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Eduardo Mondlane, Pan-africanismo e Educação
Orlando Daniel Chemane[1]


Resumo
Este trabalho pretende examinar a ideia segundo a qual Eduardo Mondlane se inscreveu por formação e por convicção ao movimento politico e educacional pan-africanista. Entende-se pan-africanismo como todo o movimento e ideologia em defesa dos direitos dos africanos, do continente e da diáspora.
A biografia de Eduardo Mondlane tem a característica singular de ter sido forjada dentro da cultura africana e o seu compromisso desde a juventude foi com a causa africana como um todo tendo fundado a Frelimo e concebido os respetivos serviços educacionais como contribuição para a libertação da Africa. Para lograrmos examinar a nossa ideia recorremos a uma revisão de seus poucos escritos, as entrevistas com ele e sobre ele, as cartas trocadas com a Janet Mondlane e André Daniel Clerc.
Palavras chaves: Eduardo Mondlane, pan-africanismo, educação
Abstract
This work intend to analyze the idea that Eduardo Mondlane was pan-Africans by formation and political and educational ideas. We understand pan-africanism as movement and ideology that are fighting for African rights for the people in the continent and outside of the continent.
The Eduardo Mondlane biography is singular, he had his education inside of institutions that were imbibed or were one way or another linked to the African culture. He founded Frelimo and its educations services as his contribution for Africa emancipation as a all. To examine our idea we visited his saw very few writings , interview with and about him, letters changed with Janet Mondlane and Andre Daniel Clerc.
Key words: Eduardo Mondlane, Pan-africanismo, education  

Introdução
O filosofo Severino Ngoenha considerou Eduardo Mondlane, por formação e convicção, um pan-africanista (Ngoenha, 2004). Com efeito, Mondlane só foi, pela primeira vez, a uma escola moderna aos 12 anos e foi educado, desde o ensino primário (em Moçambique) ao secundário (Africa do Sul), pela Missão Suíça, igreja cristã que se caracterizou por uma educação enraizada na cultura africana. Quando estudou na Africa do Sul e, quando esteve a fazer os estudos superiores, nos Estados Unidos da América, as ideias pan-africanistas estavam em efervescência e criou a Frelimo e seus serviços educacionais como uma contribuição na emancipação de Africa como um todo.
Neste trabalho pretendemos potenciar a voz do Eduardo Mondlane como pan-africanista numa vertente mais ligada a educação tendo como base fundamental que Eduardo Mondlane foi, por formação e convicção, um pan-africanista. Achamos melhor trazer este político, intelectual e académico africano, tanto por ser um pan-africanista pouco conhecido como por ser um pan-africanista que já mereceu nosso estudo.
Para a composição do nosso artigo recorremos a varias fontes bibliográficas, artigos, documentos que o político, académico e intelectual Eduardo Mondlane escreveu e ao conjunto de escritos e entrevistas feitas sobre ele e com ele e as cartas trocadas com a Janet Mondlane e Andre Daniel Clerc.
Começaremos por dizer o que entendemos por pan-africanismo para, em seguida, trazermos a sua biografia, as suas ideias políticas pan-africanas[2] e, por fim, o seu pensamento educacional. No espaço em que apresentamos as suas conceções sociais e antropológicas pan-africanas pomo-lo em diálogo com alguns pan-africanistas mais conhecidos.

De que Pan-africanismo estamos a Falar
Ao falarmos de pan-africanismo temos em conta a abordagem feita na comemoração dos 50 anos da União Africana, no ano passado, designadamente de olhar para o pan-africanismo como um movimento e uma ideologia a favor da união e da luta pela causa africana acreditando que o povo africano, dentro e fora do continente, não tem necessariamente a mesma historia mas  um destino comum (Department of Social Affairs, 2013).
O movimento pan-africanista inicia como uma “simples manifestação de solidariedade fraterna entre os negros de ascendência africana” (DECRAENE, 1962, P.13) dos Estados Unidos da América e nas Antilhas britânicas. Ele terá como um dos seus primeiros lideres o Sylvester Williams, um advogado de Trindade que, “inscrito no fôro inglês em finais do XIX” (DECRAENE, 1962) e especializado nas questões agrarias que teria ajudado os africanos, a partir de Londres, a defenderem as terras que lhes eram expropriadas pelos colonialistas ingleses e bóeres.
O que ficou conhecido também por “pan-africanismo messiânico” esteve ligado ao Marcus Garvey, um descendente de escravos, dos  Estados Unidos e que defendia o regresso dos negros a Africa. O movimento garviano chegou a atingir racismo de matiz nazista e a violência. Ele acabou arrecadando uma fortuna, em dinheiro, recolhido de varias formas, pretensamente para a empresa de regresso a Africa. No fim foi detido por estelionato. Garvey, apesar dos grandes excessos, teve o mérito de “obrigar os negros a tomarem consciência da própria origem, criando neles, pela primeira vez, um sentimento de solidariedade” (DECRAENE, 1962).
W. E. Burghardt Du Bois é, geralmente considerado o pai do pan-africanismo, que irá no sentido contrário ao do Marcus Garvey lutando pelos direitos fundamentais dos africanos independentemente da cor da pele. Esta visão do pan-africanismo é o que permanece ate hoje. Du Bois será o responsável pela organização dos primeiros congressos pan-africanos (Decraene, 1962): o Congresso de Paris (1919), o Congresso de Lisboa (1921), o Congresso de Londres (1923), o Congresso de Nova Iorque (1927), o Congresso de Manchester (1945). O ultimo foi o que o processo das independências africanas. Nele participaram para além do próprio Du Bois, o Kwame Nkrumah, George Padmore, Peter Abrahams, Jomo Kenyata, só para citar alguns nomes. O Congresso de Manchester vai ditar igualmente a criação da Organização da Unidade Africana (OUA), em 1963, que se transformou, posteriormente, em União Africana (UA). É no movimento do Congresso de Manchester que se enquadra a ação política de Eduardo Mondlane.
À medida que se iam libertando os países africanos, nos limites das fronteiras coloniais, foi se esboçando um plano de criação de Estados Unidos de Africa, que tinha em vista unificar politicamente todo o território africano, uma ideia que será perseguida particularmente por Nkwame Nkrumah expressa no seu livro Africa Must Unit. Posteriormente a ideia de unidade africana será defendida com muita veemência por Mohamar Khadafi. 
O pan-africanismo tomou também uma feição cultural com Leopoldo Senghor, Aimé Césaire com a ideia de negritude. Em 1947 foi iniciada a publicação da revista literária Presença Africana dirigida pelo jovem senegalês Alioune Diop que a ele se juntaram escritores como Jean-Paul Sartre, Albert Camus. Nesta revista foram publicados trabalhos de filosofia bantu de Placido Tempels, a história do Egipto e da Etiópia de Cheikh Anta Diop. Os africanos de língua oficial portuguesa, que frequentavam a Casa dos Estudantes do Imperio em Lisboa (CEI), nos anos 50 e 60, como Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto e Eduardo Mondlane, teriam tido contato também com o pan-africanismo a partir dos intelectuais da Presença Africana.
Como filosofia, o pan-africanismo significa o resgate da herança histórica, cultural, espiritual, artística, cientifica e filosófica dos africanos do passado até ao presente. Pan-africanismo como um sistema ético tem as suas origens desde os tempos ancestrais e promove valores que são o produto da civilização africana e a luta contra a escravidão, o racismo, o colonialismo e o neocolonialismo.
O pan-africanismo é visto também como um esforço de regresso a conceção “tradicional” africana sobre cultura, sociedade e valores.
O ano de 1881 marca o inicio do pan-africanismo na educação (KING, 1971), com dois discursos inaugurais de dois colégios diferentes e distantes geograficamente entre eles, um nos Estados Unidos da Américas e outro na Libéria, proferidos por dois descendentes de antigos escravos: Boooker Washington e Edward Blyden. Enquanto Blyden falava, na Liberia College, num longo discurso sobre os objetivos e métodos da educação para uma educação liberal africana, Booker Washington, diria, em Virgínia, Alabama, que a educação industrial de Hampton iria configurar o modelo curricular da sua escola. Os dois discursos eram menos diferentes em relação ao que tinham em comum, pois ambos preconizavam a rejeição das formas convencionais da educação ocidental aplicada aos povos africanos (KING, 1971).
Num outro desenvolvimento o debate será entre Du Bois e Booker Washington em que o primeiro ira considerar que a educação técnica não é a melhor opção para a emancipação dos africanos e sim a educação geral.
Posteriormente o debate educacional africano irá girar em torno da africanização ou modernização da educação (CASTIANO e NGOENHA, 2013). Mondlane parece que vai optar pela modernização da educação baseado em valores africanos. Como poderemos ver a seguir ele foi formado no seio da sua comunidade ate aos 12 anos e posteriormente em instituições modernas com alguma consideração pela cultura e línguas africanas e, em universidades americanas com histórias ligadas a emancipação africanas.

Mondlane e a Formação pan-africana
Nesta parte do nosso trabalho iremos buscar as de influencia (educação) de Eduardo Mondlane em relação à consciência pan-africana.
Eduardo Mondlane nasceu na aldeia de Nwadjahane, situada a cerca de 300 km da atual cidade de Maputo, em 1920, na época de colher amendoim[3]. Ele foi criado pela mãe e pela avó materna pois o seu pai tinha morrido logo que ele nasceu. O pai, Nwadjahane Mussengane Mondlane, tinha sido o regente do clã khambane e, sua mãe, Macungo Muzamusse Mbembele, provinha de uma família nobre. Mas Eduardo Mondlane, apesar de ter nascido de famílias nobres, cresceu pobre.
Até aos 12 anos ele foi educado dentro da sua família e comunidade. Durante esta fase, conforme sua autobiografia, ele cresceu, numa primeira fase, sob cuidados diretos da mãe e da avo e mais tarde  foi a pastorícia. No meio familiar, aprendeu, com a mãe, a história e geografia da sua região e da família, os relevos, os nomes dos lagos; aprendeu a genealogia familiar, o sistema de sucessão que tinha dado origem ao poder daquela época, a bravura dos heróis locais como a resistência a evasão nguni[4]; a história das vitorias, dos desterros, do esclavagismo e das derrotas sofridos.
No meio do grupo dos pares, aprendeu a “ciência do mato”, a generosidade, a amizade, a solidariedade e a responsabilidade com os colegas e amigos do pastoreio (KAMBANE E CLERC, 1990). Segundo ele, em Chitlango Filho do Chefe, adquiriu conhecimento sobre a vegetação, a fauna; aprendeu a contar, a controlar os animais. Conheceu as manhãs, os dias e as noites do inverno e do verão (KHAMBANE, 1990).
Segundo ele próprio conta (KHAMBANE e CLERC, 1990), quando começou a estudar, andou em muitas escolas oficiais antes de ir, por fim, estudar em Mausse, uma escola da igreja presbiteriana. Eduardo Mondlane, talvez por ter entrado muito tarde para a escola formal, ele não se insere nela sem critica-la. Ele conta (Idem) os problemas que enfrentou nas escolas por onde passou: a violência, o trabalho doméstico para os professores, os métodos reprodutivos. Em 1936 foi para Lourenço Marques, atual Maputo, para continuar a estudar: na sua terra tinha concluído o ensino rudimentar e devia ir completar o ensino primário[5]. Em Lourenço Marques foi-lhe entregue ao André-Daniel Clerc para quem trabalhou como empregado domestico e que mais tarde se tornará tutor e amigo. André Clerc ficou conhecido em Moçambique por sua amizade com Eduardo Mondlane mas ele ficará recordado pela historia por ter sido o missionário que conduziu a reforma pedagógica da Missão Suíça em Moçambique, sobretudo, no ensino através das línguas locais (NGOENHA, 2000). Mais do que ensinar em línguas dos neófitos a MS procurou a valorização da cultura africana na sua maneira de estar em Africa tendo traduzido, pela primeira vez, na pessoa de  Berthoud, a bíblia (Idem) para o changana; introduziu a imprensa em língua local (CRUZ E SILVA, 1999) e, sobretudo a MS esta a ser imortalizada pela organização de movimentos juvenis no que ficou chamado de “Mintlawa”[6] inspirados nas patrulhas dos jovens suíços (NGOENHA, 2000). Os “Mintlawas” pretendiam o desenvolvimento físico, intelectual, moral e politico dos jovens (CRUZ e SILVA, 1999; NGOENHA, 2000). Eduardo Mondlane cresceu na Missão Suíça e na perspetiva dos “Mintlawas”. Segundo ele, la foi educado numa verdadeira igreja africana (KHAMBANE, 1990).
Depois de concluir o ensino primário, foi a Cambine, Inhambane, 500 km de Maputo, frequentar o curso de agricultura em terras de pouca chuva. Este curso estava na responsabilidade da igreja metodista. Enquanto estudava em Cambine, Eduardo Mondlane ficou ligado a igreja, onde organizou “Mintlawas”. Depois de concluir o curso, em 1942, volta para Lourenço Marcos onde a igreja lhe incumbiu a missão de ir ensinar em Dingane (uma aldeia próxima a terra onde nascera) o que tinha aprendido em Cambine.
Em 1945, consegue uma bolsa da igreja para ir estudar na Africa do Sul, no Instituto Douglas Lain Smit Secundary School. Concluiu o ensino secundário, em 1948. Depois de concluir o ensino secundário quis prosseguir com os estudos e tudo indica que o Andre Daniel Clerc[7] teria o orientado a ir estudar numa escola de assistentes sociais de Johannesburg, a John Hofmeyer. Mas depois, Eduardo Mondlane descobriu que a assistência social não era o que pretendia e, por isso, foi se matricular, no mesmo ano, na Universidade de Witwatersrand, Africa do Sul, no curso de sociologia. Ainda em 1948 foi para Moçambique de férias, tendo na altura criado o NESAM (Núcleo dos Estudantes Secundários Africanos de Moçambique), cujo objetivo era “construir o espirito de unidade e camaradagem entre estudantes africanos, expresso no desejo ardente de ter cultura espiritual, intelectual e física para servir sem egoísmo a comunidade africana”. De regresso para Africa do Sul, em 1949, é lhe negada renovação do seu visto. No ano anterior de 1948, o partido nacionalista de Malan tinha ascendido ao poder: como diria Herbert Shore, “ Mondlane foi uma das primeiras baixas na campana do apartheid contra as universidades. Ele compreendeu isso e nunca o esqueceu (…) Ele tinha acabado de ver não só o racismo em ação direta, mas também a forca e o poder incipiente da resposta dos estudantes e de organizações como o NUSAS” (SHORE, 199, p. 31)
Em 1950 consegue uma bolsa para ir estudar nos Estados Unidos da América (EUA) mas antes de chegar aos EUA passa por Portugal e frequenta a Casa dos estudantes do Imperio (CEI) onde conviveu com outros nacionalistas das colonias portuguesas da época, como o Mário Pinto de Andrade, Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos. Os grupos baseados em Lisboa já tinham contato com grupos de africanos ligados a Présence Africaine. O Mario Pinto de Andrade dedicava-se a escrever ensaios de Sociologia, o Agostinho Neto era poeta e o Eduardo Mondlane, como ele diria, dedicava-se a “palavra falada”. Em 1951 Eduardo Mondlane chega aos EUA. Matriculou-se na universidade Oberlin. A cidade de oberlin era conhecida por ser o viveiro do abolicionismo tendo sido a paragem do Underground Railroud e, por sua vez, a universidade de Oberlin foi a primeira a admitir regularmente pessoas do sexo feminino e pessoas negras. Nela estudaram outros africanos proeminentes como John Dube do ANC[8]. Mondlane Concluiu o bacharelato em 1953.
Em 1954 foi fazer o mestrado em Antropologia na Universidade de Northwestern. Esta universidade era famosa pelos seus africanistas como o kimball Young e o Melville Jean Herkovits. Sabe-se que Melville Jean Herkovits, que foi o tutor de Mondlane, criou e foi diretor do primeiro centro de estudos africanos dos EUA e foi o primeiro presidente da Associação de Estudos Africanos (SANSONE, 2013).
Depois de concluir o mestrado consegue um vaga nas Nações Unidas no departamento de curadoria como investigador. Enquanto trabalhava matricula-se e conclui o doutoramento sob direção ainda com Herkovits.
Em 1961 deixa as Nações Unidas e vai trabalhar na Universidade de Siracusa como docente pois o seu desejo de organizar um movimento independentista seria incompatível com o seu lugar de funcionário nas Nações Unidas. Em 1962 dedica-se a tempo inteiro a criação e a direção da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique). A FRELIMO é um movimento que congregava três outros movimentos a UDENAMO, MANU e UNAMI. Os três movimentos eram de três regiões diferentes do país e tinham sido fundados em diferentes países de África por isso a sua fusão e manutenção ao longo dos tempos foi um dos méritos de Mondlane e de outros nacionalistas que foram coerentes e radicais com a ideia de união.

Ideias Politicas e Pan- Africanos
Eduardo Mondlane muito cedo se apercebeu que os problemas que o seu povo enfrentava se explicavam pela maldade humana e não propriamente pela cor da pele, contrariamente ao que aconteceu com alguns dos primeiros pan-africanos que chegaram a ostentar um racismo de caris ocidental. Recorde-se, por exemplo, de Edward  Blyden, o considerado pai do pensamento politico africano, que se recusou a participar da primeira conferencia pan-africana de 1900 convocada por Slvester Wiliamo e publicitado por Kwame Nkrumah porque, segundo ele, na conferência, participariam mulatos como o Du Bois enquanto, no seu entender, só deviam fazer parte do evento, negros puros (NGOENHA, 1993). Sabemos que Kwame Nkrumah, o grande teórico da unidade africana, começou por ser um militante pan negro. O seu encontro com o Leopoldo Senghor, em 1947, deu-se numa altura em que militava pela causa das pessoas de cor. Para não falarmos de casos mais extremos como o de Marcus Garvey.  Mondlane soube também de que o povo tsonga tinha sido vitima das evasões ngunis, que condenaram, por sua vez, de negros para negros, os tsongas, a escravidão, ao desterro, ao trabalho forcado! Testemunhou a violência perpetrada por brancos europeus, o autoritarismo com que eles implantavam a sua administração, a educação. Na Missão Suíça, pôde conviver com brancos que pareciam diferentes, mais humanos, mais amigos dos negros. Estas experiencias levaram-no a acreditar que não era propriamente a cor da pele que determinava o carater das pessoas. 
Em entrevista a uma jornalista da Africa Report, em 1967, em pleno contexto da luta libertação nacional, disse que pretendia a criação de um estado democrático, moderno e unitário. Segundo ele, estas ideias seriam aprofundadas e implementadas em Moçambique de acordo com as necessidades e a realidade do povo moçambicano. Infelizmente, Eduardo Mondlane, muito cedo foi colhido pela morte, o que não lhe deixou aprofundar mais seus conceitos e sistemas de pensamento. Mas uma coisa parecia certa seria incapaz de adotar algo de autoritário.
Em relação a democracia ele pensava num sistema que permitisse uma participação ampla do povo na condução dos destinos do país. O Congresso seria o órgão máximo do poder do Estado. A estrutura de base seria a célula e seria aqui onde seriam eleitos os representantes ao Conselho Distrital e deste conselho sairiam os representantes do Conselho Provincial e os membros do Congresso seriam eleitos exatamente do Conselho provincial (MONDLANE, 1995). A estrutura local poderia variar de região a região segundo as condições locais, podendo ser representada por uma célula, cooperativa ou estrutura tradicional. Eduardo Mondlane criticava a estrutura política tradicional por, em alguns locais, ter sofrido deturpações do governo colonial tendo assumido características feudais e explorando o povo e também porque pecava, segundo ele, pelo sistema de legitimação que era através de heranças (Idem). Mas seria difícil saber até que ponto esta estrutura seria tolerada depois da independência mas Mondlane era muito dialogante e ele poderia ainda a preservar em algumas zonas onde ela fosse saudável. E no caso do que acontecia na luta de libertação nacional, dizia que onde a estrutura tradicional ficasse indiferente ao colonialismo e apoiasse a Frelimo, ela sofreria uma transformação natural e, pode se perguntar: para onde?
Sem duvidas que Eduardo Mondlane almejava uma sociedade socialista como outros pan-africanistas: por exemplo, Nkwame Krumah e Julius Nyerere. Diria ele em entrevista ao Aquino de Bragança em Argélia:
“É impossível criar-se um Moçambique capitalista, seria ridículo o povo lutar para destruir a estrutura do inimigo e reconstrui-la a favor do inimigo. Seria ridículo já o dissemos várias vezes. Nós vamos criar um sistema económico socialista e há agora uma riqueza de experiências de vários países socialistas e nós vamos estudá-los e aprofunda-los”[9].
Tudo indica que seria um socialismo resultante da crítica aos existentes (China, Rússia, Cuba), e adaptado às condições locais. E disse ainda a Bragança que, quem viesse da Frelimo enquanto fosse católico seria um “católico marxista”. Recorde-se do Kwame Nkrumah que dizia que não havia contradição entre ser marxista e ser religioso. Para Nkrumah ser ateu não era condição sine qua non para se ser marxista (NGOENHA, 1993).
Eduardo Mondlane defendia uma economia planificada. Os salários e os preços seriam definidos centralmente. Não deviam haver pessoas ricas e outras pobres porque, em relação aos responsáveis “se gozarem de uma posição privilegiada, deixarão de sentir os problemas cujas soluções são responsáveis” (MONDLNE, 1995, p. 169). Não deveriam haver diferenças “entre os educados em relação aos não educados, os operários das fábricas em oposição aos camponeses” (Idem, p. 167). A riqueza seria distribuída equitativamente por todos. O primeiro sector a explorar após a independência seria o sector agrário e este, na sua opinião, devia ser melhorado. Para Mondlane a agricultura que era praticada nessa altura, pelos camponeses, era bastante rudimentar. Daí as suas palavras de que devíamos acabar com a superstição no manejo da enxada e da catana. Ele tinha o curso técnico de agricultura de cultura de sequeiros e trabalhara em Dingane, entre 1942 e 1944, como uma espécie de extensionista rural.   A Janet Mondlane em entrevista a Marcelo Mosse, Ungulane Ba Ka Kossa e Carlos Cardoso, teria afirmado que Mondlane se tivesse sido ele a proclamar a independência teria priorizado a formação de extensionistas rurais. Ao lado da agricultura como prioritária, ele via como urgente a criação duma grande rede de indústria de processamento e que a indústria pesada e mineira, que poderia também muito rapidamente lançar Moçambique no caminho do desenvolvimento, deveria ir sendo concebida, encontrar-se a estratégia da sua implementação e formarem-se quadros para a sua administração e exploração eficaz e eficiente.
Em relação a modernidade, ele não tinha complexos de assumi-la como uma conquista da humanidade em que fazia parte, também, o povo africano. Para ele, a modernidade não passava de um progresso necessário, para toda a humanidade, nas ciências, tecnologia, nas humanidades e na cultura. Ele se considerava uma pessoa que tinha adquirido uma compreensão suficiente da modernidade como contributo para o avanço da sua comunidade mas que não tinha deixado de ser africano. Por isso escrevia ele assim a Janete Mondlane:
“Adquiri uma compreensão da cultura ocidental para poder ser considerado ocidental. E, no entanto, continuo a ser africano. Não quero dizer que vou viver uma vida africana como viveram os meus pais, isso seria impossível. Mas o que sou agora é uma nova contribuição que é desejável para o tempo em que vivo, como por exemplo, usar fato, a escrita, a liberdade de pensamento, o sentido da democracia e um ajuizamento baseado na racionalidade, a monogamia, novo lugar e a nova consideração da mulher”( Carta de Eduado Mondlane a Janet Mondlane, datada de 13/02/1953,citada por MANGHEZI, 1999, p.77)
Como acontecia com o Wole Soyinka, Eduardo Mondlane “nunca se destacou da realidade africana, as suas raízes nunca foram arrancadas e, portanto, não tem necessidade de viagens místicas no país dos antepassados. Os antepassados ele trá-los consigo, nele mesmo, como cada homem traz consigo o próprio passado e o de outros” (NGOENHA, 1993 p. 41). Soyinca, o premio Nobel da literatura, romancista, poeta e dramaturgo nigeriano, estará como o Mondlane a favor da compreensão da vida atual do africano para se fazer mudanças em Africa. Ele também não está a favor do regresso ao passado, no sentido em que se assistiu com a negritude ou com os primeiros pan-africanistas em que todo o seu esforço era de regresso ao passado. Para Soyinka mesmo o passado tinha defeitos, por isso não nos devemos iludir concentrando nossa atenção no pretenso passado que poderia ser o apanágio dos nossos problemas. Por isso para Soyinka, como para Mondlane, a luta não era contra uma raça, “é moral, não é contra a civilização de brancos que se deve lutar, mas contra a estupidez humana, seja branca ou negra” (Idem, p. 41)). Por isso o movimento de libertação de Moçambique (Frelimo) era um espaço de todas as culturas, raças, religiões e etnias e, isso, o seu sucessor, Samora Machel herdou esse ideal, tendo permitido que no Estado moçambicano independente descobríssemos um governo multirracial.
Eduardo Mondlane pensava numa modernidade a ser construída com base num passado sim mas, um passado que seria a reapropriação das experiencias coletivas, culturais e derivados da exploração e dominação coloniais. Pensava numa cidadania que era tributaria e sucessora do passado. A Janet dizia que Eduardo Mondlane era um cidadão moçambicano do mundo, era cosmopolita capaz de ser confundido e capaz de se imiscuir com todas as culturas e com todas as nacionalidades mas no fundo tinha uma base, uma identidade a qual não o fazia deixar por isso de ser universal. Escrevia assim, Herbert Shore, seu grande amigo e um sujeito que a Frelimo pediu para organizar o espólio de Eduardo Mondlane:
“Recordo-me dele num dos raros momentos de descontração, em casa, com os pés levantados e os dedos a mexer-se ouvindo “os pescadores das pérolas” de Bizet, acompanhando e dizendo, “dava tudo para ser capaz de criar uma obra como esta”, ou a dançar, num acampamento ou numa aldeia, ao luar ou a luz da fogueira, ao som dos tambores. Também me recordo dele, alto, com a dignidade do estado, vestido formalmente, estrando numa receção duma embaixada com a Janet na mão” (SHORE, s/d, p.52)
Eduardo Mondlane pensava numa sociedade unitária porque acreditava que os diferentes grupos que pertenciam ao território chamado Moçambique eram portadores de matrizes culturais comuns que se explicavam pelo fato de estes povos não só serem africanos mas também serem bantu. Os bantus são povos que ocupam a Africa Austral e que se fixaram naquela região vindos dos grandes Lagos e por isso as variações que apresentavam se explicavam pela necessidade que cada povo teve de se adaptar a certos climas e relevos, diria Eduardo Mondlane em Lutar por Moçambique (MONDLANE, 1995). Mas, segundo Eduardo Mondlane, estes povos tinham aspetos mais íntimos comuns como a vida depois da morte, o animismo e a visão dinâmica da vida. No seu entender, se não tivesse havido a colonização, esses povos teriam se assimilado culturalmente e teriam se tornado um povo homogêneo (MONDLANE, 1995). Outro argumento que advogava para a união era a lição que a história o tinha ensinado. Segundo ele, se o colonialismo penetrou e se enraizou nas nossas terras é porque os diferentes grupos não eram unidos e os imperialistas aproveitaram-se, jogaram uns grupos contra os outros e aprofundaram as divisões o que lhes permitiu a dominação. Isto é o que tinha acontecido com os últimos reinos africanos como o Ngugunhane no sul e o Macome em Tete (no centro de Moçambique).
Por isso, a estratégia de luta de libertação nacional, concebida por Eduardo Mondlane, foi a unidade dos movimentos nacionalistas que estavam dispersos criando a frente de libertação de Moçambique: Frelimo.
Existem algumas vozes, hoje, que pretendem que Eduardo Mondlane não foi o autor da unidade dos três movimento mas, se ele não foi autor da união, pelo menos, foi o grande teórico do nacionalismo moçambicano (CHEMANE, 2003). Foi dentro do espirito nacionalista que Eduardo Mondlane concebeu os serviços de educação da Frelimo durante a luta de libertação nacional, o que passaremos a analisar a seguir.

Ideias Educacionais
Ele afirmava que em África, com a chegada da educação moderna (europeia), alguns povos viram-se obrigados, para frequentar as escolas europeias, a “sacrificar os seus valores e costumes sociais e rejeitar o seu passado” (MONDLANE, 1995, p. 138) outros, optaram simplesmente por abandonar a escola europeia e outros ainda optaram, como Kikuyus, no Quénia, a combinar os dois sistemas. Mondlane dizia que “o que é necessário é mais do que uma simples combinação” (Idem, p. 138). Acreditava que o Estado nascente seria o espaço mais inteligente para lidar com o problema (se o Estado seria plural, tolerante e cheio de experiência das diferentes tribos ele seria a entidade sábia para a questão). Na altura Mondlane não possuía uma solução definitiva, só sabia dar a pista: “é necessário ter uma certa compreensão da nossa própria cultura e do nosso passado (…) Podemos aprender com outras culturas, incluindo a europeia, mas não podemos enxertá-la diretamente na nossa”” (MONDLANE, 1995, P. 138). A sua abordagem deixa clara a sua abertura a receção de várias experiencias que serão criticadas e o critério do seu acolhimento ou rejeição teriam que ser com base na cultura moçambicana. E cita Jahn : “só quando o Homem se sente herdeiro e sucessor do passado é que ele tem força para começar de novo” (MONDLANE, 1995, p. 138). A estrutura tradicional teria que acolher os valores da modernidade onde estes não ferissem os valores daquela, onde a modernidade enriquecesse e reforçasse a tradição.
Dizia ele no seu livro “Lutar por Moçambique”: “A cultura  revolucionaria está crescendo lentamente e tomando o seu lugar ao lado da cultura tradicional” (MONDLANE, 1995, p. 143) e acrescentava:  “o envolvimento e o apoio da população aumentam à medida que cresce a sua compreensão da situação”. (MONDLANE, 1995, p. 137) Na verdade nestas passagens ele exaltava justamente o primeiro objetivo da criação dos serviços educacionais durante a revolução nomeadamente que era de envolver as massas, através de uma educação enraizada tanto na cultura tradicional quanto na cultura revolucionaria, na luta pela independência. Em segundo lugar, o programa da educação provinha do objetivo de formar cidadãos para o futuro Estado moçambicano “porque o futuro Estado de Moçambique terá a necessidade de cidadãos formados para conduzir o país na via do desenvolvimento” (MONDLANE, 1995, p. 137). O contexto em que se estava era de luta de libertação “e da revolução social que a acompanha” e acrescenta ele “É isto que deve moldar os nossos serviços de educação que estamos a desenvolver” (MONDLANE, 1995, p. 138). E nessa altura haviam duas necessidades prementes, segundo Mondlane: precisavam-se de “quadros treinados a todos os níveis e em todas as disciplinas; precisamos elevar o nível de educação extremamente baixo da população em geral, combater o analfabetismo e a ignorância” (Idem, 1995, p. 138).
Eduardo Mondlane tornou a luta de libertação nacional num autêntico movimento cultural (MAZULA, 1995). Foi buscar o sistema tradicional em que todos ensinavam a todos e por isso não se poderia ver nitidamente a linha divisória entre a educação formal e a educação informal. “Os alunos mais avançados são muitas vezes chamados a ajudar os mais atrasados, participam nas campanhas de alfabetização de adultos, ou realizam outras tarefas as quais estejam capacitados” (MONDLANE, 1995, p. 139). Nos campos militares “Um bom poema será lido nas bases da Frelimo pelos militantes, pelas pessoas vindas das massas exploradas” (MONDLANE, 1995, p. 139) e como é que a poesia poderia atingir a todos? “Aqueles que sabem ler, leem alto para os que não sabem” (Idem, 1995, p. 139). E havia uma revista que circulava em que todos poderiam escrever e mandar publicar os seus textos. Haveria também um ensino de valores interculturais: “praticavam-se canções e danças tradicionais” e “os jovens não praticavam apenas as canções e danças da sua própria tribo, mas aprendem também as das outras tribos, enquanto no sector produtivo estão sendo introduzidas novas ideias e técnicas, quer de outras áreas de Moçambique quer do exterior”. O nacionalismo de Mondlane não seria estreito, como se disse, necessita de revitalização através do intercâmbio entre diferentes grupos de população e com o exterior. É por isso, que nas bases da Frelimo encorajava a disseminação de experiências no seio da população trazidas do exterior pelas pessoas que regressavam, essas experiencias seriam desde o Vietname, Cuba, RDA, China, EUA, França, Inglaterra, Suíça ou Correia.
O que o satisfazia enquanto decorria a revolução é que “apesar do nível baixo dos professores e o ensino ser bastante rudimentar, […] estava orientando para as necessidades das crianças no contexto da sua própria cultura e da luta nacional” (MONDLANE, 1995, p. 138). Para ele a cultura autóctone que “sobreviveu como uma espécie de cultura “subterrânea” subjugada, criticada e abertamente desprezada pelas autoridades” (MONDLANE, 1995, p. 142)  teria que emergir e ser reabsorvida pelas crianças. Elas aprendiam e deviam aprender o Português (na falta de uma língua africana aglutinadora), a História e Geografia de Moçambique, a leitura, a escrita, aritmética e educação cívica. “Na educação cívica os alunos aprendem coisas sobre o nosso país e o seu passado, sobre a guerra e os objetivos da Frelimo e algo sobre África e o mundo” (MONDLANE, 1995, p. 139).
Na sua alocução sobre o futuro de Moçambique previa como matérias a serem aprendidas a Higiene pública, os elementos básicos sobre a política e economia. No campo temático encorajava a nível da arte (por exemplo escultura maconde) a que os artistas não se contentassem com obras estereotipadas mas que deviam ter paciência criando objetos mais dinâmicos e isto permitia o aparecimento de novos temas como a revolução tanto na escultura como na poesia: com a conhecida “poesia do combate”. Ele cita o Jorge Rebelo que no seu poema “Sonho de Revolta” convidava um camarada aos “sonhos da revolta” “pois sonhos se tornam guerra (…) /na nossa terra as balas começam a florir” (MONDLANE, 1995, p. 143). A educação em Mondlane, como um autêntico movimento cultural, irá se desenvolver “através do trabalho prático e das aulas teóricas” (MONDLANE, 1995, p. 139). Em Mondlane como na Frelimo o trabalho prático, numa teoria proveniente do marxismo, enriquece o pensamento (MAZULA, 1995) e por isso esta devia ser inseparável do estudante, do intelectual (MONDLANE, 1967, p.184). Os estudantes deviam ser integrados em tarefas sociais enquanto estudassem. Depois das aulas poderiam ir a horta da escola, ensinar os adultos. Por outro lado na teoria de Mondlane, numa recuperação do método tradicional, o indivíduo só apreendia fazendo. Por isso é que ele divulgou um documento, em 1967, dirigido especialmente aos estudantes devido a um equívoco destes  sobre a participação  na luta de libertação nacional na qual dizia que “a luta constitui uma escola mais importante e mais avançada do mundo” (MONDLANE, 1967, p. 183)  e acrescentava “a revolução também necessita e acarinha os seus estudantes, quadros intelectuais revolucionários; mas estes mais do que na Universidade, formam-se na revolução” (MONDLANE, 1978, p.183). E era sua filosofia que sempre que os estudantes estivessem de férias deviam voltar para as tarefas   revolucionarias “isto serve para mergulhar o estudante, o intelectual, o futuro técnico, no seio da revolução” (Idem, p. 183). Eduardo Mondlane, numa passagem do “Lutar por Moçambique”, dá a entender que o estudante deve ir a escola conhecendo as suas tarefas sociais e ir prover-se da teoria, voltar outra vez para o terreno, sempre que pudesse para testar a sua teoria na prática e torná-la mais adequada à situação (portanto um círculo de teoria / prática e vice-versa). Esta ideia não surpreende pois esta foi sempre a maneira de estar de Eduardo Mondlane. Esteve sempre na escola, depois que começou a estudar, e constantemente ligado a tarefas sociais: Em Lourenço Marques estudou enquanto trabalhava com A. Clerc, em Lemane (Africa do Sul) estudou enquanto dava aulas de catequese em Shirley, em Johannesburg esteve no associativismo tanto na Universidade como na igreja, em Lisboa fez parte do CEI e nos Estados Unidos ajudou especialistas da língua bantu logo que chegou e dava palestras e escrevia artigos  sobre de África e Moçambique. Para Eduardo Mondlane não se seria nem bom estudante nem grande intelectual sentado na poltrona da escola ou do gabinete.

Conclusão
A formação e as convicções pan-africanas de Eduardo Mondlane se implicaram mutuamente: a formação africana de Eduardo Mondlane criou as convicções pan-africanas que acabaram ditando, por sua vez, a formação pan-africana posterior, na fase adulta. A sua formação na família e na Missão Suíça endureceram as suas convicções que o levaram a decidir por se formar em Oberlin, na Northwestern e a aprender com os camponeses de Moçambique durante a revolução.
A vida de Eduardo Mondlane nos remete aos percursos, vicissitudes e reflexões da maioria dos pan-africanistas. A maioria destes tiveram uma educação familiar africana e quando foram a escola foram obrigados a abandonar completamento ou em parte a mesma. A maioria dos pan-africanos foi confrontada com os dilemas tais como: tradição/modernidade, socialismo/capitalismo, etnicidade/nacionalismo.
Ele nos trouxe a ideia de que a africanidade é uma ética, uma atitude, uma política e uma convicção a partir dos quais se constrói uma nova sociedade africana. A modernidade nunca lhe deixou complexado e nunca a encarou como uma questão de ou tradição ou modernidade e nem o socialismo lhe pareceu uma roupa pronto-a-vestir. Sempre ficou atento a necessidade de criação de uma sociedade aberta, justa e democrática.
As suas convicções de africano levaram-lhe a conceber uma ideia de educação ampla, como a fecundação recíproca entre a educação informal e formal, a educação como um movimento cultural, a relação estreita entre a teoria e a prática, a educação e a produção, o aprender fazendo, a comunidade educativa (em que todos ensinam a todos), tudo isso, que é próprio da educação tradicional africana.
As ideias politicas e educacionais de Eduardo Mondlane merecem ainda um estudo aprofundado. Seria interessante perceber as ligações das suas ideias com o pragmatismo americano; com o marxismo, ao qual se dedicou nos últimos anos da sua vida. Merecem um aprofundamento as ideias de democracia, socialismo. Ele lidou com a cultura tradicional de forma, algo original, que abre possibilidades de aprofundamento. As suas ideias educacionais merecem uma operacionalização pois nos parecem ate hoje validas.

Referências bibliográficas

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CHEMANE, O. A Contribuição de Eduardo Mondlane na Educação em Moçambique: Entre a tradição e a Modernidade. Maputo. UP. 2003 (Monografia não publicado)
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KHAMBANE, C E CLREC, A. D. Chitlango Filho do Chefe. Maputo. Cadernos Tempo. 1990
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MONDLANE, J. O Filho Especial de um Pais Especial. In: Metical. n°403. Janeiro de 1999.p. 1-5. Entrevista concedida a Carlos Cardoso, Ungulane Ba Ka Khossa e Marcelo Mosse
NGONEHA, S. Filosofia Africana: das Independências as Liberdades. Maputo. Paulinas.
NGONEHA, S. Estatuto e Axiologia da Educação em Moçambique: o paradigmático  questionamento  da Missão Suíça. Maputo. Livraria universitária. 2000
SANSONE, L. Eduardo Mondlane and the Social Sciences. In: Vibrant, V.10 n 2 2013

1 orlandochemane@gmail.com

2 Usaremos indiferentemente pan-africanista e pan-africano

3 Eduardo Mondlane não conhecia a data certa (dia e mês) do seu nascimento e a data foi fixada como o povo costumava fazer naquela altura: por épocas agrícolas ou catástrofes como seca, fome, etc. A época da colheita do amendoim era o mês de Junho. Pode se conferir no seu livro autobiográfico: Khambane. Chitlango Filho de Chefe.

4 Os povos ngunis invadiram e ocuparam a zona sul do território que hoje é Moçambique na primeira metade do seculo XIX, submetendo e subjugando os povos ai encontrados. Eles provinham das terras que hoje fazem parte da Africa do Sul.

5 Segundo a Lei n° 238, de 15 de Maio de 1930, e a Concordata de 1956 o Ensino Rudimentar destinava-se a “conduzir gradualmente o indígena duma vida de selvajaria a uma vida civilizada” e o Ensino Primário, destinava-se aos alunos que passavam o ensino de adaptação. Compreendia a terceira, quarta e admissão (preparação para entrada no liceu). Pode-se conferir: Mondlane, E. Educação e Submissão. In: Lutar por Moçambique. Maputo. Nosso Chão. 1995pps 55-66

6 Grupos juvenis da Igreja Presbiteriana ou Missão Suíça, como ficou mais conhecida a igreja Presbiteriana em Moçambique

6 Que pretendia que viesse a trabalhar nos serviços sociais na igreja

8 ANC African National Congress

9 Palavras colhidas de uma entrevista ao Aquino de Bragança que conta do livro de Aquino de Bragança e Immanuel Wellerteian Quem é o Inimigo?. Lisboa: Iniciativas editoriais. 1978 pp. 200

 
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