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O fim da modernidade... burguesa
Giovanni Semeraro

RESUMO

Análises e estudos que abordam a modernidade nos seus mais diversos aspectos têm produzido uma enorme bibliografia ao longo do tempo. Mas, nessas leituras, que continuam a multiplicar-se nos nossos dias, são poucas as interpretações que focalizam o papel da classe burguesa que amoldou a modernidade aos seus interesses e a dirige até hoje recorrendo cada vez mais à dominação e às guerras. Neste artigo, ao mesmo tempo em que se reconhecem as grandes transformações que ocorreram na modernidade, se colocam em evidência as contradições e os impasses contidos nesse projeto apropriado e conduzido pela grande burguesia que está levando o mundo à catástrofe. Partindo de uma análise crítica das diversas correntes de pensamento voltadas a melhorar esse projeto, nas páginas a seguir se sustenta que só é possível vencer as nefastas consequências do modo de produção e reprodução implantado na modernidade pela burguesia, opondo-se à destruição e ao niilismo que esta classe predatória está disseminando no mundo, resgatando a soberania popular, socializando o poder material e simbólico e criando uma nova civilização.

  1. Magnitude e complexidade da modernidade

É praticamente incalculável o volume de análises sobre a modernidade, tão amplo, complexo e controvertido é esse período em sua evolução e múltiplas facetas. Além da dificuldade de abarcar e definir a sua grande galáxia, o que torna mais árdua essa tarefa é orientar-se na nebulosa das interpretações que procuram estabelecer diferentes e contrapostos significados na compreensão de sua história. Desde as distinções em torno dos conceitos de "modernidade", "modernização" e "modernismo"[1], até as discussões voltadas a mostrar se ainda permanecemos na sua esfera ou vivemos na fase de uma "modernidade avançada" ou até se a superamos e ingressamos na era da "pós-modernidade", a produção sobre o assunto continua a multiplicar-se na atualidade.

Mas, se o debate sobre os diversos sentidos da modernidade e a continuidade ou ruptura com os seus paradigmas resta em aberto, não há dúvida quanto ao fato de que se trata de uma época extraordinária na história da humanidade. Entre numerosos aspectos, basta lembrar que na modernidade ocorreram impactantes revoluções científico-tecnológicas, econômico-industriais, sócio-políticas, filosóficas, religiosas, artísticas e culturais (GARIN, 1993; ROSSI, 1989). As inauditas descobertas propiciadas pelos avanços da ciência e a expansão da economia em escala global imprimiram uma velocidade vertiginosa às atividades humanas e determinaram uma outra percepção do tempo e do espaço. O desenvolvimento das artes, a explosão da liberdade e de intensas mobilizações políticas, juntamente com uma impressionante produção material, foram ingredientes essenciais para impulsionar profundas transformações sociais. A vaga irresistível desses acontecimentos dissolveu o sistema feudal e a sociedade de castas, solapou os fundamentos do direito divino e hereditário, colocou em crise a concepção metafísica, a visão religiosa de mundo e a própria estrutura da Igreja. A razão, considerada como "adequatio rei" e mero "espelho da natureza", no mundo moderno começa a ser vista como poderoso instrumento prático para criar artefatos, dominar a natureza e desenvolver o imenso poder que se desenha para o ser humano. É neste novo contexto que ocorreu a refundação da filosofia sobre a certeza do sujeito (R.Descartes), que se abriu o caminho para a soberania do poder popular (J.J.Rousseau), a emancipação da "menoridade" e a universalização dos direitos (I.Kant), a visão da história como percurso em direção à liberdade (G.W.F.Hegel) e a compreensão do ser humano como "conjunto de relações sociais" (K.Marx). Uma verdadeira "revolução copernicana" que levou a superar as visões imutáveis e fatalistas, a abandonar o paradigma do sagrado e da substância, a operar a passagem "da alma em mim à minha alma" e a fazer do homem o centro do mundo e autor de si mesmo.

Também na política, como pode ser já observado em N. Maquiavel (1986) desde os primórdios da modernidade, ocorre uma profunda reviravolta. As suas práticas deixam de se guiar por normas pré-estabelecidas na tradição ou na religião e passam a se constituir nas ações práticas dos homens, se formam nas disputas travadas dentro de concretas relações de forças, de eventos sujeitos aos imprevistos da história e à provisoriedade do tempo. A partir do reconhecimento dos direitos naturais do individuo e da propriedade privada, da liberdade de negociação e de associação, da difusão do debate e da formação de uma esfera pública (HABERMAS, 1984), a sociedade se organiza em torno de um "contrato social", uma das metáforas mais emblemáticas da modernidade. Considerado ex parte populi e não mais ex parte principi,  o poder que emana do povo torna-se a fonte em base à qual se constitui o Estado moderno, se ampliam os direitos, se desenvolvem a sociedade civil, as instituições públicas e a democracia (BOBBIO, 1998; DUSO, 2002). Não surpreende, portanto, se na modernidade aparecem temas que tratam mais especificamente da liberdade, da questão do poder, da vontade e do espírito de iniciativa, da criatividade e da autonomia, das incertezas e do acaso. Para entender as grandes transformações que ocorrem na modernidade, muitos autores produziram numerosas obras artísticas e literárias. Entre estas, o Fausto de J.W. Goethe (1980), "Ilíada da vida moderna", pode ser tomado como uma das expressões mais representativas que retratam a onipotência do homem moderno, a ação prometeica de domínio sobre o mundo e os gigantescos empreendimentos voltados a fazer emergir da terra forças capazes de liberar tremendas energias que escapam do seu controle.

No entanto, sem desmerecer a multiplicidade das vertentes que concorreram para a formação da modernidade nem diminuir as diversas abordagens que a retratam a partir de aspectos específicos, para compreender a sua configuração mais constitutiva, não se pode deixar de levar em consideração o papel desempenhado pelo seu protagonista principal: a burguesia. O extenso e complexo processo da modernidade, de fato, não ocorreu de forma espontânea e natural, em decorrência exclusiva do desenvolvimento das ciências, das artes, do pensamento e dos costumes, como se convenciona argumentar. A modernidade não é só um fenômeno do espírito humano desvinculado de um preciso contexto histórico e econômico e de concretos sujeitos políticos. Ela se constitui, principalmente, em virtude da progressiva formação e consolidação de uma classe que fez prevalecer seus objetivos, estruturou um novo modo de produção, imprimiu seu selo às instituições políticas e recriou por completo o ordenamento da sociedade. Embora notáveis figuras e diversos grupos sociais tenham concorrido com suas criações e reivindicações, na prática, o que prevaleceu em larga parte na modernidade foi o projeto implantado pela burguesia. Sua marca aparece desde o início, é determinante ao longo de todo o desenvolvimento da modernidade e seu domínio se condensa hegemonicamente nos centros vitais de poder vigentes até nossos dias. Para além da Europa, epicentro da modernidade, os empreendimentos dessa nova classe se propagaram pelo mundo, exterminando grupos sociais "primitivos e atrasados", subjugando povos inteiros à condição de "associados e dependentes", colonizando culturas e convulsionando territórios com um grau de dominação e pilhagem sem precedentes na história (LOSURDO, 2006).

 

2. As crescentes e insustentáveis contradições da moderndade burguesa

Os extraordinários avanços da modernidade e o papel revolucionário desempenhado pela burguesia, reconhecido pelo próprio Marx (1999, p, 15), portanto, não devem levar a fechar os olhos sobre as suas contradições e a sua atuação colonialista e eurocêntrica. Já no decorrer da própria modernidade não faltaram autores que manifestaram preocupações e críticas em relação aos seus aspectos mais enaltecidos e ao projeto de sociedade implantado pela burguesia. J.J.Rousseau foi um dos mais agudos pensadores a observar que a técnica e o progresso não significam necessariamente avanços da humanidade e que a propriedade privada, bradada em nome da liberdade, era uma apropriação atrevida dos mais fortes que usurpavam os bens comuns e a soberania popular (1992, p.72; 1994, pp.36-38). G.W.F.Hegel desmonta a inconsistência das teorias contratualistas fundadas sobre o direito privado e desvela os perigos da atomização, do individualismo e do dualismo que permeiam a sociedade civil e a cultura moderna (1996, pp.73-81). Além de criticar a separação operada na modernidade entre sujeito e objeto, economia e política, público e privado, a filosofia de Hegel desmascara também a visão burguesa de trabalho orientado para a acumulação privada e a divisão social (SEMERARO, 2013, pp.87-104). Contra a autossuficiência do sujeito individual moderno e o paradigma do intelectualismo iluminista, Hegel sustenta a dialética do reconhecimento e a "compreensão" da realidade na sua totalidade, a "eticidade" do ser social e a construção do Estado como comunidade de cidadãos livres.

Esse pensamento e as ideias de diversos analistas que já vinham denunciando as gritantes contradições entre a produção de enormes riquezas e a disseminação da miséria nas massas populares, preparam a crítica mais radical desferida por K. Marx a um sistema que "lança as sementes da própria destruição". O autor de O Capital, de fato, mostrou de forma contundente que, com os mecanismos instaurados pela burguesia, a economia e o trabalho coletivo acabam sendo apropriados privadamente, que o homem se torna objeto em um mundo mercantilizado, que a liberdade e a igualdade não passam de fórmulas hipócritas face às novas formas de exploração e escravidão implantadas, especialmente, nas colônias: "A profunda hipocrisia e a intrínseca barbárie da civilização burguesa se apresentam sem véus quando, das grandes metrópoles, onde assumem formas respeitáveis, voltamos os olhos para as colônias, onde aparecem sem disfarces" (MARX, 1989, vol. 9, p. 225).

Mas, as críticas à modernidade não vieram unicamente dos que se opuseram à burguesia e se insurgiram contra as condições desumanas dos trabalhadores. Há, também, numerosos autores, dos mais variados matizes ideológicos, que não esconderam suas preocupações frente ao projeto da modernidade, mesmo sem se contrapor ou defender rupturas no seu sistema. M. Weber, por exemplo, evidencia a contradição entre a racionalidade dos meios e a irracionalidade dos fins, a organização e a eficiência de uma sociedade que se impregna de tecnicismo e se burocratiza enquanto asfixia o ser humano na "jaula de ferro" (1982, pp. 33-36). Impulsionado por seu "radicalismo aristocrático", também, F.Nietzsche mostra-se um ferrenho crítico da modernidade, da mediocridade da burguesia e da massificação produzida pelo seu projeto. Na errância do "esquecimento do ser", para M.Heidegger, assume papel preponderante a tecnocracia introduzida pela modernidade (VATTIMO, pp. 178-184). A Escola de Frankfurt dedica extensa reflexão à crise da razão e aos paradigmas da modernidade (ADORNO-HORKHEIMER, 1997, pp.19-52; HORKHEIMER, 1976). R. Koselleck (1982) faz uma radiografia do iluminismo e da crise da sociedade burguesa e H. Arendt observa argutamente que o homem moderno se fechou em si e abriu caminhos para o totalitarismo na medida em que expandiu seu domínio sobre o mundo e abandonou os ideais da polis grega (1995, pp. 18-36).

Sem retroceder muito na história do Ocidente, J. Habermas fala de "modernidade inacabada" e da necessidade de equilibrar a hipertrofia da "razão instrumental" (1990) com a "ação comunicativa" e a valorização do "mundo da vida" (1986). Na mesma direção pensa N. Bobbio quando identifica nas "promessas não cumpridas" (1984, p. 10) as falha no projeto da modernidade e quando S.P.Rouanet detecta o Mal-estar na modernidade (1993). Visões, estas, não muito distantes das tentativas empreendidas por J. Dewey voltado a resgatar as origens "genuínas" da modernidade no intuito de moralizar e humanizar o liberalismo selvagem (1997, pp.99-103). Com base nessas reflexões se elaboram, essencialmente, as teorias do social-liberalismo, da social-democracia, da Terceira Via, as diversas versões de (neo)desenvolvimentismo orientadas a compor interesses da burguesia com ações de "alívio à pobreza". Nenhuma dessas críticas, no entanto, coloca em questão o projeto destrutivo da modernidade, implantado pelo modo de produção e reprodução da burguesia. Pelo contrário, essas leituras procuram fazer crer que "as promessas" da modernidade possam vir a se realizar com a implementação de ajustes e melhorias sem combater e superar a classe que as nega.

Nos nossos dias, o pensamento que se apresenta como "pós-moderno" continua desferindo críticas à modernidade, com operações de "desconstrução" e expressões de indignação. Mas, ainda que não faltem análises interessantes, em sua maioria, essas reflexões se dedicam a instaurar um processo abstrato à Razão e a seus descaminhos, à desumanização da ciência e do tecnicismo, aos paradigmas redutivos da consciência e do logocentrismo, às meta-narrativas da história e às pretensões de se estabelecer a verdade. Marcado pelo anarquismo e o relativismo, "O pensamento débil" (VATTIMO, 1983) da pós-modernidade se concentra nas análises de fragmentos e gera um senso de impotência que leva água ao moinho de um sistema que aprofunda "a lógica cultural do capitalismo tardio" (JAMESON, 1997). Ao perder de vista o contexto histórico global, as conexões que formam o conjunto contraditório da realidade e passar ao largo das macro-questões econômicas e estruturais, essas posições não enfrentam as bases da dominação da classe que centraliza o poder e determina a configuração da sociedade nem apontam caminhos concretos de "construção" para superar as contradições do sistema.

  1. O velho que morre e o novo que custa a nascer

Ainda que pequena, essa amostra de autores e correntes de pensamento corrobora o que vem se revelando à vista de todos: a crise estrutural e sem volta da modernidade burguesa. Embora predominante no mundo, este projeto mostra que esgotou não apenas suas potencialidades de expansão e de emancipação, mas, que se tornou nefasto para a vida da humanidade e do próprio planeta.

Como procuramos mostrar, a vértebra central da modernidade é a constituição de um modo de produção e reprodução estruturado para privatizar riquezas nas mãos de uma classe minoritária que centraliza o poder e opera em função de seus interesses, atraindo e torcendo no seu vórtice tudo que está em volta, como um buraco negro. Nesse redemoinho, habilidosamente construído com ardilosos mecanismos econômicos e ideológicos, acabam sendo desfiguradas todas as outras expressões que despontaram na modernidade: a concepção de indivíduo, idolatrado como centro de tudo; a ideia de liberdade, sem limites para a classe dominante; a política, entendida como apropriação do poder com qualquer meio; as instituições sociais, modeladas para garantir a manutenção da ordem e da propriedade; a democracia, reduzida a ritual artificial de eleições e a teatro dos eleitos; a proclamação da igualdade, desde que se respeitem as "diferenças" dos mais fortes; os direitos "universais", solenemente registrados nas constituições, mas, apanágio de poucos; as leis, feitas pelos que contam; o Estado, garante dos poderes econômicos. Não surpreende se esta modernidade que se estruturou como uma sociedade politicamente burguesa e economicamente capitalista tenha promovido teorias centradas sobre uma cultura que exalta o individualismo, o consumismo e o narcisismo e sobre uma concepção de mundo que deposita sua fé na "mão invisível" do mercado e dispensa qualquer outra "fundamentação" da verdade. Assim, o que na modernidade é apresentado como uma "revolução copernicana", na verdade, foi se revelando uma reedição da concepção piramidal de mundo comandado, agora, por reduzidos grupos de poder instalados na metrópole que controlam a economia, o comércio, a política, o Estado, a ciência, a cultura, a mídia e o imaginário coletivo.

Toda a análise, portanto, que busca compreender a modernidade não pode encobrir de "esquecimento" o fato de que o atual "sistema-mundo" é estruturado sobre o capitalismo, o modo de produção e reprodução implantado pela burguesia. Esta, por trás da formalidade da legalidade jurídica e da aparente participação democrática, deu lastro à formação de um império construído sobre a acumulação obtida pela invasão de inteiros continentes e a despossessão de grandes massas humanas. Ao se globalizar, esse sistema criou um totalitarismo sem precedentes na história porque conseguiu associar ao arsenal econômico-político-militar o poderio da tecnologia e dos meios de comunicação, a força extraordinária da propaganda e da persuasão oculta, alimentadas pelas usinas da "sociedade do espetáculo" que "é o momento em que a mercadoria chegou à ocupação total da vida social" (DEBORD, 1979, 42). Hoje, de fato, juntamente com um ritmo alucinante de atividades, a enxurrada de imagens afeta profundamente o nosso campo de percepção e de reflexão, aprisiona as atenções sobre o instantâneo e o sensacional, ocultando, desse modo, a realidade e suas contradições, prejudicando a liberdade de decisão e as condições de se organizar politicamente. Como vem sendo observado por diversos analistas, esses poderosos instrumentos monopolizados pela burguesia, padronizam o comportamento através do direcionamento dos desejos e das emoções, cumprem um "genocídio cultural" e "um verdadeiro cataclisma antropológico", fazem da burguesia a "forma racial" de humanidade (PASOLINI, 1999, p. 382 e p. 406) e transformam o capital em uma divindade que subjuga a todos e se instala no próprio subconsciente. Em A Ideologia alemã, Marx havia já apontado que "Em toda época, as ideias da classe dominante são as ideias dominantes; ou seja, a classe que é a potência material é ao mesmo tempo a potência espiritual dominante" (1998, p.48). Mas, hoje, observa D. Losurdo, "o controle monopolístico que a grande riqueza exerce sobre os meios de produção das ideias, sobretudo das emoções, desempenha um papel largamente mais importante que nos tempos de Marx". O domínio da multimídia, de fato, é instrumento não apenas para vender produtos e difundir a própria ideologia, mas, vem sendo usado como "terrível poder de fogo" para disseminar no planeta "o terrorismo da indignação" sobre pessoas, grupos e inteiras nações que se querem silenciar e subjugar (2015, pp.75-76). Essa força totalitária, que promove o linchamento moral, o niilismo social e político e uma "produção destrutiva", se tornou letal para a humanidade. Com seus aparelhos cada vez mais sofisticados "Na sua versão imperial-espetacular, o capitalismo contemporâneo não se dedica apenas à expropriação da atividade produtiva, mas, à vida inteira" (LESCE, 2014, p. 87).

Por trás da fachada esplendorosa dos artefatos tecnológicos e do consumo, portanto, a modernidade burguesa foi gestando um modelo uniformizador de vida, destrutivo do planeta e desintegrador do tecido social. A sanha irresponsável da depredação da natureza, a superexploração do trabalho e as novas formas de (neo)colonialismo estão levando ao extermínio das espécies e ao embrutecimento humano. Uma irracionalidade que se revela cada vez mais nítida nas frequentes crises que beneficiam um número reduzido de pessoas em detrimento da maioria, no aprimoramento de mecanismos que levam a concentrar nas mãos de 67 indivíduos o equivalente à riqueza de 3 bilhões de pessoas e fazem durar 12 segundos o tempo médio de uma ação de empresa no sistema financeiro (OXFAM, 19/01/2015). É nessas práticas criminosas que é preciso buscar as raízes mais profundas da violência que hoje alcança níveis inauditos de aberração.

O absurdo ao qual hoje se chegou, denunciado no slogan "99% X 1%" que tem inspirado o movimento Occupy Wall Street, não é um desvio do caminho originário, mas, a consequência de premissas fundadas sobre uma concepção de sociedade, de produção e consumo estruturados e açambarcados na modernidade por uma minoria predatória e colonizadora. Cada vez mais longe do consenso e da legitimação efetivamente democrática, a elite opulenta que se apropriou do mundo busca sustentar seu poder no terrorismo econômico e militar, na manipulação das informações e na violação dos direitos, no tráfico das armas e das drogas, na indústria das guerras e do espaço cibernético, na compra de políticos e na rapina das riquezas públicas, na disseminação da corrupção e da evasão fiscal. O recurso sem limites a esse arsenal de sordidez mostra que a burguesia perdeu a sua hegemonia, a capacidade de responder às necessidades históricas e às reivindicações que emergem em todos os continentes. Pressionada e atemorizada pelos crescentes contingentes de desempregados, as maciças ondas migratórias e as insurgências populares, coloca a perder a universalização dos direitos, a democracia, o Estado social, os próprios fundamentos da liberdade e a economia de mercado e regride às formas feudais de vida, reproduzindo um modelo de sociedade na qual uma pequena parte, encastelada em seus domínios e descolada da realidade, procura se proteger do mar de pobreza e precariedade que se alastra à sua volta.

Ainda nos anos 30 do século passado, Gramsci anotava que "... hoje se verifica no mundo moderno um fenômeno semelhante ao que aconteceu na Idade Média quando o 'espiritual' se descolou do 'temporal': fenômeno muito mais complexo do de então, assim como tornou-se mais complexa a vida moderna [...] Hoje o 'espiritual' que se desliga do 'temporal' e se coloca como fosse uma realidade à parte, é algo desorgânico, descentrado, uma pulverização instável de grande personalidades 'sem Papa' e sem território. Este [processo] de desintegração do Estado moderno é portanto mais catastrófico do [processo histórico] medieval que era desintegrador e integrador ao mesmo tempo" (GRAMSCI, Q 6, §10, pp. 690-91).

Destrutivo da vida do planeta e desorgânico às massas populares, o projeto burguês de modernidade, ainda que apresente enormes reservas de poder, continua a promover inquietantes catástrofes para se sustentar e revela perturbadores sinais de degenerescência diante do novo que emerge caótica e impetuosamente. É neste contexto que precisa analisar porque, ao mesmo tempo em que recrudesce o modo imperial das classes dominantes, se multiplicam as "ocupações" do campo e do processo alimentar, da cidade e dos seus serviços, das ruas e das praças, dos prédios públicos e das instituições democráticas. Insistentes manifestações que sinalizam que o soberano originário do poder reivindica para si o que uma minoria criminosa sequestrou, negando as expectativas mais profundas da "revolução moderna": os direitos universais, a autonomia dos povos, o reconhecimento do outro, a socialização da economia, da política e do conhecimento. Continuamente truncadas e reprimidas ao longo modernidade, as reivindicações da soberania popular se manifestam nos nossos dias nas formas mais inesperadas e incontroláveis. Suas ações não se limitam a obter concessões e conseguir melhorias no sistema vigente, mas, questionam os gânglios mais estratégicos do poder da burguesia: a estrutura econômica, o sistema financeiro, o monopólio da mídia, as oligarquias de magnatas e o grande patronato, as empresas transnacionais e organismos internacionais, verdadeiros estados no Estado que neutralizam as políticas sociais e anulam as condições para que uma sociedade possa se constituir livre e criativamente.

Desta forma, contrariamente à "globalização" neo-totalitária da grande burguesia capitalista que proclama "o fim da história" e faz acreditar que o atual sistema é insuperável, o processo de "mundialização" em fermento na mobilização de uma multiplicidade de sujeitos populares anuncia o fim de uma era e a aspiração para uma outra civilização. Ainda que com fragilidades, ambiguidades e contradições, por toda parte se deflagram iniciativas que defendem com imaginação criadora e novas formas políticas a ideia de que a natureza, a terra, a produção e o consumo, a economia, a cidade, as artes, a cultura, a ciência e o conhecimento, não podem ser apropriadas privadamente, porque componentes inalienáveis de um projeto comum em um mundo de todos.

Neste sentido, sendo a modernidade também a história das lutas e conquistas das classes populares, quando se analisa seu percurso, além das posições dos intelectuais e das "armas da crítica", é preciso estudar a "crítica das armas" forjadas na resistência, nas insurgências, nas revoluções e nas experiências alternativas de sociedade corajosamente ensaiadas pelas inúmeras atividades políticas dos "subalternizados" em todos os continentes. Essa história, particularmente visível nas organizações dos trabalhadores, nas lutas contra o colonialismo e nas revoluções culturais (BALIBAR, 1997), hoje, se manifesta nos inúmeros e diversos movimentos que mobilizam enormes contingentes de subalternizados no mundo inteiro.

As teorias do resgate da autenticidade da modernidade e das suas promessas, da "ação comunicativa" e dos mais variados "reformismos" conciliatórios, as investidas de "desconstrução" pós-moderna e a maré de literatura sentimental e evasiva, além de fechar os olhos sobre o poder destrutivo da burguesia, ignoram e desqualificam o movimento inovador que desponta nas atuais lutas populares. O protagonismo desse novo sujeito "revolucionário" que se afirma a seu modo no cenário mundial, desvela que o atual sistema é estruturalmente excludente e que nunca vai realizar "as promessas não cumpridas". Cada vez mais incompatíveis com o (neo)colonialismo e o capitalismo, suas ações políticas e culturais, que "desmancham tijolo a tijolo o mundo anterior" (HEGEL, 1988, p. 11), sinalizam a ruptura com a era da modernidade burguesa, reivindicam a titularidade e a socialização do poder, a realização de uma democracia no sentido mais radical da palavra e a criação de uma nova civilização.

 

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[1] Por "modernidade" entende-se o nova época histórica que se segue à dissolução do mundo feudal, enquanto "modernização" caracteriza a renovação que ocorre pelo desenvolvimento da ciência e da tecnologia e "modernismo" se refere, prevalentemente, aos aspectos artísticos, culturais e ideológicos. A proposito, cf. A. Touraine, Crítica da modernidade, Vozes, Petrópolis, 1994, p. 20ss e Marshall Berman, Tudo que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade, Companhia das Letras, São Paulo, 1999, pp. 15-35.

 
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