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A Técnica e o Homem:
O Cartesianismo e seus desdobramentos na Modernidade
Mariana de Macêdo Seixas(*)

Resumo: Este artigo analisa as relações entre uma nascente racionalidade técnica e uma nova visão de homem na obra filosófica de René Descartes. A partir dessa análise, se investigará como se alicerçaram uma nova concepção de método e de conhecimento que, ao subverterem a concepção tradicional de técnica, acarretaram um esvaziamento da experiência na época Moderna.

Introdução

Na origem da tradição do pensamento ocidental, que remete a civilização grega, a técnica (teknè ou technê, em grego),que também pode ser traduzida como arte, é algo que emerge da experiência (empeiria). Constitui-se, desse modo, em um conjunto de ações, que são generalizadas num somatório de conhecimentos que, por sua natureza prática, poderão ser ensinados e transmitidos.  A técnica nos primórdios de nossa cultura, está profundamente associada a uma experiência coletiva, na qual existe uma relação estreita entre homens (em seu sentido mais comunitário) e natureza[1].  Neste âmbito, técnica e magia se fundem resguardando uma relação de encantamento do gênero humano ante o mundo da physis.[2]

Platão, por volta do século IV a. C., elabora uma teoria sobre o conhecimento humano, onde a teknè e a experiência tornam-se pontos centrais de sua crítica filosófica. Ele situa todo o arcabouço do conhecimento empírico numa relação metafísica[3] entre homem e natureza. No Diálogo Timeu Platão apresenta, por meio do Demiurgo,[4] um modelo de criação artesanal, em que a totalidade é dotada de alma.  Nada, inclusive o grande artífice, é pensado como desprovido de ânima[5].  O demiurgo é um ser vivo e, portanto, possuidor de alguma forma de alma.  A cosmogonia do Timeu descreve a criação da alma do mundo e a do ser humano. Os corpos celestes são também seres vivos e, como tais, estão dotados de alma. As almas dos animais são o produto da reencarnação e podemos supor que são semelhantes a do ser humano, mas nada se diz sobre sua natureza, ou se a alma sofre alguma mudança no processo de metempsicose[6].

O cosmos platônico apresenta-se como sacralizado, engendrado divinamente onde todo o existente é possuidor de ânima.  O Timeu descreve a ordem do mundo, discorre sobre os princípios dessa ordem que regem também o homem. A natureza do gênero humano funda-se na própria natureza do universo, começando pela origem do mundo, investigando-se as causas de sua harmonia e passando daí, para a origem do homem e a harmonia que deve reger a sua alma. Através do Timeu, Platão constrói, portanto, uma filosofia da natureza. 

A fim de consubstanciar sua teoria do conhecimento, o filósofo ateniense demarca a posição do artífice também em relação ao mundo dos homens. No diálogo Protágoras, Platão trava uma discussão sobre a teknè, demarcando com propriedade, o campo em que a experiência e a técnica estão fundidos na esfera do sagrado e na autoridade da tradição, para ele:

[...]o homem em virtude de sua afinidade com os deuses, [foi] o únicodentre os animais a crer na existência deles, tendo logo passado a levantaraltares e a fabricar imagens dos deuses. Não demorou, e começaram acoordenar os sons e as palavras, a engenhar casas, vestes calçados e leitos, ea procurar na terra os alimentos. (PLATÃO, 1980 Prot. 322a-b,).

Ao discorrer sobre o mito de Prometeu, Protágoras sugere que foi a teknè que deu origem à religião, e que ela liga os homens aos deuses. A concessão dos dons divinos à humanidade originou o parentesco entre o humano e o divino, além de fazer com que as deidades fossem adoradas pelos homens. Portanto, é desse modo que a teknè produz a religião, neste sentido é que se sustenta o enlace original entre técnica e magia, no qual o homem ainda não realizou completamente sua humanidade (fragmentando ou esvaziando a sua experiência da esfera comunitária) e nem sua experiência com o cosmos.

A técnica ou arte em seu o substrato originário, resguardava a totalidade do homem e sua experiência, no entanto, contemporaneamente, identificamos um processo de fragmentação do homem. A partir do sobrepujamento deste pela técnica, e pelos processos mecânicos instaurados com o advento da modernidade, constata-se uma crise no âmbito de todo a nossa experiência. 

Essa modificação no campo de nossa experiência coletiva foi tema de análise de importantes críticos da modernidade, dentre eles, ganha destaque o pensador alemão Walter Benjamin, que no ano de 1933 escreveu um Ensaio intitulado "Experiência e Pobreza" no qual afirma "que as ações de experiência estão em baixa", que ficamos "mais pobres em experiências comunicáveis" e que o "desenvolvimento da técnica"  acabou se "sobrepondo-se ao homem". (BENJAMIN, 1994, p. 114, 115).

Nesse texto Benjamin faz uma ligeira alusão a Descartes, que consideramos, neste artigo, integrado ao processo de declínio da experiência, por causa de sua nova visão de homem e técnica.  Benjamin (1994, p.16) se refere a Descartes como a um construtor implacável "que baseou sua filosofia numa única certeza – penso, logo existo – e dela partiu." estando potencialmente em suas assertivas filosóficas os germes para a efetivação cultural de uma visão mecanicista do homem, uma potencialidade para o "monstruoso desenvolvimento da técnica" a partir de uma construção rigorosa do método científico e a defesa de uma experiência fragmentária e subjetivista em um processo analítico de esfacelamento do seu valor coletivo enquanto autoridade de verdade.

 Descartes ocupa uma posição de destaque no que tange a construção das bases da razão e do conhecimento cientifico na Modernidade. Seu objetivo é claro e explicito, afirmando categoricamente, em sua Primeira Meditação o intento teórico de "[livrar-se] de todas as opiniões nas quais até aquele momento acreditara, e começar tudo novamente a partir de fundamentos", seu alvo era o de "com a máxima seriedade e plena liberdade, demolir em geral todas as [suas] antigas opiniões" com vistas a "estabelecer algo sólido e duradouro nas ciências" (DESCARTES, 2004a, p. 249).

A Modernidade emerge com a ruptura da relação homem-natureza vigente até a época do Renascimento, e a dissolução de um sistema de representação do mundo, fundada na autoridade do cristianismo, que não poderia ser questionado.  A concepção de um mundo guiado pela razão inata do homem foi impulsionada pelo pensamento cartesiano.  Nesta nova ordem, os seres humanos se reconhecem como autores e criadores de suas próprias ideias, sujeitos e condutores de um mundo em vias de racionalização.  Com esta pretensão de libertar-se de suas concepções mitológicas, se impulsiona e desenvolve a ciência, a moralidade e as leis universais que, no entanto, se expressam em uma crença exacerbada no poderio das verdades experimentadas, tecnicamente testadas e num evolutivo progresso.  Esta confiança entusiasta para com as ciências e a técnica, atinge seu grau mais elevado no século XIX, com o advento da Revolução Industrial, momento no qual afirma-se a razão instrumental para domínio e controle da natureza, sociedade e indivíduos.

O progresso dos recursos técnicos, que poderia servir para iluminar a mente do homem, se acompanha pelo processo da desumanização, de tal modo que o progresso ameaça destruir precisamente o objetivo que deveria realizar: a ideia do homem (REALE, 1991, p. 846)

Com base no que foi exposto, no intuito de apontar alguns desdobramentos do cartesianismo na formação da cultura moderna, indicarei como aparece, no corpus filosófico de Descartes, uma nova concepção de homem e técnica (associada ao método científico) e que ressoará na degradação de nossa experiência coletiva, ou, citando Walter Benjamin, tornando a geração oriunda da modernidade, "mais pobre de experiências comunicáveis" (BENJAMIN, 1994, p. 114).

O homem cartesiano, mecanicismo como constitutivo dos sujeitos

Descartes viveu em tempos sombrios.  O século XVII se caracterizou como um período histórico conturbado sob o fantasma da Inquisição e a égide da repressão de estados absolutistas fortemente influenciados pela religião, onde pairavam o medo e a incerteza. Ante a mais aguda crise entre razão e fé, ou entre antropos e Dios, sua orientação pessoal é clara e manifesta, isto é, vencer a si, modificar os próprios desejos, encontrar um caminho seguro que afirmasse a capacidade humana de pensar racionalmente e de criar alicerces epistemológicos capazes de superar os velhos ensinamentos baseados em fabulações. Submetendo todo conhecimento à ordem da razão, crendo que o nosso pensamento está inteiramente em nosso poder.

(..) a respeito de todas as opiniões que até então acolhera em meu crédito, o melhor a fazer seria dispor-me, de uma vez para sempre, a retirar-lhes essa confiança, para substituí-las em seguida ou por outras melhores, ou então pelas mesmas, após havê-las ajustado ao nível da razão.  E acreditei com firmeza em que, por este meio, conseguiria conduzir minha vida muito melhor do que se a construísse apenas sobre velhos alicerces e me apoiasse tão-somente sobre princípios a respeito dos quais me deixara convencer em minha juventude, sem ter nunca analisado se eram verdadeiros (DESCARTES, 2004b, p. 45)

Descartes está no cerne do nascimento daquilo que entendemos hoje como filosofia Moderna, é a origem de uma nova concepção de homem sob a qual se instaurava a subjetividade produtora de uma nova forma de pensar subjugando, assim, a doutrina escolástica vigente fomentando uma nova ordem de produção de conhecimento.  Para isto, foi necessário empreender uma análise antropológica, que sem negar a existência de Deus, garantisse a autonomia do gênero humano. O filósofo se impõe a uma sistemática meditação para entender "o que é o homem?" (Descartes, 2004a, p. 259).Buscou a resolução desta inquietante questão em sua própria humanidade ao subjugar-se a uma rígida reflexão metódica a fim de determinar algo que fosse perfeito, que não se pudesse colocar em dúvida, que fosse o elemento primordial de inabalável certeza, um alicerce para uma nova ciência.

Projetos de Leonardo da Vinci

A fundamentação de uma nova concepção de homem inaugurou consigo um processo de declínio de uma tradição fundada na autoridade da velhice.  Era necessário superar as "imperfeições das ciências que herdamos dos antigos" (DESCARTES, 2004c, p. 105) e para tal, seu ponto inicial fora o de"(...) não acreditar com demasiada convicção em nada do que havia sido inculcado só pelo exemplo e pelo hábito" (DESCARTES, 2004 b, p. 42). Por meio de conclusões próprias, racionais, firmes e evidentes Descartes chega a convicção de que é "uma coisa que pensa (…) [sendo a dúvida o fundamento desta certeza, o homem também],é uma coisa que duvida" (DESCARTES, 2004a, p. 262).Convoca os bons espíritos para firmar um novo princípio no qual "a razão (...) é a única coisa que nos torna homens e nos diferencia dos animais" (DESCARTES, 2004b, p. 36),se tornando uma resposta fundamental aos debates sobre a condição humana no século XVII.

Este ente pensante cartesiano, no entanto, não deve ser pensado afastado de uma concepção de máquina. Afasta-se completamente de uma tradição aristotélico-tomista ao tratar o corpo como substância independente da alma e concebido como tendo um princípio próprio de movimento. Nesse caso,Descartes, não considerará a alma como substâncianecessária para "comandara embarcação".  No tratado "As Paixões da Alma", o filósofo mostra com bastante clareza seu intento de afastar-se das velhas opiniões sobre a relação corpo-alma e o princípio do movimento.

Dessa maneira evitaremos um grave equívoco que muitos cometeram, de forma que considero a principal causa que até agora impossibilitou que se pudessem explicar bem as paixões e as outras coisas relativas à alma.  Consiste em haver-se concluído, ao observar que todos os corpos mortos são desprovidos de calor e, em seguida de movimento, que era a ausência da alma que causava a interrupção desses movimentos e desse calor; e assim se julgou, erroneamente, que o nosso calor natural e todos os movimentos do nosso corpo estão sujeitos à alma, enquanto se devia pensar, ao contrário, que na ocasião da morte , a alma só se retira porque esse calor cessa, porque os órgãos que servem para mover o corpo se deterioram (DESCARTES, 2004c, p.107)

Em um mundo cartesiano, visto a partir das lentes de Galileu, o universo antigo com base na física aristotélica desmoronava, É nesse fascínio causado pelas primeiras invenções tecnológicas, que o novo homem concebido por Descartes atua na descoberta de suas leis factuais, com base em certezas agora indubitáveis e não mais em fabulações. O sujeito cartesiano carrega em seus ombros o peso da própria capacidade de erguer cada pedra do verdadeiro mundo ao deixar o antigo desfalecer-se em ruínas.Por várias vezes, ao falar sobre o corpo, Descartes remete seus leitores a exemplos análogos à artefatos humanos, aplicando um modo copernicano de guiar o pensamento com o domínio da técnica por meio da qual o corpo é examinado em suas partes mais sutis. É a elaboração cartesiana que relaciona o pensamento ao artefato por meio da mecânica num embate completo a tudo que se herdou de uma tradição físico-aristotélica.

Desejo que vós considereis que todas essas funções são naturalmente decorrentes, nessa máquina, somente da disposição de seus órgãos, assim como os movimentos de um relógio ou outro autômato decorrem da disposição de seus contrapesos de suas rodas. Desse modo, nessa máquina não é necessário conceber nenhuma alma vegetativa ou sensitiva, nem algum outro princípio de movimento e de vida, além de seu sangue e seus espíritos agitados pelo calor do fogo que queima continuamente em seu coração, e que não é de natureza diferente da de todos os fogos que estão nos corpos inanimados (DESCARTES, 2009, p. 251).

A noção de corpo cartesiana está inserida completamente em uma relação com o advento das primeiras maquinarias modernas. O corpo passa a ser visto sob os aspectos técnicos mecanicistas, ou seja, o artefato mais bem elaborado e posto a funcionar por Deus com movimentos autômatos.  O homem, diferente dos animais, é o único possuidor de uma alma, entendida como puro ser pensante, o gênero humano ganha existência, portanto "quando Deus unir uma alma racional a essa máquina [corpo]" (DESCARTES, 2009, p. 143).

Dentro do sistema do filósofo Descartes, os demais seres possuem um funcionamento puramente maquinal. Ao atribuir alma somente ao homem, desmontando os princípios aristotélicos de alma vegetativa e sensitiva[7], trata os outros entes como de natureza exclusivamente mecanicista. Reestrutura a ideia corrente subvertendo a tradição atribuindo, portanto,uma nova e moderna acepção do humano enquanto máquina-pensante.

A partir desta nova concepção mecânica de homem e natureza, tem-se o germe inicial de uma racionalidade instrumental baseada nos novos princípios físico-matemáticos, explicitamente defendidos pelo filósofo Descartes na Sexta Parte do Discurso do Método.

Pois elas [as novas concepções científicas] me mostraram que é possível chegar a conhecimentos que sejam muito úteis a vida, e que, em lugar dessa filosofia especulativa que se ensina nas escolas, é possível encontrar-se uma outra prática mediante a qual, do ar, dos astros, dos céus e de todos os outros corpos que nos cercam, tão claramente como conhecemos os vários ofícios de nossos artífices, poderíamos utilizá-los da mesma forma em todos os usos para os quais são próprios, e assim nos tornar como senhores e possuidores da natureza (DESCARTES, 2004a, p. 86, 87).

É claro o objetivo de fragilizar a tradição para desenvolver, através de juízos cartesianos, com vistas as noções e princípios úteis para o bem geral de todos os homens enquanto "senhores e possuidores da natureza". Assim, dá-se início a uma aposta pela razão de cada indivíduo guiar-se e apoderar de si e de tudo ao seu redor para o uso da vida.  Esta nova visão de homem enquanto maquina pensante, consubstancia uma separação definitiva do homem com o cosmo, sendo o possuidor de uma racionalidade instrumental que o possibilitaria o pleno domínio sobre toda a mecânica que esvaziada a de qualquer alma, se torna subtraída de qualquer encanto ou mistério.

Técnica e Discurso do Método, prelúdio para uma racionalidade instrumental

A técnica na modernidade funda uma nova concepção de homem. Os inventos científicos que deslumbraram Descartes foram fundamentais na constituição de sua racionalidade, que promete bons resultados se for operada através do uso de uma metodologia capaz de garantir um caminho seguro para o conhecimento cientifico.

Na Modernidade, a técnica domina a natureza e cinge definitivamente o homem.  Neste novo contexto pode-se dizer que o homem supera a natureza. Surgem os processos de controle do homem-máquina-pensante sobre um mundo que tornou-se desencantado e esvaziado de sentido.

Logo no início do Discurso do Método, lemos a afirmação de que o "bom senso ou razão é igual em todos os homens".  É esta razão inventiva, com vistas a utilidade pratica e não mais especulativa, que Descartes faz menção ao defender o homem enquanto uma substancia pensante. Esta razão fundada na técnica é "a única coisa que nos torna homens e nos diferencia dos animais (DESCARTES, 2004b, p. 36). Esta nova racionalidade deve se inspirar no trabalho preciso dos relojoeiros, que foram os primeiros a aplicar teorias da física e da mecânica na construção de máquinas com vistas a servir às necessidades humanas.

A alma humana é a própria razão que por sua vez, é capaz de desvelar os mecanismos do mundo, desde que caminhe por um método seguro de pensar. Neste caso, portanto, o próprio ato de pensar só alcança a verdade se for submetido a uma técnica, a saber, as regras de um método. Tendo concluído pela realidade fundante do penso, logo existo, como constitutivo do homem, Descartes prossegue dizendo que encontrou na matemática um modelo seguro para o pensamento "devido a certeza e a evidencia de suas razões" (DESCARTES, 2004b, p. 40). A partir dessa referência ele definiu "o verdadeiro método para chegar ao conhecimento de todas as coisas de que [seu] espírito fosse capaz" (Descartes, 2004b, p. 48).

Por método eu entendo regras certas e fáceis graças as quais todos aqueles que observarem corretamente jamais suporão como verdadeiro aquilo que é falso, e chegarão, sem fadiga e sem esforços inúteis, aumentando progressivamente sua ciência, ao conhecimento verdadeiro de tudo que podem atingir (DESCARTES, apud JAPIASSU, "O Racionalismo Cartesiano" in: Rezende, 1989 p. 88).

A concepção metodológica cartesiana propiciou a racionalização do tempo e dos processos sociais administrados. Os fundamentos de sua técnica, inspirados no movimento mecânico dos relógios, permitiu a produção de conhecimentos que aceleraram a dominação da natureza.

Descartes e os primeiros sintomas de uma crise da experiência

De acordo com o pensamento cartesiano, sem uma ruptura com a tradição a modernidade jamais poderia se expressar. O moderno, neste caso, não é definido, apenas como sendo o que não é antigo, mas como algo positivo, como uma total abertura ao que é novo. O antigo perde seu espaço enquanto conhecimento necessário, torna-se obsoleto, não existe mais uma dependência em relação a experiência introduzida pela tradição, ela é convertida em mera referência.

A Modernidade, nos moldes cartesianos, para construir a verdade nas ciências, toma com desconfiança e desprezo todas as antigas opiniões.  O Discurso do método, pressupõe que para bem conduzir a própria razão, deve-se abolir qualquer submissão do pensamento à tradição, pois "quando somos excessivamente curiosos das coisas que se realizavam nos séculos passados, ficamos geralmente muito ignorantes das que se realizam no presente" (DESCARTES, 2004b, p. 39).

A crise da experiência se desenvolveu com a afirmação de uma filosofia que sistematiza uma visão mecanicista do homem e da natureza, e com o desenvolvimento da racionalidade instrumental própria à ciência moderna. A partir da proposta epistêmico-metodológica cartesiana, a cultura e a sensibilidade foram sugadas pelos juízos oblíquos da matemática e consigo arrastam a linguagem e a diversidade dos povos.

Desde o surgimento das ciências, cujo espírito se traduz na filosofia cartesiana da dúvida e da desconfiança, o quadro conceptual da tradição da tradição deixou de estar seguro. (...) Uma vez desaparecida a confiança em que a realidade se nos mostrava tal como é, o conceito de verdade como revelação tornou-se duvidoso, e com ele a fé inquestionável num Deus objecto de revelação. O sentido do conceito de 'teoria' alterou-se: já não significava um sistema de verdades racionalmente articuladas (...), passou antes a significar a teoria científica moderna, ou seja, uma hipótese de trabalho passível de ser alterada consoante os resultados que produz e cuja validade depende não daquilo que 'revela' mas do facto de funcionar" (ARENDT, 2006, p.53).

Com o pensamento cartesiano temos o estopim de uma nova concepção de mundo, homem e conhecimento que, juntos, fomentaram a dessacralização da vida na época Moderna.  Descartes inicia um movimento cada vez mais abrangente de suspeita em relação às verdades metafísicas, que no passado eram tomadas como evidentes Neste movimento cresce a ciência moderna que, paulatinamente, vai assumindo o lugar outrora ocupado pelos sistemas metafísicos de representação do mundo.

Conclusão

Retomando o ponto de partida, no qual uma nova concepção de técnica e homem já se apresentam no projeto filosófico do cartesianismo, conclui-se os seguintes desdobramentos para a formação do mundo moderno e o limiar de uma experiência totalizante, a saber: a) Rejeição de toda e qualquer autoridade, no processo de conhecimento, distinta da Razão; b) Independência da subjetividade em um processo de reflexão no qual a consciência toma consciência  de si mesma como sujeito e objeto do conhecimento; c) Busca de conhecimento visando a dominação da natureza,  competindo ao homem dominar e modelar o mundo; d) O método passa a estar na ordem primeira da discussão epistemológica; e) Esvaziamento do sentido das coisas, pois elas passam a ser modos de extensão, desalmadas, carregando em si apenas os aspectos mecânicos, sem mistérios; f) Conhecimento voltado para o futuro e confiança na criação continua da razão, emergência de uma filosofia do progresso; g) Concepção mecanicista do universo, pensada a partir da dinâmica constitutiva de um relógio. A modernidade se ergue em meio ao declínio da experiência em seu processo mecânico de desencantamento da physis, Benjamin escreve:

 "Massas humanas, gases, forças elétricas foram lançadas ao campo aberto, correntes de alta freqüência atravessaram a paisagem, novos astros ergueram-se no céu, espaço aéreo e profundezas marítimas ferveram de propulsores, e por toda parte cavaram-se poços sacrificiais à mãe terra. (...) Dominação da natureza, assim ensinam os imperialistas, é o sentido de toda técnica. (BENJAMIN, 1993, p. 68 e 69).

  O pensamento cartesiano é um marco na consubstanciação de um modo de pensar que inaugura uma relação nova com o cosmos, no qual já se constata "um ameaçador descaminho experiência" (BENJAMIN, 1993, p. 68).  O cartesianismo deflagra o surgimento de uma nova concepção de técnica, nasce com ela o sujeito moderno, absolutamente distanciado do homem antigo, que introduz a ruptura entre Natureza e humanidade.

 

Referências bibliográficas

ARENDT, Hannah, Entre o Passado e o Futuro.Lisboa:Relógio D'Água, 2006.

BENJAMIN, Walter."Experiência e Pobreza", In. Magia, Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1994. Obras Escolhidas I.

________________. "A caminho do planetário". In. Rua de mão única.

São Paulo: Brasiliense, 1993. Obras escolhidas II.

DESCARTES, René."Meditações" In. Descartes. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2004a. Coleção Os Pensadores.

____________."Discurso do Método"In. Descartes. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2004b. Coleção Os Pensadores.

___________. "As Paixões da Alma"In. Descartes. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2004c. Coleção Os Pensadores.

___________. "O Homem". In. O Mundo (ou Tratadoda Luz e o Homem). São Paulo: Ed. Unicamp, 2009.

JAPIASSU, Hilton:"O Racionalismo Cartesiano" In: REZENDE, Antônio (org.). Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Ed Zahar:1989.

PLATÃO. Protágoras. Pará: Universidade Federal do Pará, 1980.

_________. Timeu – Crítias.  Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2011.

REALE. Giovanni; História da Filosofia, V. 3.São Paulo: Ed. Paulinas, 1991.

 

 


(*) Graduada em Filosofia (UERJ) e Mestranda em Educação pela Universidade Federal Fluminense – UFF, Niterói, RJ, Brasil. Contato: marimseixas@yahoo.com.br

[1] Natureza, neste trabalho compreende a estrutura universal em sua totalidade, do microcosmo ao macrocosmo. O cosmo é a totalidade de todas as coisas deste Universo ordenado, das estrelas as partículas subatômicas. Pressupõe a existência de uma ordem implícita e beleza dentro do todo do ser.

[2] A palavra grega Physis pode ser traduzida por natureza, mas seu significado é mais amplo. Refere-se também à realidade, não aquela pronta e acabada, mas a que se encontra em movimento e transformação, a que nasce e se desenvolve, o fundo eterno, perene, imortal e imperecível de onde tudo brota e para onde tudo retorna. Nesse sentido, a palavra significa gênese, origem, manifestação.

[3]Palavra que se origina do grego antigo correspondendo à μετα (metà), depois de, além de; e Φυσις [physis], natureza ou física. Esta palavra foi recorrentemente utilizada na tradição filosófica, ganhado sentidos bastante específicos.  Para este trabalho, o sentido empregado é o que se relaciona a cosmologia, como o estudo da totalidade de todos os fenômenos no universo e o como se fundamentam as experiências humanas neste contexto.

[4]Demiourgos (palavra originária do grego) significa "o que trabalha para o público, artífice, operário manual". Demios significando "do povo" ourgos, "trabalhador".  Na cosmogonia platônica, o termo designa o artesão divino - causa da alma do mundo.

[5] A palavra Ânima vem do latim e quer dizer alma, vida.

[6] Termo genérico para transmigração ou teoria da transmigração da alma, de um corpo para outro, seja este do mesmo tipo de ser vivo ou não

[7] A característica das plantas, que tem por princípio a alma vegetativa, é a nutrição e a reprodução. A da vida animal, que tem por princípio a alma sensitiva, é precisamente a sensibilidade e a locomoção. A vida do homem, que tem por princípio a alma racional, é o pensamento. No Homem a alma racional cumpre no também as funções da vida sensitiva e vegetativa; pois, em geral, o princípio superior cumpre as funções do princípio inferior.

 
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Edição de Nº 5 (2015)
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