estes desenhos para fazermos pinturas e esculturas de argila.

Nas escolas, ou nas aulas em minha casa tive alunos que levavam mais de um ano numa mesma pintura. Eu mesma tenho duas pinturas que levaram 10 anos, de vez em quando ainda tenho vontade de mudar uma coisinha. Tudo pela busca de uma forma de autenticidade, tudo para, ao ajeitar cores, linhas e formas na tela, ajeitar nossas inquietudes mais profundas, inexplicáveis. Obra em constante andamento, obra cuja matéria bruta e você mesmo. Complicado pois para você convencer aos outros, precisa primeiro  estar convencido você mesmo, isto leva tempo, muito tempo.

Volpi com seus 90 anos, acordava as 6 da manha para trabalhar em sua pintura como um lavrador. Muitos artistas trabalharam e trabalham de forma incansável.

As aulas particulares eram em minha casa, algumas poucas vezes na casa do aluno. Meu apto de 80m comportou enormes trabalhos no chão da sala, telas penduras nas paredes, 3 cavaletes montados de uma só vez. Era preciso afastar os móveis da sala para a aluna – empresária - colocar sua enorme tela onde pintava e colava, pregos, arame farpado. Trabalhava numa intensidade, num arrebatamento, emocionante.

Difícil imaginar como um lugar pequeno, onde morava uma mãe criando uma filha com amigos em casa, abrigou tanta gente, tanta criação.  A maioria me procurava querendo pintar, pensando algumas em se profissionalizar – anos 80 - ou querendo simplesmente uma linguagem para se expressar. São inúmeros casos, todos comprovam a necessidade da arte para quem percebe o mundo de uma maneira plástica. Infindáveis descobertas de uma nova possibilidade de entender o mundo e suas vivencias individuais. Uma de minhas alunas, bem jovem, tamanha a força de suas descobertas, passou a ter aula aos sábados, o pai surpreso comentava  nunca ter visto uma jovem,  gostar tanto de aula assim.  Vale lembrar que nestes sábados, o pai vinha buscar e ficava muito tempo no carro esperando a filha que precisava ainda terminar algum detalhe na pintura. Mais uma apaixonada pela criação de imagens.

Outra ainda menina, tímida, calada, tinha 13 anos, adorava pintar se inspirando em Matisse e Cézanne, cores, formas, mulheres, paisagens, enfeites a seu modo, sempre lembrando os dois artistas. Muita cor. Meus livros sempre abertos a sua frente. Trabalhava muito concentrada, numa dedicação espantosa para alguém ainda tão jovem.

Algumas pessoas quando descobrem a possibilidade de entender o mundo através de cores e formas, ficam absolutamente tomadas. Tive o privilégio de testemunhar muita gente se surpreendendo  consigo mesmo através da arte. Durante as férias, certo verão encontrei um aluno de 8 anos em Búzios. A alegria do menino ao me ver foi impressionante, a mãe então nos convida, para uma visita. O menino fica tão feliz, chega a ficar atarantado, rodopia, leva a professora para conhecer cada canto de sua casa, mostra tudo, oferece coisas, parece eufórico.

Arte toca as pessoas profundamente, nos seus sentimentos, modificando sua relação com o mundo, proporcionando sua integração com a vida, ajuda a dominar o caos, a dominar a ansiedade. Eu vejo em meus alunos e comigo também é assim. A arte promove uma nova visão da vida, uma nova habilidade para se entender e entender o mundo. As pessoas se descobrem sobre novo prisma. Quando eu faço a minha arte eu me organizo internamente. É assim que funciona. Através de meus trabalhos foi crescendo minha capacidade de entender minhas emoções, minha capacidade de conviver com o mundo e as pessoas. É no meu trabalho de arte que supero obstáculos, levo adiante um melhor entendimento de tudo  que a vida traz.

Não foi a toa que minha querida filha, aos 20 anos, recém chegada se sentindo sozinha e angustiada em Nova York, foi ao MoMA, ali cercada de arte, se recuperou, se sentiu em casa. O convívio com a arte faz muita gente se sentir em casa onde quer que esteja, arte, mesmo a mais radical e questionadora nos acolhe pois toca no que temos de mais humano, sentimento e emoção. Arte provoca sonhos. A linguagem plástica toca quem tiver a oportunidade e quiser se entregar.

Andei muito com grupos de alunos pelas ruas dos bairros não só da Saúde como também da Gávea, nunca tive nenhum problema, enquanto pesquisam instantes, paisagens, fachadas, detalhes arquitetônicos, para registrarem através do desenho, ficam absortos. No movimento das ruas, fora das salas de aulas, com suas pranchetas e lápis, parecem jovens de faculdade, tamanho interesse e concentração. Nunca, jamais nenhum incidente perturbou a paz destes passeios.

 Uma aluna, os pais não sabiam mais o que fazer, a única coisa de que gostava era ficar horas e horas desenhando, colando figuras brilhantes, cheias de cor e purpurina em sua agenda. Veio então para aula particular de arte comigo, tinha 13 anos. Vai crescendo,  sua agenda de menina vai se transformando em grandes desenhos, e pinturas.  No papel grande, flores, corações, nomes coloridos, enfeites, decorações em cada anotação, profusão de rosas, tomam outra proporção, dali crescendo até a pintura em tela, flores e beijos.

Outra jovem com faculdade interrompida, desinteressada trancou a matricula. Os pais conhecidos amantes das artes acataram a idéia da amiga/professora, quem sabe arte pode ajudá-la a se encontrar? As primeiras aulas de arte foram em sua casa, pequenos papéis, temas tirados de suas aulas na antiga faculdade, aos poucos ganhando confiança, a aula passa a ser na casa da professora. Mais materiais, consulta a livros de arte. Vão surgindo lindos desenhos, pinturas, dava gosto de ver seu entusiasmo pela novidade: sua criação. Com o tempo descobre seu interesse por outra faculdade, volta a estudar, se forma, simultaneamente encontra no artesanato – mosaico - uma forma de ter um dinheiro seu, realização


Sempre foi difícil terminar a aula seja nas escolas ou nas aulas individuais em minha casa, era comum o aluno continuar trabalhando depois do horário. Muitos ficavam pintando  enquanto eu cuidava de outros afazeres. Algumas vezes fui a casa do aluno  ajudar a arrumar um lugar onde pudesse trabalhar. Nunca me esqueço de uma jovem senhora casada, nós duas juntas enrolando o tapete do escritório de seu grande apto para ali fazer o seu atelier.
“O artista viaja todo dia com o seu trabalho; o que é entrar numa tela branca senão a idéia de uma viagem dentro de si e dentro da linguagem de arte?” Mimmo Paladino, artista da transvanguarda italiana. Precisamos de espaço para nossas viagens.
Muitas vezes adaptamos o trabalho a nossas conveniências. Nos últimos 10 anos juntei duas necessidades, primeiro a necessidade de entender onde está o meu espaço nesta cidade que cresceu tanto, onde estão meus conhecidos com quem esbarrava onde quer que eu fosse, e como fazer um trabalho aproveitando materiais já existentes, ecologicamente correto, que não tivesse aquela lavação de pincel, tempo de secagem, enfim de fácil manipulação, e que eu suportasse depois de um dia com as minhas muitas horas de trabalho. Jamais teria resistido a meu atual trabalho de burocrata sem exercícios físicos, nadando e me refrescando na piscina, e fazendo a minha arte. Hoje faço o que chamo de interferências com materiais diversos, desenho, pintura e colagem, numa lista telefônica, daquelas grandonas, de papel bíblia. Uma lista telefônica do meu tempo, onde vou passando as folhas e reconhecendo tanta gente.  É muito bom, estou adorando, conheço aquelas ruas, aquelas pessoas, flechas e pontes vão me levando pelos caminhos e, fico feliz no fim do dia e comemoro.

Eu gosto assim, eu vou exorcizando meus fantasmas assim. Compartilho da idéia, tão lindamente expressa por Rodrigo Naves, da “timidez formal” de nossa arte, claro que ele cita grandes nomes Guignard, Hélio Oiticica, Mira Schendel, Tarsila entre outros. Quando li pela primeira vez, fiquei tão identificada, tudo ficou tão claro, que sinto até como se tivesse timidez formal no meu sangue! E cada vez sinto mais, e agradeço muito a ele por ter tocado nesta questão de forma que até eu, uma  quase ilustre desconhecida do mundo da arte, fui capaz de me incluir no rol de tanta gente importante que faz arte.

Nestes anos todos, também como professora de arte, eu vi que o que mais entusiasma os alunos é a perspectiva de uma nova linguagem, uma nova expressão que lhes permita exprimir emoções, sentimentos para os quais não encontra palavras. Comigo se passa o mesmo, a arte é necessária. Tão necessária que nunca abandonei.

“A palavra pode ser algo terrível, de confusão, de mentiras, e eu estava sempre às voltas com isso, pensando que a linguagem plástica, talvez pudesse ser mais autêntica do que a palavra. Isto foi o que me levou a uma maior dedicação à plástica, mas sempre tive muita simpatia por escritores, sobretudo poetas.” Antoni Tàpies, artista catalão contemporâneo de Picasso, Matisse, daquela turma boa.

A equação é mais ou menos esta: junte-se a timidez formal (Rodrigo Naves) que temos em nós à capacidade de destruir/reconstruir (Louise Bourgeois) e teremos um novo alfabeto, uma caligrafia para emoções intocadas. Desta forma inaugura-se em nós uma nova felicidade.



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Edição de Nº 3 (2014)
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